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Apostila de Liberação Miofascial Manual e Instrumental Fisioterapia Baseada em Evidências
Baseado em: Silva & Lamaro (2019) e literatura científica atual Pág. 1
APOSTILA DETALHADA
LIBERAÇÃO MIOFASCIAL
MANUAL E INSTRUMENTAL
Abordagem Baseada em Evidências Científicas
e Diretrizes de Fisioterapia
Material didático elaborado a partir do curso
Liberação Miofascial Manual e Instrumental
Prof. PhD. Mosiah Araújo Silva
Prof. Ms. Alexandre Lamaro
Fevereiro de 2019 (atualizado com literatura posterior)
Atenção: Esta apostila destina-se exclusivamente a profissionais de saúde
habilitados (Fisioterapeutas) e estudantes de Fisioterapia sob supervisão.
O uso de técnicas manuais e instrumentais exige formação específica e
respeito às normas do COFFITO e legislação vigente.
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SUMÁRIO
1. Introdução e Contextualização
2. Anatomia e Fisiologia do Sistema Fascial
3. Definições de Fáscia
4. Biotensegridade e Mecanotransdução
5. Densificação versus Fibrose da Fáscia
6. Dor Miofascial e Pontos Gatilho (Trigger Points)
7. Avaliação Clínica e Diagnóstico
8. Técnicas Manuais de Liberação Miofascial (por grupos musculares)
9. Técnicas Instrumentais – IASTM / Gua Sha (por regiões)
10. Ventosaterapia – Cupping (por regiões)
11. Indicações Clínicas
12. Contraindicações e Precauções
13. Princípios de Segurança e Boas Práticas
14. Evidências Científicas e Limitações
15. Considerações Éticas e Legais (COFFITO)
16. Referências Bibliográficas
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1. INTRODUÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO
A liberação miofascial (manual e instrumental) constitui uma ferramenta terapêutica complementar dentro do
arsenal da Fisioterapia Musculoesquelética. Ela se baseia no entendimento de que o sistema fascial forma
uma rede contínua de tecido conjuntivo que envolve, protege e conecta músculos, ossos, nervos e vísceras,
influenciando a transmissão de forças, a propriocepção e a percepção da dor.
Nas últimas décadas, o interesse científico pelo sistema fascial cresceu de forma exponencial, conforme
demonstrado pelo aumento de publicações indexadas em bases como Ovid e Scopus a partir dos anos
1990. Livros de referência como os de Schleip, Stecco, Myers, Chaitow e Travell & Simons consolidaram
bases teóricas e práticas para a abordagem miofascial.
Esta apostila organiza de forma sistemática os conceitos anatômicos, fisiológicos, clínicos e técnicos
necessários para a aplicação segura e fundamentada das técnicas de liberação miofascial, respeitando os
princípios da Prática Baseada em Evidências (evidências científicas + experiência clínica + valores do
paciente) e as normas éticas e legais da Fisioterapia brasileira.
2. ANATOMIA E FISIOLOGIA DO SISTEMA FASCIAL
2.1 Composição do Tecido Conjuntivo
O tecido conjuntivo é composto por três elementos principais:
• Células (metabolismo): fibroblastos, adipócitos, macrófagos, mastócitos, células mesenquimais
indiferenciadas, condroblastos/condrócitos e osteoblastos/osteócitos.
• Fibras (mecânica): colágeno (principal) e elastina.
• Substância fundamental (viscosidade e plasticidade): glicosaminoglicanos, água e íons.
A fáscia propriamente dita é constituída predominantemente por matriz extracelular (ECM), com pequena
proporção de células. Os fibroblastos são as células mais abundantes e responsáveis pela produção e
remodelação da matriz. A substância fundamental (especialmente o ácido hialurônico) permite o
deslizamento entre camadas e influencia a viscosidade do tecido.
2.2 Classificação e Densidade da Fáscia
A fáscia pode ser classificada quanto à densidade e regularidade das fibras:
• Fáscia superficial: frouxa, irregular, localizada subcutaneamente, com septos de retináculo cutâneo.
• Fáscia intramuscular: endomísio, perimísio e epimísio.
• Fáscia profunda (própria): mais densa e irregular.
• Aponeuroses, ligamentos e tendões: densos e regulares.
• Fáscia visceral: reveste órgãos.
Há continuidade fascial da pele até o osso. Em cortes transversais (ex.: antebraço), observa-se a fáscia
superficial (“favo de mel” com nódulos de gordura), fáscia profunda e septos intermusculares conectando-se
ao periósteo.
2.3 Inervação da Fáscia
A fáscia é rica em terminações nervosas livres (nociceptores), corpúsculos de Pacini e Ruffini. Estudos de
Stecco e colaboradores demonstraram densidade elevada de terminações nervosas livres em diversas
regiões (expansão do peitoral maior, fáscia bicipital, lacertus fibrosus, fáscia antebraquial e retináculo flexor).
A fáscia toracolombar, em particular, envia inputs nociceptivos para neurônios do corno dorsal lombar, o que
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explica sua relevância na dor lombar.
3. DEFINIÇÕES DE FÁSCIA
Não existe uma definição única e universalmente aceita. As principais são:
1. Federative International Committee on Anatomical Terminology (1998): “bainhas, folhas ou outros
agregados de tecido conjuntivo dissecável”, incluindo “revestimentos de vísceras e estruturas dissecáveis
relacionadas a elas”.
2. Standring et al. (2008): “massas de tecido conjuntivo grandes o suficiente para serem visíveis a olho
nu”, notando que as fibras tendem a ficar entrelaçadas e que inclui tecido areolar frouxo (fáscia superficial
subcutânea).
3. Schleip et al. (2012): “tecidos colagenosos fibrosos que fazem parte de um sistema de transmissão de
força tensional amplo do corpo”.
4. BIOTENSEGRIDADE E MECANOTRANSDUÇÃO
4.1 Tensegridade
O termo “tensegridade” (tensão + integridade) foi cunhado por R. Buckminster Fuller para descrever
estruturas cujos componentes usam tração e compressão de forma combinada, proporcionando estabilidade
e resistência global. No corpo humano, músculos e tecidos conjuntivos fornecem tração contínua, enquanto
ossos fornecem compressão descontínua. Devido à elasticidade das interconexões, o deslocamento de um
elemento transmite-se por toda a estrutura, que se adapta sem quebrar.
4.2 Mecanotransdução
É o mecanismo pelo qual as células convertem estímulos mecânicos em atividade química. Forças
mecânicas influenciam crescimento, forma e expressão gênica. As integrinas e caderinas permitem a
adesão do citoesqueleto à matriz extracelular; a partir delas, o estímulo mecânico aplicado à superfície da
membrana é transmitido ao interior da célula, gerando remodelação de adesões focais e do citoesqueleto.
Estudos experimentais (ex.: Langevin et al.) demonstram que o estiramento mecânico pode modular a
resolução da inflamação no tecido conjuntivo, reduzindo a espessura de lesões inflamatórias e alterando o
perfil de mediadores (resolvinas, leucotrienos).
5. DENSIFICAÇÃO VERSUS FIBROSE DA FÁSCIA
Segundo Pavan, Stecco, Stern e Stecco (2014):
“As diferentes camadas do corpo contêm tecidos conjuntivos frouxos viscosos que permitem a função de
deslizar, proteger as estruturas neurais sensíveis, bem como facilitar o movimento eficiente sem dor e a
transmissão de força. A função de deslizamento pode ser perdida por trauma, inflamação ou envelhecimento,
resultando em fibrose, espessamento e densificação.”
Densificação: alteração do tecido conjuntivo frouxo (qualidade dos componentes – células adiposas,
glicosaminoglicanos e ácido hialurônico – e viscosidade fascial). O aumento da densidade impede o
deslizamento das estruturas de tecidos moles.
Fibrose: alteração do tecido conjuntivo denso, com produção e deposição excessiva de colágeno.
Fatores que influenciam a rigidez mecânica do tecido fascial incluem: cross-linking, hidratação, hialuronano,
alongamento, contratilidade celular, deposição de matriz extracelular, envelhecimento, corticosteroides,
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estrogênio, doenças neuromusculares, predisposição genética e cicatrizes traumáticas (Zügel et al., 2018).
6. DOR MIOFASCIAL E PONTOS GATILHO
6.1 Definição de Dor
Segundo a IASP (1979, atualizada): “Experiência sensitiva e emocional desagradável, associada a uma
lesão tecidual real ou potencial, ou descrita em termos de tais lesões.” Em 2016, enfatizou-se os
componentes sensoriais, emocionais, cognitivos e sociais. A cronificação da dor envolve desequilíbrio entre
amplificação e inibição, com migração da representação cerebral do circuito nociceptivo para circuitos
cognitivo-emocionais (Hashmi et al., 2013).
6.2 Definição de Dor Miofascial
A dor miofascial é uma desordem muscular regional caracterizada pela presença de pontos hipersensíveis
(trigger points / pontos gatilho), localizados em bandas rígidas (bandas tensas) de músculos esqueléticos,
doloridos à palpação e que podem produzir dor referida.
6.3 Histórico
• 1900 – Alder: reumatismo muscular.
• 1904 – Gowers: fibrosite.
• 1938 – Kellgren: injeção de solução salina e mapeamento de dor referida.
• 1950 em diante – Janet Travell: conceito de dor miofascial e ponto gatilho.
• 1983 – Travell & Simons: 1ª edição do Trigger Point Manual (3ª edição em 2018/2019).
6.4 Fisiopatologia – Hipótese Integrada
A hipótese integrada (Simons) propõe: liberação excessiva de acetilcolina na junção neuromuscular →
despolarização mantida → liberação contínua de cálcio → contração sustentada dos sarcômeros →
compressão de vasos → isquemia local → crise energética → liberação de substâncias sensibilizadoras
(prótons, bradicinina, CGRP, substância P, TNF-α, IL-1β, serotonina, noradrenalina). Estudos de
microdiálise de Shah et al. confirmaram concentrações elevadas desses mediadores em pontos gatilho
ativos.
Há evidência de que pontos gatilho são fonte periférica de nocicepção e podem induzir sensibilização
central; o tratamento adequado pode atenuar a sensibilização central (Fernández-de-las-Peñas &
Dommerholt, 2014).
6.5 Características Clínicas dos Pontos Gatilho
Achados comuns (Simons, Travell):
• Banda tensa palpável (palpação em pinça ou plana transversal às fibras).
• Ponto hipersensível na banda tensa.
• Resposta contrátil local (local twitch response) quando estimulada adequadamente.
• Pode produzir fenômenos autonômicos e motores.
• Pode restringir a amplitude de movimento e causar fraqueza inibitória.
Pontos gatilho ativos: referem ou reproduzem a dor reconhecível pelo paciente; dor espontânea local ou
referida.
Pontos gatilho latentes: doloridos apenas à palpação ou agulhamento; não reproduzem o sintoma familiar
do paciente.
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6.6 Etiologia
• Microtraumatismos e movimentos repetitivos.
• Posturas de tensão mantidas.
• Macrotraumatismos.
7. AVALIAÇÃO CLÍNICA E DIAGNÓSTICO
Métodos diagnósticos utilizados para examinar estrutura e função do tecido fascial incluem: palpação
manual (custo-efetiva, porém com confiabilidade limitada), indentometria, ultrassonografia (espessura de
camadas, cisalhamento relativo, elastografia por compressão ou shear-wave), bioimpedância e biópsia
(invasiva). A palpação manual permanece a ferramenta clínica mais acessível, devendo ser combinada com
anamnese completa, exame físico e raciocínio clínico para diferenciar mecanismos nociceptivos,
neuropáticos e de sensibilização central.
8. TÉCNICAS MANUAIS DE LIBERAÇÃO MIOFASCIAL
Diversas escolas e métodos influenciaram a prática atual: Rolfing (Ida Rolf), Técnica de Cyriax (fricção
transversal profunda), Terapia de Indução Miofascial (Andrzej Pilat), Trilhos Anatômicos / Anatomical Trains
(Thomas Myers), Método Stecco / Manipulação Fascial (Luigi Stecco), Massagem do tecido conjuntivo
(Elizabeth Dicke) e Modelo de Distorção Fascial (Stephen Typaldos).
8.1 Princípios Gerais de Aplicação Manual
• Limitar o uso de cremes e óleos (interferem no feedback tátil e no cisalhamento).
• Quanto mais profunda a técnica, mais lento o procedimento.
• Trabalhar as camadas de superficial para profundo.
• Respeitar sempre a sensibilidade e a resposta do paciente.
• Manter contato contínuo e observar sinais de liberação (amolecimento, calor local, redução de dor
referida).
8.2 Vetores de Força e Contatos
• Compressão: pressão perpendicular à superfície.
• Tração: alongamento longitudinal das fibras.
• Torção: combinações de forças rotacionais.
• Cisalhamento: deslizamento paralelo entre camadas.
Contatos mais utilizados: polegar, dedos, punho, palma da mão, cotovelo/antebraço, juntas (falanges).
Também se emprega a técnica de pinçar, puxar e mover (skin rolling / pinçamento).
8.3 Método Stecco (resumo)
A Manipulação Fascial de Luigi Stecco organiza o corpo em centros de coordenação (CC) e centros de
percepção (CP), relacionados a segmentos e a unidades miofasciais. O tratamento foca em pontos
densificados identificados por palpação, com o objetivo de restaurar o deslizamento e a coordenação do
movimento.
8.4 Técnicas Manuais por Grupos Musculares
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A seguir, exemplos práticos de liberação miofascial manual organizados por regiões corporais. Cada técnica
descreve posicionamento do paciente e do terapeuta, contato, direção de força e tempo aproximado de
manutenção. As imagens ilustrativas são esquemas de referência (substituíveis por fotos clínicas próprias).
8.4.1 Região Cervical
A) Liberação Suboccipital
Paciente em decúbito dorsal, cabeça apoiada. Terapeuta sentado na cabeceira. Contato com polpas dos
polegares ou 2º–4º dedos na base do crânio (músculos suboccipitais: retos posteriores e oblíquos). Aplicar
pressão suave cranial e levemente anterior, mantendo 90–120 segundos ou até sentir amolecimento.
Pode-se combinar com leve tração axial cervical. Indicação: cefaleia tensional, restrição de extensão
cervical, pontos gatilho referidos para região occipital.
B) Trapézio Superior / Fibras Superiores
Paciente sentado ou em decúbito dorsal. Terapeuta ao lado. Pinçamento do ventre muscular entre polegar e
demais dedos, seguido de tração lateral/caudal, ou compressão com cotovelo no ventre muscular (paciente
sentado). Manter 60–90 segundos. Alternativa: skin rolling ao longo da borda superior. Indicação: elevação
de ombro, dor referida para cabeça e face lateral do pescoço.
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C) Escalenos e Esternocleidomastoideo (ECM)
Paciente em decúbito dorsal. Terapeuta ao lado da cabeça. Para escalenos: contato digital na face lateral do
pescoço (entre ECM e trapézio), compressão suave + leve rotação contralateral da cabeça. Para ECM:
pinçamento do ventre muscular, tração longitudinal ou compressão isquêmica em pontos gatilho. Cuidado
especial com vasos e nervos; intensidade baixa a moderada. Tempo: 45–90 segundos.
8.4.2 Cintura Escapular
A) Romboide Maior e Menor
Paciente em decúbito ventral, braços ao longo do corpo ou levemente abduzidos. Terapeuta ao lado.
Contato com polegar, cotovelo ou antebraço no espaço entre a borda medial da escápula e a coluna
(T2–T5). Aplicar cisalhamento medial-lateral ou compressão sustentada, podendo combinar com abdução
passiva da escápula. Manter 90–120 segundos. Indicação: escápula alada, dor interescapular, restrição de
retração escapular.
B) Elevador da Escápula
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Paciente sentado ou em decúbito ventral. Contato no ângulo superior da escápula e ao longo do ventre
muscularaté os processos transversos de C1–C4. Pressão com polegar ou cotovelo + tração caudal da
escápula e leve rotação ipsilateral da cabeça. Manter 60–90 segundos. Indicação: elevação assimétrica de
ombro, dor referida para base do crânio e ângulo da mandíbula.
C) Serrátil Anterior
Paciente em decúbito lateral (lado a tratar para cima) ou sentado. Contato digital ou com a borda ulnar da
mão ao longo da parede lateral do tórax (costelas 1–8/9), seguindo as fibras do serrátil. Cisalhamento ou
compressão + protração passiva da escápula. Tempo: 60–90 segundos. Indicação: escápula alada, dor
lateral de tórax, restrição de abdução do braço.
8.4.3 Região do Ombro
A) Infraespinhal e Redondo Menor
Paciente em decúbito lateral (lado a tratar para cima) ou dorsal com braço em rotação interna. Terapeuta
posiciona cotovelo, polegar ou juntas sobre a fossa infraespinhal. Compressão progressiva sustentada
90–120 segundos; pode-se adicionar rotação externa passiva lenta. Indicação: dor referida para região
deltoidea e braço lateral, restrição de rotação externa.
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B) Subescapular
Paciente em decúbito dorsal, braço abduzido cerca de 90–120° (respeitando o limite de dor). Terapeuta
introduz a mão na fossa axilar, contatando a face anterior da escápula. Pressão suave e progressiva em
direção posterior, mantendo 90–120 segundos. Técnica delicada – intensidade baixa. Indicação: restrição de
rotação externa e abdução, quadro semelhante a capsulite adesiva inicial.
C) Peitoral Maior e Menor
Paciente em decúbito dorsal. Para peitoral maior: contato no ventre muscular e inserção no úmero, com
tração lateral ou compressão. Para peitoral menor: contato sob o processo coracoide, pressão caudal e
lateral, podendo combinar com retração escapular. Tempo: 60–90 segundos. Indicação: ombros protrusos,
restrição de extensão e rotação externa do braço.
8.4.4 Costas (Torácica e Lombar)
A) Paravertebrais / Eretores da Espinha
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Paciente em decúbito ventral. Terapeuta utiliza antebraço, punho ou cotovelo ao longo das massas
paravertebrais (de T1 a L5). Deslizamento longitudinal lento (cisalhamento) ou compressão sustentada em
pontos densificados. Trabalhar de superficial para profundo. Tempo por segmento: 40–90 segundos.
Indicação: dor lombar e torácica mecânica, restrição de flexão/extensão do tronco.
B) Quadrado Lombar
Paciente em decúbito lateral (lado a tratar para cima), com leve flexão de quadril e joelho. Terapeuta contata
a região entre a 12ª costela e a crista ilíaca (borda lateral do QL). Compressão medial + tração caudal ou
cranial, mantendo 90–120 segundos. Pode-se combinar com inclinação lateral passiva do tronco. Indicação:
dor lombar unilateral, restrição de inclinação contralateral, ponto gatilho referido para crista ilíaca e grande
trocanter.
C) Fáscia Toracolombar e Latíssimo do Dorso
Paciente em decúbito ventral ou lateral. Contato amplo com a palma ou antebraço na fáscia toracolombar,
realizando cisalhamento em diferentes direções (longitudinal, transversal e diagonal). Para latíssimo:
deslizamento ao longo do ventre muscular desde a crista ilíaca até a axila, podendo combinar com abdução
e rotação externa do braço. Tempo: 60–120 segundos por área.
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8.4.5 Membros Inferiores (resumo)
• Glúteo médio/mínimo: paciente em DL; compressão com cotovelo ou polegar no ventre muscular +
abdução passiva. • Piriforme: paciente em DL ou DV; compressão profunda na região glútea profunda
(cuidado com nervo ciático). • Isquiotibiais: paciente em DV; deslizamento longitudinal e pinçamento. •
Tríceps sural / fáscia plantar: paciente em DV ou sentado; compressão e cisalhamento com polegar ou
cotovelo; para planta do pé usar polegar ou instrumento.
9. TÉCNICAS INSTRUMENTAIS – IASTM / GUA SHA
IASTM = Instrument Assisted Soft Tissue Mobilization (Mobilização de Tecidos Moles Assistida por
Instrumentos).
9.1 Origens e Instrumentos
O Gua Sha tradicional (medicina chinesa) utiliza instrumentos de osso, chifre ou pedra para “raspagem” da
pele, gerando petéquias. A versão contemporânea ocidental (Graston Technique®, 1994, e diversos kits
comerciais – Mioblaster, etc.) utiliza instrumentos de aço inoxidável com bordas específicas para detectar e
tratar restrições de tecido mole com menor esforço do terapeuta e maior feedback tátil.
9.2 Mecanismos Propostos
Os mecanismos sugeridos incluem: inflamação localizada controlada, remoção/remodelação de tecido
cicatricial, aumento de células-tronco mesenquimais residentes, atividade de fibroblastos e fibronectina,
síntese e realinhamento de colágeno, melhora da morfologia microvascular, redução de má vascularização,
aumento de vasos arteriolados e da perfusão tecidual, levando a turnover e regeneração tecidual (Kim et al.,
2017).
9.3 Protocolo Típico de Aplicação (IASTM)
1. Aquecimento: 10–15 min de atividade leve ou 3–5 min de calor/ultrassom.
2. IASTM: ângulo de 30° a 60°, tempo de 40–120 segundos por área localizada (ou 3–5 min por região).
3. Alongamento: 3 séries de 30 segundos.
4. Fortalecimento: exercícios de alta repetição e baixa carga.
5. Crioterapia (se necessário): 10–20 min para controle de inflamação residual.
Intervalo recomendado entre sessões na mesma área: pelo menos 4 dias. Avaliar sempre a região de forma
local e global (cadeia cinética).
9.4 IASTM por Regiões – Exemplos
Cervical / Trapézio superior: instrumento convexo ou com borda adequada; movimentos curtos e lentos no
sentido das fibras e transversalmente; intensidade baixa a moderada; evitar compressão sobre processos
ósseos e vasos. Tempo: 40–90 s por área.
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Cintura escapular (romboide, elevador, infraespinhal): paciente em DV ou DL; instrumento com borda
côncava ou reta; varreduras no sentido das fibras e em “X”; pressão moderada. Tempo: 60–120 s por
músculo.
Ombro (manguito rotador e peitoral): paciente em DD ou DL; movimentos curtos sobre as inserções e
ventres; especial atenção à fossa infraespinhal e borda lateral da escápula.
Costas (paravertebrais e QL): paciente em DV ou DL; deslizamentos longos longitudinais e curtos
transversais; ângulo 30–45°; evitar pressão direta sobre processos espinhosos.
Membros inferiores: isquiotibiais, tríceps sural e fáscia plantar – movimentos longitudinais e transversais;
na planta do pé usar instrumento de menor tamanho e pressão controlada.
10. VENTOSATERAPIA (CUPPING)
Método que utiliza pressão negativa (vácuo) para criar congestão sanguínea local e estímulo mecânico.
Historicamente presente na medicina chinesa (Jiao Fa), coreana (Buhang) e japonesa (Suidama).
Atualmente utilizam-se copos de acrílico com bomba manual de vácuo.
10.1 Intensidade de Sucção
• Fraca: 1 bombeada.
• Média: 2 bombeadas.
• Forte: 3 a 4 bombeadas.
10.2 Dosagem e Métodos
• Duração: 30 segundos a 5 minutos.
• Aplicações por local: 2 a 8 vezes.
• Intervalo no mesmo local: 24 horas.
Métodos: fixa (fraca/média/forte), deslizante, com agulha, com moxa, flash (vazio), sangria (plenitude),
herbáceo, com água.
A força, o número de ventosas e a duração devem ser adaptados à condição de saúde e resistência do
paciente. Moderação é recomendada nos primeiros dias.
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10.3 Ventosaterapia por Regiões – Exemplos
Cervical e trapézio superior: ventosas de menor diâmetro; sucção fraca amédia; método fixo ou flash;
evitar região anterior do pescoço e vasos. Tempo: 30–90 segundos.
Cintura escapular e ombro: ventosas médias sobre romboide, infraespinhal e deltoide posterior; método
fixo ou deslizante (com óleo); sucção média. Tempo: 1–3 minutos.
Costas (torácica e lombar): método deslizante ao longo dos paravertebrais e fáscia toracolombar (óleo +
sucção média); ou fixo em pontos de maior densificação. Tempo: 2–5 minutos por área.
Membros inferiores: glúteos, isquiotibiais e panturrilha – ventosas médias a grandes; método fixo ou
deslizante; sucção média a forte conforme tolerância.
11. INDICAÇÕES CLÍNICAS
As técnicas de liberação miofascial (manual e instrumental) têm sido estudadas e clinicamente aplicadas
em:
• Dor musculoesquelética crônica (lombar, cervical, orofacial, ombro, calcâneo).
• Restrições de amplitude de movimento e disfunções de extensibilidade tecidual.
• Lesões por overuse em atletas e praticantes de atividade física.
• Sequela de cirurgia de mama (dor e restrição de mobilidade de membro superior).
• Fibromialgia e condições de sensibilização (com cautela e abordagem multimodal).
• Preparação pré-atividade e recuperação (ganho de ROM sem prejuízo da função muscular).
Importante: a liberação miofascial deve ser integrada a um plano de tratamento mais amplo (exercício
terapêutico, educação em dor, abordagem biopsicossocial), e não utilizada isoladamente como “cura”.
12. CONTRAINDICAÇÕES E PRECAUÇÕES
Contraindicações absolutas ou relativas (adaptadas de protocolos de IASTM e ventosaterapia):
• Feridas abertas, infecções cutâneas ativas, dermatoses agudas.
• Fraturas não consolidadas.
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• Tromboflebite / trombose venosa profunda.
• Hematoma recente ou distúrbios de coagulação / uso de anticoagulantes (avaliar risco-benefício).
• Febre ou doença infecciosa sistêmica aguda.
• Convulsões não controladas.
• Alergias conhecidas a materiais utilizados.
• Abdômen de gestante (evitar pressão/vácuo na região abdominal).
• Edema agudo significativo.
• Áreas de fragilidade óssea ou pele muito delgada (idosos, corticoterapia prolongada).
Evitar petéquias excessivas ou hematomas extensos (especialmente em pacientes que não desejam
marcas visíveis ou em contextos sociais/viagens). Em Gua Sha e IASTM, a intensidade deve ser modulada
para não causar lesão iatrogênica.
13. PRINCÍPIOS DE SEGURANÇA E BOAS PRÁTICAS
• Consentimento informado: explicar objetivos, sensações esperadas, possíveis marcas (petéquias,
eritema) e alternativas.
• Higiene e desinfecção rigorosa de instrumentos e ventosas (protocolos de esterilização ou desinfecção
de alto nível).
• Avaliação contínua da resposta do paciente (dor, desconforto, sinais autonômicos).
• Progressão gradual de intensidade e profundidade.
• Integração com exercício terapêutico e educação do paciente.
• Documentação completa no prontuário.
• Atualização constante em evidências e formação específica nas técnicas utilizadas.
14. EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS E LIMITAÇÕES
A literatura sobre liberação miofascial e IASTM ainda apresenta limitações metodológicas: muitos estudos
de caso e séries de casos, poucos ensaios clínicos randomizados de alta qualidade, heterogeneidade de
protocolos e populações.
Revisões sistemáticas (ex.: Laimi et al., 2017; Ajimsha et al., 2015; Cheatham et al., 2016; Mauntel et al.,
2014) indicam que há potencial benefício, especialmente no ganho de amplitude de movimento, com
resultados mistos para dor crônica. Algumas revisões concluem que a evidência atual não é suficiente para
recomendar a liberação miofascial de forma isolada em dor musculoesquelética crônica; outras apontam
resultados encorajadores e necessidade de mais estudos de qualidade.
Na prática clínica, a decisão deve considerar o modelo de Prática Baseada em Evidências: evidências
disponíveis + experiência clínica do profissional + valores e preferências do paciente. A liberação miofascial
é uma ferramenta adicional, não um substituto de abordagens com maior suporte de evidência (exercício,
educação, abordagem biopsicossocial).
15. CONSIDERAÇÕES ÉTICAS E LEGAIS (COFFITO)
No Brasil, a prática da Fisioterapia é regulamentada pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia
Ocupacional (COFFITO) e conselhos regionais. Técnicas manuais e instrumentais de liberação miofascial
inseridas no contexto da Fisioterapia Musculoesquelética e da Terapia Manual devem ser realizadas por
Fisioterapeutas devidamente registrados, com formação adequada e dentro dos limites de sua competência.
Apostila de Liberação Miofascial Manual e Instrumental Fisioterapia Baseada em Evidências
Baseado em: Silva & Lamaro (2019) e literatura científica atual Pág. 16
É dever do profissional: manter-se atualizado, informar o paciente de forma clara, obter consentimento,
respeitar a dignidade e a autonomia do paciente, evitar práticas sem fundamentação ou que exponham o
paciente a riscos desnecessários, e documentar adequadamente o atendimento. Publicidade e divulgação
devem seguir as normas do Código de Ética e de publicidade profissional.
Esta apostila não substitui formação prática supervisionada nem a responsabilidade individual do
profissional perante a legislação e os conselhos de classe.
16. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Silva, M. A., & Lamaro, A. (2019). Liberação Miofascial Manual e Instrumental (material de curso / apresentação).
International Association for the Study of Pain (IASP). Definições de dor (1979 e atualizações).
Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia – COFFITO (e resoluções correlatas vigentes).
Esta apostila foi elaborada para fins educacionais, com base no material do curso de Liberação Miofascial
Manual e Instrumental (Silva & Lamaro, 2019) e na literatura científica citada. Não substitui a consulta a fontes
originais nem a formação prática supervisionada. O profissional é responsável pelo uso adequado e ético das
técnicas.