A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
479 pág.
Livro Justiça restaurativa[1]

Pré-visualização | Página 49 de 50

(e que nós
retornaremos na próxima seção). Sendo os processos secundários, é possível
aceitar que a arbitragem faça parte do arsenal dos meios de que dispõe a justiça
restaurativa para atingir suas finalidades. É neste modelo que se pode pôr em
questão, por exemplo, as sanções restaurativas impostas por um juiz no caso em
que uma das partes recusa participar de uma negociação ou quando uma das
partes é desconhecida, está ausente ou morta.
Modelo centrado nos processos: outros consideram que as finalidades
restaurativas são secundárias e que estes são os processos que definem o modelo
de justiça restaurativa. Nesta concepção, todo o processo fundamentado sobre a
participação (das partes ligadas pela infração ou pela comunidade circunvizinha)
se insere no modelo de justiça restaurativa. Assim, embora as finalidades ligadas
aos processos negociados sejam de cunho retributivo, somente o fato de que
hajam as negociações, as consultas ou os envolvimentos é suficiente para que
alguns considerem que suas práticas façam parte de um modelo de justiça
restaurativa.
Modelo centrado nos processos e nas finalidades: os mais puristas consideram
que a justiça restaurativa é definida, às vezes, através de processos negociados e
através de finalidades restaurativas. Este terceiro modelo adota uma visão mais
restrita da justiça restaurativa. Isto impõe à mesma condições (meios negociáveis e
finalidades restaurativas) que concentram todas as possibilidades de serem aplica-
das a situações que requeiram boa vontade de ambas as partes no que diz respeito
à infração. Porém, introduzir a boa vontade como critério absoluto de encaminhar
os casos aos programas restaurativos, conduz inevitavelmente a confinar a justiça
restaurativa à administração de infrações sumárias o que, evidentemente, reduz seu
potencial de ação. Este terceiro modelo corresponde ao que Walgrave (1999 e 2003)
designa através da perspectiva minimalista ou diversionista (no sentido de enca-
minhamento alternativo) e se inscreve nas práticas de mecanismos civis e não de
mecanismo jurídicos.
Em nossa opinião, o segundo modelo (modelo centrado nos proces-
sos) é o que mais corrompe os princípios fundadores da justiça restaurativa. Uma
justiça participativa ou comunitária é uma justiça restaurativa se, e somente se, as
ações expandidas objetivam a reparação das conseqüências vivenciadas após um
crime. Um círculo de sentenças se insere em um modelo de justiça restaurativa
contanto que os membros do círculo recomendem ao juiz a adoção de medidas
restaurativas. Um círculo de sentença que recomenda encarcerar o autor do delito
(sem a reunião de medidas restaurativas) não é um modelo de justiça restaurativa.
172
172
Só o primeiro e o terceiro modelo são modelos de justiça restaurativa. Assim
como Walgrave (1999), nós acreditamos que a perspectiva maximalista é a mais
suscetível para ampliar seu espectro de ação e transformar a racionalidade penal.
Ela tem também a vantagem de desfazer a idéia preconcebida que a justiça
restaurativa equivale a encontros entre os contraventores e as vítimas e que fora de
tais encontros, nenhuma forma de justiça restaurativa é previsível.
Os principais procedimentos que cercam a justiça restaurativa
a) Os lugares de prática (perspectiva maximalista x perspectiva minimalista).
Os partidários da justiça restaurativa divergem quanto aos locais de
aplicação da justiça restaurativa. Duas tendências podem ser identificadas : a ten-
dência minimalista ou “diversionista do sistema judiciário principal” e a tendên-
cia maximalista (Walgrave, 1999 e 2003). A tendência detalhista ou “desvio do
sistema judiciário principal” concebe que a justiça restaurativa deve convocar ex-
clusivamente voluntários, ou seja, que as partes ligadas ao crime ou ao conflito
devem aceitar antecipadamente serem orientadas nos processos de justiça
restaurativa para que os mesmos sejam aplicados. Os promotores desta perspec-
tiva estimam que o estado deve ser afastado da administração destes processos.
A justiça restaurativa é concebida então como uma alternativa ao sistema de
justiça estatal e se vê limitada à adoção de processos de mecanismos não jurídicos
ou de mecanismos civis.
A tendência maximalista se opõe a esta visão da justiça restaurativa devi-
do aos limites de sua aplicação. Walgrave (1999), um dos defensores desta ten-
dência, considera que a justiça restaurativa deve transformar profundamente o
modelo retributivo e, para tal, deve ser integrada ao sistema de justiça estatal. De
acordo com ele, restringir os processos restaurativos a processos estritamente
voluntários leva a confinar a aplicação da justiça restaurativa a pequenas causas.
Para que a justiça restaurativa amplie seu campo de ação a delitos mais graves, é
necessário, de acordo com a autora, aceitar que os processos possam ser impos-
tos, sobretudo sob a forma de sanções restaurativas. Os minimalistas contestam
esta orientação sob o pretexto de que o impacto dos processos restaurativos é
reduzido se as partes não forem voluntárias e se elas não puderem negociar os
modos de reparação no ambiente de encontros diretos.
Especifiquemos que a perspectiva minimalista é, atualmente, domi-
nante, embora certas iniciativas restaurativas são aplicadas dentro do sistema
penal (por exemplo, as sanções restaurativas, as reuniões entre as vítimas e os
detentos nas prisões). A inclusão de iniciativas restaurativas dentro do sistema
penal contribui para obscurecer o limite e os objetivos da justiça restaurativa.
Alguns autores tendem a desfazer a oposição fundadora entre a justiça restaurativa
e a justiça retributiva, qualificando isto de mito (ver principalmente Daly, 2002).
Mylène Jaccoud
Justiça Restaurativa
173
Aliás, as mais recentes reflexões sobre a justiça restaurativa levam em conta a
penosa questão da relação entre punição e reparação. Cada vez mais os peritos
afirmam que a justiça restaurativa não é irreconciliável com o modelo retributivo
e que ela deve vir a ser seu complemento (ver as reflexões na obra publicada de
von de Hirsch et al., 2003). Como então definir um sistema penal aplicando um
modelo retributivo restaurativo? Hudson (2003) acredita que é importante con-
ceber que toda medida imposta aos contraventores permanece uma forma de
punição e não de reparação.
Em nossa opinião, é necessário distinguir:
1) um sistema de justiça estatal que mude para valorizar a reparação dos
danos causados à vítima convidando o ofensor a contribuir com isto em detri-
mento da pena. Este sistema não é mais retributivo, mas sim restaurativo. Mes-
mo se o nível de constrangimento for elevado e mesmo se, subjetivamente, o
ofensor possa vivenciar a imposição de uma sanção objetivando a correção do
dano como punição. O termômetro que permite avaliar se um sistema é
restaurativo é, vamos repetir, a finalidade (reparar as conseqüências) e não a per-
cepção dos envolvidos. Neste contexto, o termo “sistema penal” poderia ser
substituído por “sistema de justiça”; em tal sistema, a verdadeira alternativa
tornar-se-ia a sanção punitiva (o encarceramento), compreendida como uma úl-
tima forma de sanção punitiva em casos onde o autor representa uma real ameaça
para a sociedade14;
2) um sistema de justiça estatal que não transforma a finalidade das sanções
(manutenção das finalidades punitivas), mas que acrescenta uma dimensão
restaurativa às suas modalidades de aplicação das sanções. Este sistema permane-
ce retributivo em sua essência. É de se perguntar se a adição de dimensões
restaurativas, considerando-se o seu caráter inevitavelmente coercitivo, não virá a
endurecer um sistema que aumenta suas exigências diante dos contraventores
devendo os mesmos, além de suas penas, engajar-se em iniciativas restaurativas.
Nós podemos resumir os diferentes locais de exercício da justiça
restaurativa através do seguinte quadro:
Quadro 4 : locais de aplicação da justiça restaurativa