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Obras selecionadas de Lutero. Volume1: Os primórdios. 1517 - 1519

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para as obras e penas que são 
ai10 remitidas. 
18. Se as almas são tiradas do purgatório através da indulgência, isso eu 
não sei e também ainda não acredito, mesmo que alguns novos doutores o 
afirmem. Mas não podem prová-lo, e também a Igreja ainda não decidiu so- 
bre o assunto. Por isso, para maior segurança, é muito melhor que ores e 
atues por elas, pois isto está mais comprovado e certo. 
19. Sobre esses pontos não tenho dúvida alguma, pois estão suficiente- 
mente fundados na Escritura. Por isso também vocês não devem ter dúvida 
alguma, e deixem os doutores escolásticos~t serem escolásticos. Todos eles 
não são suficientes, com suas opiniaes, para fundamentar um sermão. 
20. Ainda que alguns, para os quais esta verdade dá grande prejuízo ma- 
terial, agora me chamem de herege, não dou muita importância a semelhante 
palavrório, pois quem está a fazê-lo são alguns cérebros tenebrosos que nun- 
ca cheiraram a Bíblia, nunca leram os mestres cristãos, nunca entenderam os 
seus próprios professores e já estão quase a decompor-se em suas opiniões es- 
buracadas e esfarrapadas. Pois se os tivessem entendido, saberiam que não 
devem difamar a ninguém sem ouvi-lo e convencê-lo do seu erro. Que Deus 
dê a eles e a nós um entendimento correto! Amém. 
10 Sc. na indulgência. 
I I Cf. o juizo emitido por Lutero a respeito das doutores escol&sticos nas teses 18 e 19 do De 
bate de Heidelberg, p. 49 deste volume. 
34 
O Debate de ~eidelber~' 
O capitulo geral d o s agostiiiianos alemães reunia-se d e três e m três anos , sempre 
n o domingo .lubilote. E m 1518, João von Staupitz2 convocou-o para o dia 25 d e abril. 
Nesta opor tunidade , Lutero, eleito três anos antes pa ra o carpo d e vipário distrital, de- 
. 
visto. Essa incumbência deve ser vista como u m a distinção: ela significa que t an to 
Staupitz quan to a o r d i m dc 1.utero não estão dispostos a abandoná-lo. Dent ro desta 
perspectiva, 1.utero n ã o tem adversários iio debate realizado a 26 d e abril d e 1518. Seu 
jovem colega d e ordem, Leonardo Beier, defende a s teses; seus ouvintes estão dispos- 
tos a acompanhar sua argumentaçáo. E m carta dirigida a Espalatino,, assinada c o m as 
palavras "Martinus Eleuthcrius" e da t ada d e i8 d e maio d e 1518, o reformador con t a 
que o dcbate transcorreu d a maneira mais cordial. Seus professores occamistasd, Usin- 
gen e Trutvetter , não puderam acompanhá-lo, pois as teses foram, tia verdade, u m 
a taque a teologia destes. Tan to maiores foram os aplausos dos estudantes e dos jovens 
I Disputotio Heideibergoe habito, WA 1,353-65. Tradusão de Waltcr O. Schlupp. 
2 1469(?)-28/12/3524. Nasceu ein Motterwitz, perto de Leisnig, falecendo em Salrburgo. 
Nobre sanão. estudou em Colôniae Leiprig, tornando-se agostiniano, em Munique, no ano 
de 1490. Em 1497 tornou-se prior do convento de Tubingen. Desde 1500 doctor in bibiia, 
foi convocado por Frederico, o Sábia, em 1503, para ser o primeiro decano da Faculdade 
de Teologia da Universidade de Wittenberg. Neste ano, tornou-se também vigário-geral da 
Congregação alenià de Observantes. No processo contra Lutero, Staupitz procurou 
defendê-lo onde lhe foi possivel, liberando-o. p. ex., do voto deobediência. Como estivesse 
sob suspeita de heresia, Staupitz renunciou, em 1520, ao cargo de vigária-geral. tornando- 
se pregador da corte da cardeal-arcebispo Mateus Lang, em Salrburgo, e abade do Conven- 
to beneditiiio de São Pedra. Desde entào, houve um distanciamento eni re la~ão a Lutero. 
Staupitr tem influências do tomismo e da mística alemã. Sua piedade cristocêntrica auxi- 
liou Lutero em seus conflitos com a penitência e a doutrina da predestinação. 
3 WA Br 1 , 1 7 3 ~ ~ . Georg Burckhardt (1484-l545), nasceu em Spalt, perto de Nürnberg. Dai 
seu cognomc Spalatin, Espalatino. Estudou Direito em Erfurt e Wittenberg, tornando-se, 
apbs, sacerdote. Desde 1508 está a serviço de Frederico, o Sábia, cuja chancelaria assume 
em 1516. Influenciado pelo humanismo, colabora com Lutero e Melanchthon na reforma 
da Universidade de Wittenberg. Secretário, conselheiro e pregador de Frederico, Espalati- 
no gola de posicão ímpar junto ao principe-eleitor, o que lhe permite assegurar a protecão 
deste para Lutero. Como humanista e tradutor de obras de Lutero e Melanchthon, procu- 
rou. por muita tempo, intermediar entre Lutero e Erasmo. Desde I525 é pastor em Alten- 
Uurgo. Participando das visitacões, Espalatino teve grande influência na organização do 
Silprciiio Episcopado dos Senhores Teriitoriais. Teologicamente dependente de Lutero, di- 
vr ige dçste na doutrina eucarisiica. 
4 Srgiiidixcc de (iuilhcrme de Occam (1285.1349). 
Da Teologia 
Desconfiando inteiramente de nós mesmos, em conformidade com aque- 
le conselho do Espírito: "Não te fies em tua inteligência" [Pv 3.51, vimos hu- 
mildemente oferecer ao julgamento de todos os que quiserem estar presentes 
os seguintes paradoxos teológicos, para que assim se evidencie se estão bem 
ou mal tomados do divino Paulo, vaso e órgão de Cristo escolhido por exce- 
lência, e ainda de Sto. Agostinho, seu mui fiel intérprete. 
1. A lei de Deus, mui salutar doutrina da vida, não pode levar o ser hu- 
mano a justiça; antes, o impede. 
2. Muito menos podem levá-lo as obras dos seres humanos, muitas vezes 
repetidas, como se diz, com o auxílio do ditame natural. 
3. Ainda que sejam sempre belas e pareçam boas, as obras dos seres hu- 
manos são, ao que tudo indica, pecados mortais. 
4. Ainda que sejam sempre disformes e pareçam ruins, as obras de Deus 
são, na verdade, méritos imortais. 
5. As obras dos seres humanos (falamos das aparentemente boas) não 
são pecados mortais no sentido de constituírem crimes. 
6. As obras de Deus (falamos das que se realizam por intermédio do ser 
humano) não são méritos no sentido de não constituírem pecados. 
7. As obras dos justos seriam pecados mortais se os próprios justos, em 
piedoso temor a Deus, não temessem que elas fossem pecados mortais. 
8. Com maior razão são pecados mortais as obras dos seres humanos, 
pois ainda são feitas sem temor, em mera e má segurança. 
9. Afirmar que as obras sem Cristo são certamente mortas, porém não 
pecados mortais, parece constituir um perigoso abandono do temor a Deus. 
10. Na verdade, é dificílimo compreender como uma obra seria morta 
sem ser, ao mesmo tempo, pecado pernicioso ou mortal. 
11. Não se pode evitar a presunção, nem pode haver verdadeira esperan- 
ça, se em cada obra não se temer o juizo de condenação. 
12. Os pecados são realmente veniais perante Deus quando os seres hu- 
manos temem que sejam pecados mortais. 
13. Após a queda, o livre arbitrio é um mero titulo; enquanto faz o que 
está em si'], peca mortalmente. 
14. Após a queda, o livre arbitrio tem uma potência apenas subjetiva pa- 
ra o bem; para o mal, porém, sua potência é sempre ativa. 
15. O livre arbítrio tampouco pôde permanecer no estado de inocência 
pela potência ativa, mas sim pela subjetiva; menos ainda pôde progredir em 
direção ao bem. 
16. O ser humano que crê querer chegar a graça fazendo o que está em si 
I I V. p. 47, nata 33. 
acrescenta pecado sobre pecado, de sorte que se torna duplamente réu. 
17. Entretanto, falar assim não significa dar motivo para o desespero, 
mas para humilhar-se, e suscitar o empenho no sentido de procurar a graça 
de Cristo. 
18. Certo é que o ser humano deve desesperar totalmente de si mesmo, a 
fim de tornar-se apto para conseguir a graça de Cristo. 
19. Não se pode designar condignamente de teólogo quem enxerga as 
coisas invisíveis de Deus compreendendo-as por intermédio daquelas que es- 
tão feitas; 
20. mas sim quem compreende as coisas visíveis e posteriores de Deus 
enxergando-as pelos sofrimentos e pela cruz. 
21. O teólogo da gloria afirma ser bom o que é mau,