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Obras selecionadas de Lutero. Volume1: Os primórdios. 1517 - 1519

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antes que Cristo se levantasse. Ela, 
entretanto, não reconheceu isso, visto que havia tantos acusadores a sua vol- 
ta, até que ouviu a voz do noivo dizer: "Mulher, ninguém te condenou? Nem 
eu tampouco te condenarei." [Jo 8.10s.1 E quando Davi pecou e, por ordem 
de Deus, foi repreendido pelo profeta Natã, por certo teria morrido subita- 
mente, quando, pela graça da justificação nele atuante, exclamou: "Pequei" 
[2 Sm 12.131 (pois esta é a voz dos justos, que acusam primeiramente a si 
mesmos), se Natã, como que o absolvendo, não dissesse imediatamente: 
"Também o Senhor removeu o teu pecado; não morrerás." [2 Sm 12.13.1 
Por que acrescentou "não morrerás", senão porque o viu ser destroçado e 
desfalecer por causa do terror de seu pecado? Também Ezequias, ao ouvir 
que ia morrer, teria morrido se não tivesse recebido de Isaias consolo e um si- 
nal para entrar no templo7'. Crendo nele, obteve, ao mesmo tempo, paz e re- 
missão dos pecados, como diz: "Jogaste todos os meus pecados para trás de 
tuas costas." [Is 38.17.1 E em geral no Antigo Testamento: de que modo po- 
deria manter-se a confiança deles na misericórdia de Deus e na remissão dos 
pecados, se Deus não tivesse mostrado - através de aparições, inspirações, 
queimas de oferendas, apresentações de nuvens e outros sinais - que lhe 
agradava tudo o que faziam? Agora ele quer que isso aconteça através da pa- 
lavra e da sentença do sacerdote. 
Portanto, a remissão de Deus opera a graça, mas a remissão do sacerdo- 
te opera paz, a qual também é graça e dom de Deus, porque é a fé na remis- 
são e na graça presentes. Em minha opinião, esta é a graça que nossos mes- 
tres dizem ser conferida eficazmente através dos sacramentos da Igreja, po- 
rém ela não é a primeira graça justificante, que deve estar nos adultos antes 
do sacramento, e sim, como se diz em Rm 1.17, fé em fé; pois é necessário 
que quem vem72 creia. Por outro lado, também a pessoa batizada precisa crer 
que creu e veio corretamente, ou então nunca terá a paz que só se tem apartir 
71 Cf. Ia 3 8 . 4 ~ ~ . 
72 Sc. para o sacramento 
da fé. Por conseguinte, Pedro não desliga antes do que Cristo, mas declara e 
mostra o desligamento. Quem crer nisso com confiança obteve verdadeira- 
mente paz e perdão junto a Deus (isto é, tornou-se certo de que está absolvi- 
do), não pela certeza da coisa, mas pela certeza da fé, por causa da palavra 
infalível daquele que promete misericordiosamente: "Tudo o que 
desligares", etc. Assim [diz] Rm 5.1: "Justificados gratuitamente por sua 
graça, temos paz junto a Deus por meio da fé", em todo caso não por meio 
de uma coisa, etc. 
Se minha compreensão é correta e verdadeira, não é errado nem impró- 
prio (como querem eles) dizer que o papa remite a culpa. Sim, a remissão da 
culpa é incomparavelmente melhor do que a remissão de quaisquer penas, 
embora preguem apenas a esta e o façam de tal forma, que tornaram a remis- 
são da culpa nula na Igreja. No entanto, é, antes, o contrário: onde, pela re- 
missão da culpa (que não pode dar a si mesmo, já que ninguém deve crer em 
si mesmo, a menos que prefira transformar uma desordem em duas), recebi- 
da através da fé na absolvição, o ser humano encontrou paz, toda pena lhe é 
nenhuma pena. Pois é a perturbação da consciência que torna a pena moles- 
ta; a alegria da consciência, porém, torna a pena desejável. 
E vemos que essa compreensão do poder das chaves abunda entre o po- 
vo, que busca e recebe a absolvição com fé singela. Entretanto, algumas pes- 
soas mais doutas se esforçam no sentido de encontrar paz através de suas 
contrições, obras e coqfissões, mas iiada mais fazem senão passar de uma in- 
quietude para outra. E porque confiam em si mesmas e em suas [obras], ao 
passo que, se sentissem o flagelo da consciência, deveriam crer em Cristo que 
diz: "Tudo o que desligares", etc. Para esse flagelo da consciência os teólo- 
gos mais recentes" contribuem enormemente, tratando e ensinando o Sacra- 
mento da Penitência de tal forma, que o povo aprende a confiar que pode ex- 
tinguir seus pecados através de suas contrições e satisfações. Esta vanissima 
presunção não pode produzir outra coisa senão que as pessoas vão de mal a 
pior - assim como no caso da mulher com hemorragia no evangelho", a 
qual gastou tudo o que possuia com médicos. Dever-se-ia, primeiramente, 
ensinar a fé em Cristo, que concede a remissão gratuitamente, e persuadir [as 
pessoas] a desesperar de sua própria contrição e satisfação, para que, assim 
fortalecidas pela confiança e alegria do coração por causa da misericórdia de 
Cristo, por fim odiassem jovialmente o pecado, fizessem contrição e satisfa- 
ção. 
Também os juristas contribuem ativamente para essa tortura [das cons- 
ciências]: exaltando com excessivo zelo o poder do papa, fizeram com que o 
poder do papa fosse mais estimado e admirado do que a palavra de Cristo 
honrada através da fé, ao passo que se deveriam ensinar as pessoas para que 
aprendessem a confiar não no poder do papa, mas na palavra de Cristo que 
73 Trata-se dos nominaiistas, movimenta surgido a partir de Duns Escoro (1270-1308) e, prin- 
cipalmente, de Guilherme de Occam (m. após 1347 em Munique). Em contiapasicão ao to- 
rnisrno, designado como vio onriquo, o nominalisma era denominado de via moderna. 
74 Cf. Mc 5 . 2 5 ~ ~ . 
78 
promete ao papa, se é que querem alcançar paz em suas consciências. Pois 
não é posque o papa dá que tu tens algo, mas tens se creres que o recebes. 
Tens na mesma medida em que crês por causa da promessa de Cristo. 
Contudo, se o poder das chaves não tivesse essa eficácia para a paz do 
coração e a remissão da culpa, então na verdade (como dizem alguns) as in- 
dulgências seriam vilificadas. Pois que grande coisa é conferida se se confere 
remissão das penas, visto que os cristãos devem desprezar até a morte? 
Do mesmo modo, por que Cristo disse: "De quem perdoardes os peca- 
dos, são-lhes perdoados" [Jo 20.231, senão porque não são perdoados a 
quem não crê que lhe são perdoados através do perdão do sacerdote? Por es- 
ta razão, nas palavras "de quem perdoardes os pecados" é conferido o 
poder's, mas nas palavras "são-lhes perdoados" o pecador é desafiado a crer 
no perdão. Da mesma forma, também nas palavras "tudo o que desligares" é 
dado o poder; nas palavras "será desligado" nossa fé é despertada. Pois ele 
poderia ter dito: "De quem perdoardes as penas ou castigos", se quisesse que 
assim compreendêssemos. Porém ele sabia que, por causa de seu medo, a 
consciência já justificada pela graça rejeitaria a graça, se não fosse socorrida 
através da fé na presença da graça pelo ministério do sacerdote; sim, se ela 
não cresse que o pecado está perdoado, ele permaneceria. É preciso também 
crer que ele está perdoado, e esse é o testemunho que o Espírito de Deus dá ao 
nosso espirito, que somos filhos de Deus's. Porque ser filho de Deus é tão 
abscôndito (já que parece que se é inimigo de Deus), que, se não se crê que é 
assim, [também] não pode ser [assim]. Deus age tão maravilhosamente com 
seus santos, que ninguém suportaria a mão daquele que justifica e medica a 
menos que creia que ele o justifica e medica, assim como um doente não acre- 
dita que o médico do corpo lhe faz uma incisão com a intenção de curá-lo a 
menos que bons amigos o persuadam [disso]. 
Seja, pois, o sacerdote a causa sem a qual [não há remissão], seja a causa 
da remissão uma outra, não me importa - desde que conste de alguma for- 
ma que é verdade que o sacerdote perdoa os pecados e a culpa; da mesma for- 
ma, a saúde do doente é atribuída verdadeiramente aos amigos porque, por 
sua persuasão, fizeram com que o doente cresse no médico que fez a incisão. 
Também não se deve pensar aqui: "E se o sacerdote errasse?" Ocorre 
que a remissão não está firmada no sacerdote, mas na palavra de Cristo. Por 
isto, quer o sacerdote o faça por causa do lucro, quer por