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Obras selecionadas de Lutero. Volume1: Os primórdios. 1517 - 1519

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deve ser desligado. Na primei- 
r;i riiaueira deve-se entender Cristo, a saber: "Tudo o que Pedro tiver desliga- 
do enquanto estava na terra, terá sido desligado também nos céus." Talvez 
elas queiram [dizer] que se ele também desligasse o diabo (desde que esteja na 
icrra na qualidade de quem desliga), este seria desligado no céu. Pois quem 
diz: "Tudo o que"mi e nada acrescenta para restringir [isso], certamente indica 
iluc tiido pode ser desligado. Não sei com que palavras invectivar essa gros- 
scira c imbecil superstição, sim, temeridade. Esse autor mereceria a cólera e a 
cloqiiência de um Jerônimo, para que fosse punida tão audaz violência e cor- 
i i ip~ão das santas palavras de Cristo. Estou deixando de lado a gramática 
qiic, incsmo sozinha, poderia ensinar-lhes que essa sua compreensão não po- 
de sirbsistir com essas palavras [de Cristo] (mas eles seguem mais as novas dia- 
ICiices do que a verdadeira gramática). Parece que a sabedoria dessas pessoas 
clicya ao ponto de saber que Cristo teria como que temido que algum dia 
Iioiivcssc iiin Pedro ou papa que, mesmo morto, quereria ligar e desligar, e 
qiic, por csla razão, lhe foi necessário prevenir tão insigne ambição e tirania 
de pontifices mortos, proibindo-os de ligar ou desligar exceto enquanto esti- 
vessem vivos e na terra. E (para ridicularizar dignamente tão dignos intérpre- 
tes da Escritura) talvez não tenha sido sem razão que Cristo temeu que, al- 
gum dia, acontecesse que um pontifice morto ligasse alguma coisa e que seu 
sucessor vivo desligasse essa mesma coisa. Então haveria uma grande confu- 
são no céu, e Cristo, ansioso, não saberia qual desses dois ofícios confirmar, 
pois temerariamente teria confiado a ambos o mesmo ofício, sem acrescentar 
"na terra" para conter o pontifice morto. Se não é assim que eles compreen- 
dem, por que se agitam? Por que se esforçam por demonstrar que "na terra" 
diz respeito a quem desliga? Eis ai um opúsculo verdadeiramente áureo, de 
um áureo mestrem2, digno de áureas letras e, para que tudo seja áureo, a ser 
transmitido a áureos discipulos, a saber, aqueles a cujo respeito é dito: "Os 
ídolos das nações são ouro e prata; têm olhos e não vêem", etc. [Sl 135.15s.I 
Esses caminham em linha reta contra Cristo. Pois Cristo acrescentou "na ter- 
ra" para que o pontifice, que não pode estar senão na terra, não tenha a pre- 
sunção de ligar ou desligar o que não está na terra. É como se Cristo delibera- 
damente se antecipasse e se opusesse aos repugnantes aduladores de nosso 
tempo, que começam a entregar o reino dos mortos ao pontifice contra a 
vontade deste e a despeito de sua recusa. Por causa de seu fervor, S. Jerôni- 
mo chamaria essa gente de "teólogos", isto é, faladores de Deus203, mas da- 
quele deus que, em Virgilioz", inspira uma grande loucura a seus vates. Mes- 
mo assim, procedamos contra eles. 
1. Se por essa compreensão as chaves desligam os mortos, então elas 
também ligam, porque em ambos os casos é acrescentado "na terra", quan- 
do ele diz: "Tudo o que ligares na terra." Portanto, também aqui precisamos 
distinguir com a mesma diligência e agudeza, entendendo "na terra" de duas 
maneiras: de uma maneira que diz respeito a quem liga, de outra que diz res- 
peito ao que deve ser ligado. Assim, eles têm de nos concluir que o pontífice 
pode ligar debaixo da terra no purgatório, só que temos de cuidar (certamen- 
te com a ajuda de médicos) para que o faça em vida e enquanto estiver na ter- 
ra, pois, uma vez morto, não pode ligar. Se a primeira parte das palavras de 
Cristo não admite essa distorção e violenta zombaria, como eles mesmos, por 
mais sem juizo que sejam, afirmam, com que cara se atrevem a fazer essa vio- 
lência á segunda parte, visto que é em tudo construida segundo o mesmo es- 
quema? A menos, talvez, que, a sua maneira, Ihes fosse permitido falar tudo 
univocamente e equivocamente, cometer anfibologias e paralogismos, como e 
onde Ihes aprouvesse. Por conseguinte, eles podem dizer que, na primeira par- 
te, "na terra" diz respeito ao que deveser ligado, mas, nasegunda, aquemdes- 
liga, já que, segundo seu louvável costume, também arrastaram monstruosida- 
202 Trata-se de Henrique de Segusio, o Ostiense (v. p. 114, nola 175). 
203 Deum loquen~es, no original. 
204 As palavras mognum vofibur inspiro1 furorem (inspira uma grande loucura a seus vares) 
provavelmente são imitacão de Eneido (Vl,llss.), na qual é dito do herói que procura a si- 
hila de Curnae: 
»i<in'rtt,in rui i>zrnrrm ior~imtrrnque 
Il<,lirr,s i,i.spirur vol<:r uppril<lt'<- / U I I I ~ U . 
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des ainda maiores para dentro das Sagradas Escrituras. 
Por isso, como todos negam que as chaves podem ligar no purgatório, é 
necessário negar que elas podem desligar, pois esses dois poderes são iguais e 
dados por Cristo a sua Igreja deigual maneira. Dessa opinião são alguns juris- 
tas que não são dos piores; se são mais sensatos do queos demais, eles que o ve- 
jam. 
2. Essa opinião também é refutada a partir de soa própria antítese. Pois 
assim como "nos céus" em todo caso se refere ao que deve ser desligado nos 
céus, da mesma forma é necessário que "na terra" se refira ao que deve ser 
desligado na terra. E, inversamente, "nos céus" se refere ao queé ligado, ra- 
zão pela qual também "na terra" deve referir-se ao que é ligado. Dai é que 
Cristo, como que deliberadamente, não disse: "Eu desligarei nos céus", mas: 
"Será desligado nos céus", para que, se alguérri, através da prirrieira palavra 
- a saber, "tudo o que desligares na terra" -, buscasse a fraude de uma fal- 
sa compreensão, fosse retundido no que se segue e não lhe fosse permitido 
aplicá-la ao que deve ser desiigado2o', pois o que é desligado nos céus certa- 
mente precisa ser compreendido como desligado na terra, rião em referência a 
quem desliga, e o que é ligado nos céus precisa ser compreendido não com re- 
ferência a quem liga, mas ao que é ligado na terra, ou, pelo menos, em rela- 
ção a ambos. 
3. Se a chave se estende ao purgatório, por que se esforçam eles em vão? 
Por que não suprimem a palavra "intercessão"? Por que não persuadem o 
pontifice a dizer que desliga e liga por meio do poder e da autoridade e não 
por meio da intercessão? Com efeito, tudo o que ele desligar (ele apenas tem 
que tomar cuidado para não estar morto) será desligado. Por que nos impor- 
luna com a palavra "sufrágio"z", sob a qual ninguém entende um poder, 
mas todos entendem uma intercessão'? Sim, deveríamos fazer mais e pedir ao 
papa que faça o purgatório desaparecer completamente. Pois se as chaves da 
Igreja, ainda que apenas no que diz respeito ao desligar, se estendem até lá, 
todo o purgatório está em suas mãos. Provo isto da seguinte maneira: que ele 
dê remissão plenária a todos os que nelezo7 estão. Em segundo lugar, que dê, 
sciiielhantemente, a mesma remissão a todos os cristãos moribundos. Então 
será certo que ninguém permanecerá nele, que ninguém entrará nele, mas que 
iodos sairão voando e o purgatório deixará de existir. Mas ele deve fad-10, e 
Lpiira tal] existe uma causa justissima, a saber, o amor, que deve ser buscado 
1ji1i- tudo, sobre tudo e em tudo. Não se deve temer que a justiça divina seja 
ofeiidida pelo amor, para o qual, antes, ela mesma nos urge. Quando isso ti- 
ver sido feito, abandonaremos todo o oficio dos mortos, hoje em dia muito 
iiiolcsio c iicgligenciado, e o transformaremos em ofícios festivos. 
4. t1iii quarto e último lugar: se a pena do purgat6rio é castigadora e afli- 
iiva, coiiio dissemos acima na tese 5, então é certo que ela não pode ser desli- 
i .,I,/ a ~ i v i ~ r i r l i i , , ~ , rio <iiigiiial. I'arece-rios quc se trata de iiiri lapso. Pela ibgica da argiioicrita- 
v;h! de I irlei<,, devcri;i cuil$t;ji ; i q i > i o~l.wlv<.nl<~,ri, "a qiiein desliga" (nota do ~ r a < l a l i , r ) . 
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