penal Direito Penal Ferigato
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penal Direito Penal Ferigato


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da diversidade dos intuitos do agente.
CRIME CONTINUADO
	Prevê a lei no art. 71: "Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subseqüentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços".
	A respeito da natureza do crime continuado, existem várias teoria: a da unidade real, que considera serem as várias violações componentes de um único crime; a da ficção jurídica, em que se afirma derivar a unidade de uma criação legal para a imposição da pena quando, na realidade, existem vários delitos; e a teoria mista, pela qual não se cogita de unidade ou pluralidade de delitos, mas de um terceiro crime, que é o próprio concurso. Adotou a lei a teoria da ficção jurídica, determinando o sistema da exasperação da pena ao crime continuado, que é, formalmente, a reunião de vários delitos praticados nas mesmas condições.
	São vários os elementos ou requisitos do crime continuado. Em primeiro lugar é necessário que o mesmo sujeito pratique duas ou mais condutas. Existindo apenas uma ação, ainda que desdobrada em vários atos, haverá concurso formal.
	Em segundo lugar, deve existir pluralidade de resultados, ou seja, crimes da mesma espécie. Delitos da mesma espécie, segundo alguns, são os previstos no mesmo dispositivo penal. Há continuação entre crimes que se assemelham em seus tipos fundamentais, por seus elementos subjetivos e objetivos, violadores também do mesmo interesse jurídico. Nada impede o reconhecimento da continuação entre as formas simples e qualificada de um ilícito, entre crimes tentados e consumados ou entre crimes culposos.
	Por fim é indispensável que se reconheça o nexo da continuidade delitiva, apurado pelas circunstâncias de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes. O limite tolerado para o reconhecimento da continuidade é de o lapso temporal não ser superior a trinta dias. Quanto ao lugar, tem-se admitido inclusive a prática de crimes em cidades diversas, desde que integrados na mesma região sociogeográfica e com facilidade de acesso. Quanto à maneira de execução exige-se a presença do mesmo modus operandi. Há necessidade de homogeneidade de circunstâncias objetivas, sem o que não se aperfeiçoa o crime continuado.
	Em orientação mais ampla tribunais estaduais não têm excluído a possibilidade de continuação, ainda que os crimes atinjam exclusivamente bens personalíssimos de vítimas diversas.
	Não se deve confundir o crime continuado com o habitual. Neste, há apenas ma conduta, composta de vários atos, inócuos penalmente, que, reunidos, constituem uma infração penal. Também não há que confundi-lo como o crime permanente, em que há apenas uma violação jurídica com resultado que se prolonga no tempo. Por fim, não há que reconhecer o crime continuado quando se tratar de habitualidade criminosa. O delinqüente habitual faz do crime uma profissão e pode infringir a lei várias vezes do mesmo modo, mas não comete crime continuado com a reiteração das práticas delituosas.
	Para o crime continuado foi adotado o sistema da exasperação, aplicando-se a pena de um só dos crimes, se idênticos (crime continuado homogêneo), ou o do mais grave, se da mesma espécie mas diversos (crime continuado heterogêneo), sempre aumentada de um sexto a dois terços. Para a dosagem do aumento, deve-se levar em conta, principalmente, o número de infrações praticadas pelo agente.
ERRO NA EXECUÇÃO
	Por razões diversas, pode ocorrer que o agente cause resultado diverso do pretendido ao executar o crime, quer no que se relaciona com a vítima, quer no que se refere ao próprio dano produzido. Isso leva a lei a disciplinar a aplicação da pena nesses casos, denominados de aberratio ictus e aberratio criminis.
	Nos termos do art. 73, ocorre aberratio ictus (erro na execução) quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, em vez de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa: A atira em B, mas o projétil vai atingir C, que estava nas proximidades, matando-o. Nesse caso, o agente responde como se tivesse praticado o homicídio contra B, considerando-se as condições e qualidades da pessoa visada e não da vítima, como se tivesse ocorrido um erro sobre a pessoa; se a vítima era criança, mas a visada não, inexistirá a agravante. No caso de ser atingida também a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70, ou seja, do concurso formal.
	Pode ocorrer aberratio ictus numa causa justificativa, como por exemplo, no exercício da legítima defesa. Não deixa a justificativa de ser admissível, se comprovada, uma vez que quem age em legítima defesa pratica ato lícito.
	
RESULTADO DIVERSO DO PRETENDIDO
	Disciplina o art. 74, sob a rubrica "resultado diverso do pretendido", a aberratio criminis. Quando, por acidente ou erro na execução do crime, sobrevêm resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime culposo. A tenta quebrar uma vidraça, mas, por erro de pontaria, atinge C, causando-lhe lesão corporal culposa. Responderá o agente pelo crime de lesão culposa (art. 129, § 6º) e não por tentativa de dano. Caso ocorra o inverso, pretendendo o agente ferir uma pessoa e a pedra vindo a atingir a vidraça, não se punindo o dano culposo, dever-se-á reconhecer uma tentativa de delito de lesão corporal.
	Caso ocorra também o resultado pretendido, aplica-se aoa gente a regra do concurso formal próprio.
LIMITE DAS PENAS
	Sendo uma pessoa condenada a longas penas privativas de liberdade por vários crimes, praticados em concurso ou não, não será ela obrigada a cumprir mais do que trinta anos. É o que determina o art. 75: "O tempo de cumprimento da penas privativas de liberdade não pode ser superior a trinta anos." Transitadas em julgado as sentenças condenatórias e excedendo esse prazo total das penas impostas ao sentenciado, serão elas unificadas para atender a esse limite máximo (art. 75, § 1º).
	Deve-se proceder à unificação logo de início do cumprimento da pena, mas devem ser incluídas todas as condenações anteriores, inclusive as decorrentes de crimes praticados após o encarceramento.
	Na jurisprudência fixou-se o entendimento de que a unificação somente se refere à duração da pena.
	Pode ocorrer que o sentenciado cometa novo crime após o início do cumprimento da pena unificada de trinta anos. Sobrevindo condenação por esse fato, nova unificação das penas será realizada, para tender o limite máximo. Não se computa para esse fim, porém, o período de pena cumprido até a data do crime (art. 75, § 2º).
	A solução acolhida pelo legislador deixa praticamente impune o sujeito que, condenado a uma pena de trinta anos de reclusão, comete o novo crime logo no início do cumprimento dessa sanção.
SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA
CONCEITO E NATUREZA
	Entre as propostas para evitar-se o mal de encarceramento a que contou com o maior sucesso foi a da instituição da suspensão condicional da pena. Trata-se de dar-se um crédito de confiança ao criminoso, estimulando-o a que não volte a delinqüir e, além disso, prevê-se uma medida profilática de saneamento, evitando-se que o indivíduo que resvalou para o crime fique no convívio de criminosos irrecuperáveis.
	A lei 9099, de 26-09-95, permitiu, por proposta do Ministério Público, aceitação do acusado e decisão do juiz, a suspensão condicional do processo nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano.
PRESSUPOSTOS
	Para obter a suspensão condicional da pena deve o condenado preencher os pressupostos subjetivos e estarem presentes os requisitos objetivos previstos no artigo 77 do CP.
	Requisitos objetivos para a concessão do sursis são a natureza e quantidade da pena (art. 77, caput) e o não cabimento da substituição