Aula Nota 10 - Doug Lemov
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Aula Nota 10 - Doug Lemov


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Qual dos dois teve o melhor
porcentual de cestas? (b) No jogo seguinte, Redick só fez 2 de 10 lances livres e Paul fez
7 de W. Qual o novo porcentual de cestas de cada um depois desse jogo? Quem é o
cestinha? (c) José disse que, se Redick e Chris fizerem 10 cestas cada um, o porcentual
de cestas deles subiria igualmente. Isso é verdade? Por que sim ou por que não? Des-
creva em detalhes como você chegou à sua resposta.
Note como o nível de dificuldade aumenta a cada pergunta. Para a primeira
pergunta, o aluno poderia entender 50% como metade e determinar a resposta sem
sequer usar porcentagens. As questões 3-6 poderiam ser consideradas tentativas de
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aplicação do raciocínio crítico à realidade cotidiana/ mas a questão 6 requer muito
mais raciocínio crítico e entendimento conceituai do que qualquer outra questão. A
despeito dessas diferenças drásticas, todas as questões são baseadas no currículo. O
que nos leva ao ponto central: currículos não significam nada até você definir como
vai avaliá-los.
Nem todos os professores procuram conhecer em detalhes suas responsabi-
lidades (e depois, idealmente, como exceder essas responsabilidades em rigor e
expectativas). Por isso, nem todos os professores são tão eficientes quanto pode-
riam ser em matéria de garantir o domínio das competências e o conhecimento
de que seus alunos mais precisam. Claro, pode muito bem ser que você já faça
isso. Mas se você seguir as técnicas descritas neste livro e o seu trabalho de sala
de aula não estiver alinhado cuidadosamente com o currículo que de fato será
avaliado, como Paul Bambrick-Santoyo descreve, você poderá estar decidida-
mente avançando na direção errada.
Usar dados
Se você leciona em uma escola pública, provavelmente também trabalha regu-
larmente com avaliações de aprendizagem que lhe permitem medir o progresso
dos alunos de forma parecida com a avaliação padronizada, mas com mais fre-
quência (várias vezes durante o ano), e depois analisa seus resultados2. A despei-
to da proliferação desses procedimentos de avaliação, muitos professores ainda
deixam essa informação valiosa de lado quando se trata de usar dados para
embasar sua prática de sala de aula.
Os professores mais eficientes no uso de dados examinam os resultados
não só para saber quem acertou e quem errou, mas, principalmente, para sa-
ber por quê. Eles analisam as respostas erradas para entender como o aluno
estava pensando e, como resultado, planejam sistematicamente suas ações.
Eles criam um processo de transformação de resultados em reensino. Usam
dados para entender não apenas como usar o tempo em classe, mas também
como ensinar melhor no tempo alocado para cada tópico. Repito, pode ser
que você já faça isso. O que eu acho importante notar aqui é que, caso você
não faça, deveria dedicar o mesmo tempo tanto a seguir as orientações deste
livro como a pensar em como você obtém e usa dados para entender seus
alunos e seu próprio jeito de ensinar.
2 Lemov refere-se ao sistema público de educação nos Estados Unidos, onde, além dos sistemas
estaduais de avaliação, há sistemas de avaliação similares, internos às próprias escolas.
Planejamento de aula impecável
Quase todo professor escreve planos de aula. Ora, para muitos de nós, o ob-
jetivo também é satisfazer as exigências da burocracia (todo dia você tem de
entregar um plano de aula para uma certa pessoa, formatado de um certo jei-
to), então escrevemos alguma coisa para descrever, não para planejar o que
faremos em classe. Esse é o risco dos sistemas de gerenciamento baseados na
obediência às regras: eles podem forçar as pessoas a obedecer as regras, mas
não conseguem forçá-las a trabalhar cada vez melhor.
Ao ler este livro, é importante observar como o plano de aula é uma fer-
ramenta poderosa nas mãos de muitos dos professores descritos aqui. Não
apenas os professores mais eficazes planejam suas atividades, muitas vezes
minuto a minuto, mas eles também prevêem as perguntas que farão em aula
com antecedência. Julie Jackson, que hoje é diretora da escola North Star
Academy e é também uma das professoras mais inspiradoras que já vi em
aula, disse-me que ela ensaia e decora suas perguntas para a aula do dia en-
quanto dirige para a escola e sobe as escadas para a sala de aula. Isso tem
implicações de longo alcance. Uma delas é que, enquanto dá a aula, Julie
pode concentrar-se no que os alunos estão fazendo a cada momento, não no
que ela mesma vai fazer daqui a pouco. Julie é famosa pelo seu radar - dizem
que nunca houve um aluno na sua classe que tenha conseguido fazer alguma
coisa sem que ela visse. E, embora seus talentos inatos tenham muito a ver
com isso, o fato de que ela basicamente decora seu plano de aula permite
que ela dê mais atenção a checar exatamente quem está fazendo o quê. Mas
a coisa não acaba aí. Depois de ter planejado suas perguntas, ela já prevê as
possíveis respostas erradas de seus alunos e também as perguntas que fará se
obtiver essas respostas erradas.
Não quero dizer que todo mundo pode ou deve ser igual à Julie (muitos de
nós até gostariam de tentar), mas sim que o plano de aula acima e além da norma
burocrática é um fator-chave para o sucesso académico dos alunos. Como disse
uma vez o famoso treinador de basquete Bobby Knight: "Todo mundo tem von-
tade de vencer, mas poucos têm vontade de se preparar para vencer".
Conteúdo e rigor
Finalmente, a escolha de material rigoroso tem importância - e esse tópico
tampouco é abordado aqui. Em parte, eu descobri esse problema por meio
da minha própria inexperiência. Quando comecei a lecionar inglês para 6° e
7° anos em um bairro carente, achei que tinha de escolher um material que
"atraísse" meus alunos.
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A maioria das minhas selecões era estereótipos: contos com temas ado-
lescentes ou protagonistas que sofriam discriminação. Há lugar para esse
tipo de livro e, por um certo tempo, não há problema nenhum em inspirar
crianças com histórias escritas especificamente para elas - livros infanto-
-juvenis sobre gente parecida com eles. Mas, a longo prazo, é fundamental
usar o conteúdo para tirar as crianças - todas elas, não só as de bairros ca-
rentes - de seu próprio e estreito cenário de experiências. Isso significa que
você precisa desafiá-las com ideias fora da experiência delas. É fácil, a curto
prazo, seduzir as crianças com a substituição de poesia por letras de música
ou referências a um conjunto de filmes como exemplos de obras literárias em
vez de um conjunto de contos ou romances, mas é insuficiente a longo prazo.
A ARTE DE USAR AS TÉCNICAS
Ao escrever este livro, reconheço e, na verdade, enfatizo, que a arte_está na aplica-
ção discricionária das técnicas. Tentei escrever este livro para ajudar artesãos a se
transformarem em artistas, não porque acho que o ensinar pode ser mecanizado ou
reduzido a fórmulas. Há um lugar e um tempo certo e um errado para cada uma
das ferramentas apresentadas e caberá à visão e ao estilo únicos de cada professor
decidir sobre a aplicação delas. Em uma palavra, esta é a arte. Nem o ensino deixa de
ser bom porque o professor dominou certas habilidades específicas sistematicamen-
te, nem Davi reflete menos o génio de Michelangelo só porque o artista dominou a
gramática do cinzel antes de criar a estátua. Dadas as ferramentas oferecidas aqui,
acredito que os professores tomarão decisões sensíveis e independentes sobre como
e quando usar as técnicas da profissão para se tornar mestres da arte de lecionar.
Você vai notar que muitas dessas técnicas são acompanhadas dos qua-
dros "Em ação", para que você possa visualizar a aplicação das várias téc-
nicas em sala de aula. Eu selecionei essas experiências porque são exemplos
de grandes professores usando técnicas específicas de ensino que diferenciam
o bom do excelente. Sugiro que você leia a descrição da técnica, leia sobre a
experiência no "Em ação" e, depois, pense sobre a