A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
169 pág.
Clínica de grandes animais

Pré-visualização | Página 1 de 40

FESO
Medicina Veterinária
Clínica de Grandes Animais
Giselle Keller El Kareh de Souza
(2005)
Índice
Fluidoterapia em grandes animais							pág. 03
Sistema digestivo dos ruminantes							pág. 16
Manifestações de doenças no trato gastrintestinal					pág. 20
Indigestão em ruminantes								pág. 23
Timpanismo ruminal									pág. 26
Acidose ruminal aguda									pág. 29
Reticulite e ruminite									pág. 32
Síndrome da indigestão vagal (síndrome de Hoflund)					pág. 35
Úlceras abomasais									pág. 36
Deslocamento de abomaso								pág. 38
Obstrução intestinal / Peritonite							pág. 39
Síndrome cólica em eqüinos								pág. 40
Deficiências nutricionais								pág. 49
Diarréia no ruminante neonato							pág. 62
Leptospirose										pág. 70
Tristeza parasitária dos bovinos							pág. 71
Exame do sistema circulatório								pág. 73
Choque circulatório									pág. 75
Tromboflebite										pág. 77
Coagulação intravascular disseminada							pág. 78
Púrpura hemorrágica									pág. 81
Anemia infecciosa eqüina / Arterite viral eqüina					pág. 82
Sistema locomotor dos ruminantes							pág. 83
Laminite										pág. 86
Miopatias										pág. 97
Olho / Tétano										pág. 106
Linfoadenite caseosa / Papilomatose							pág. 109
Habronemose cutânea / Oncocercose / Brucelose / Varíolas			pág. 110
Sistema urinário									pág. 111
Etapas do exame neurológico								pág. 117
Raiva											pág. 121
Encefalite espongiforme bovina / Scrapie						pág. 122
Botulismo										pág. 123
Poliencefalomalácia / Leucoencefalomalácia						pág. 124
Mieloencefalite protozoária eqüina (EPM)						pág. 125
Mieloencefalite herpética dos bovinos							pág. 128
Estenose vertebral cervical								pág. 129
Mieloencefalopatia degenerativa dos eqüinos						pág. 130
Mamas											pág. 132
Semiologia do sistema respiratório							pág. 137
Fisiologia do sistema respiratório							pág. 140
Patologias de tórax e pleura								pág. 152
Patologias de pulmão									pág. 156
Pneumonia bacteriana									pág. 159
Pneumonia fúngica / Pleuropneumonia						pág. 161
Pneumonia parasitária / Mycoplasmose						pág. 162
Pneumonia progressiva dos ovinos / Tuberculose					pág. 163
Neonatologia										pág. 165
Fluidoterapia em Grandes Animais
Em medicina Veterinária a fluidoterapia é constantemente confundida com reposição hídrica apenas. Eventualmente se pensa em uma reposição eletrolítica (ex: hipocalcemia). No entanto, devemos ter em mente que o termo fluidoterapia engloba a reposição hidroeletrolítica.
Plano de fluidoterapia – deve-se levar em conta:
Quando utilizar;
Objetivos do uso;
Quantidade;
Tipo de fluido;
Velocidade de administração;
Via;
Técnica.
A fluidoterapia deve ser realizada durante vários dias. O volume a ser administrado deve ser calculado durante 3 fases. Inicialmente calcula-se o déficit hidroeletrolítico, passando para a fase de manutenção e das perdas concomitantes. Por exemplo:
Déficit hidroeletrolítico;
Manutenção (5% do peso vivo);
Perdas concomitantes (40-60ml/Kg/dia)
O volume total de líquidos a ser reposto é a soma dos itens 1, 2 e 3. Este volume deve ser estimado diariamente, sendo a quantidade calculada administrada nas 24 horas seguintes.
Objetivos
Repor as perdas hidro-eletrolíticas;
Corrigir os déficits de fluidos (desidratação por ex.);
Aumentar a perfusão tecidual e o volume vascular;
Manter a perfusão renal (como por exemplo, em pacientes anestesiados);
Veicular fármacos;
Suprir as necessidades diárias (aproximadamente 5% do peso vivo)
Compensar as perdas concomitantes (ex: vômitos, diarréias, poliúrias).
Quando o animal está desidratado, os fluidos corporais tendem a se concentrar nos órgãos vitais.
Alguns medicamentos como o ferro, penicilina, entre outros necessitam ser administrados com o fluido, pois se aplicados diretamente podem causar febre.
Um animal de 450kg ingere cerca de 50 a 80l de água por dia.
Fisiologia dos fluidos orgânicos
Os líquidos corporais (água corpórea total) representam de 50% a 70% do peso vivo de um animal, em adultos 60 a 70%, em neonatos 80%. Em adultos obesos a gordura ocupa o espaço da água, então os obesos têm cerca de 45% de água corporal. O volume de líquido está distribuído da seguinte maneira:
�
	Linfa
	Humor aquoso
	Líquido sinovial
	Urina
	Líquido peritonial
	Líquido pleural
	Bile
	Secreções digestivas
	Saliva
Principais Eletrólitos
Outro conceito importante para a realização de uma fluidoterapia adequada é a distribuição dos eletrólitos nos compartimentos corporais. O quadro abaixo ilustra a distribuição dos eletrólitos corporais:
	Os sistemas tampões tais como o bicarbonato, fosfatos e a hemoglobina são fundamentais para a manutenção do pH sanguíneo. Sendo o bicarbonato o sistema mais importante, devemos rever a seguinte reação química:
�
Esse mecanismo ocorre de acordo com a necessidade do corpo de acidificar ou alcalinizar seu pH. Assim, o pH sanguíneo pode ser definido pela equação abaixo:
pH = pK + log [HCO3ˉ ] / [H2CO3]
Onde: pK é a constante de dissociação do ácido.
Os principais eletrólitos são:
Sódio (Na): (132-146mEq/l)
Maior concentração no FEC (fluido extra-celular);
Controlado pela ingesta;
Excretado pelos rins, fezes e suor;
Aldosterona: Maior reabsorção de Na nos túbulos proximais (essa reabsorção é controlada pela aldosterona);
Hipernatremia: pode ser causada por uma fluidoterapia desbalanceada e em nefropatas – leva a excesso de sódio no sangue;
Hiponatremia: diarréias, patologia com retenção de H2O.
O sódio é o principal eletrólito extracelular responsável pelo controle da pressão osmótica. As diarréias são as causas mais comuns de hiponatremia. Com a perda do sódio secretado no lúmem intestinal, ocorre um aumento da excreção renal de líquidos, em uma tentativa de manter a pressão osmótica normal. Porém uma grave conseqüência deste mecanismo renal é a diminuição do volume sanguíneo circulante e hipotensão, que por sua vez leva a deficiência da perfusão tecidual. Clinicamente os animais demonstram fraqueza muscular e depressão mental.
A diminuição de potássio no sangue também causa a diminuição do sódio, pois para manter a eletro-neutralidade da célula, o sódio irá entrar nela.
Neonatos com menos de 110mEq/l provavelmente irão entrar em convulsão.
Cloretos (Cl): (99-110mEq/l)
É absorvido no Intestino delgado junto com o Na;
Maior concentração no FEC;
Hipocloremia: Sudorese intensa, sialorréia e refluxo gástrico: A hipocloremia resulta do aumento da perda dos íons cloreto para o intestino nos casos de obstrução do intestino delgado, torção e deslocamento de abomaso e enterites. Normalmente há uma grande secreção de HCl no abomaso em troca de bicarbonato de sódio. Os íons H⁺, Clˉ e K⁺ são absorvidos no intestino delgado. No esvaziamento insuficiente do abomaso ou obstrução proximal do intestino delgado, ocorre uma grande secreção de H⁺, Clˉ e K⁺ levando a um quadro de alcalose hipoclorêmica e hipocalêmica. O mecanismo tampão neste caso é a retenção renal de H⁺ compensada pela excreção excessiva de K⁺. Infusões de líquidos que contenham Clˉ e Na⁺ corrigem o distúrbio alcalótico. Nos casos de hipocloremia, para manter a eletro-neutralidade, ocorre reabsorção renal de bicarbonato que tende a causar alcalose metabólica.
Hipercloremia: rara (pode ocorrer em uma acidose tubular renal).
O estômago, no suco gástrico (em eqüinos) e o abomaso (em ruminantes) são compartimentos ricos em cloreto, o suor e a saliva também são ricos em cloreto.
Obs: O eqüino raramente faz refluxo, deve-se medir a acidez desse refluxo (através da sonda naso-gástrica), se for ácido deve ser por problema gástrico e se for alcalino é intestinal. O refluxo sai pelo nariz.
Os bovinos possuem muita perda de saliva por obstrução esofágica, pois o animal não pode deglutir a saliva, então não pode repor o cloreto.
O sódio precisa do cloreto