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O conceito de responsabilidade de proteger e o direito internacional humanitário

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Haveria, portanto, uma tensão permanente entre 
seu caráter moral e as condições locais de sua aplicação. Para Habermas, 
o maior risco seria a continuação do enfraquecimento dos Estados, sem o 
correspondente fortalecimento de mecanismos supranacionais de defesa 
dos direitos humanos: “In this volatile situation, human rights provide the 
sole recognized basis of legitimation for the legitimation of the politics 
of the international community37.”
Para o Embaixador Gelson Fonseca Jr., o legítimo e o ilegítimo 
são “formas de adjetivar o debate político e expressões que servem ao 
combate ideológico”38. O poder não age sem se justificar. A legitimidade 
sempre opera em paralelo à norma, reforçando-a ou enfraquecendo-a. A 
visão comum é de que, preenchidos determinados requisitos, tudo o que 
é considerado legítimo deveria, em algum momento, transformar-se em 
norma ou em política pública. Fonseca Jr. indaga sobre a possibilidade 
de transposição do conceito de legitimidade da esfera da política interna 
para a esfera da política internacional. A primeira observação que o autor 
faz, nesse sentido, refere-se ao fato de que, no plano interno, as leis vêm 
acompanhadas da sanção. Na ausência de uma autoridade que imponha 
sanções, o tema da legitimidade aparece de forma ainda mais clara do que 
no âmbito nacional, uma vez que os Estados continuam soberanos e não se 
submetem a um poder supranacional. Essa hipótese levaria à legitimidade 
em sua forma mais pura. As próprias normas do Direito Internacional 
servem como exemplo: elas são habitualmente cumpridas, mantêm 
certo grau de estabilidade e são modificadas conforme procedimentos 
definidos, por meio de negociações multilaterais.
Em uma perspectiva realista, a legitimidade no sistema internacional 
é analisada do ponto de vista dos seus próprios atores, ou seja, o requisito 
para que um Estado se constitua e atue como tal é o reconhecimento 
por parte dos demais. O processo de reconhecimento mútuo conferiria 
37 HABERMAS, Jürgen. Apud PAROLA, Alexandre G.L. Crítica da ordem injusta. Dimensões 
normativas e desafios práticos na busca da ordem e justiça nas relações internacionais. Uma 
visão brasileira. Tese ao 51o Curso de Altos Estudos. Brasília: Instituto Rio Branco, 2007. p. 87.
38 FONSECA JR. Op. cit. p. 139.
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38
aos Estados a legitimidade internacional, ou rightful membership. 
Outra forma de abordar a questão levaria em conta a fonte primária da 
legitimidade que, modernamente, é a soberania popular. Daí decorreria 
que “havendo sinais de autodeterminação, a tendência era de que mesmo 
Estados fracos fossem respeitados em sua integridade territorial”39. 
 No campo internacional, a legitimidade defronta-se com a questão 
da “vontade do Estado”, cuja sobrevivência viria sempre em primeiro 
lugar. Nessa linha, a segurança e as razões de Estado “operam como 
fatores que tendem a tornar frágeis os fundamentos da legitimidade”40. 
Fonseca cita como exemplos situações que servem aos propósitos deste 
trabalho, que trata das formas de intervenção humanitária: 
Durante a Guerra Fria, foi possível às superpotências intervir 
militarmente em países que, de forma unilateral, definiam como ameaça 
à sua segurança. Foi assim no caso da República Dominicana, em 1965, 
e na Tchecoslováquia, em 1968. Ao “justificar” a intervenção, pagam 
o tributo do poder aos valores do tempo histórico (...) Quando ligados 
exclusivamente ao poder, a tendência é de que os fundamentos da 
legitimidade se enfraqueçam41. 
No caso das intervenções, as formas de legitimidade tornam-se 
fracas, tanto pelo fato de significarem, inegavelmente, para boa parte da 
comunidade internacional, violações à norma da não intervenção quanto 
pelo fato de que são imediatamente contestadas pelo bloco adversário. 
Articula-se, portanto, um padrão de legitimidade que deixa de lado a 
soberania e que passa a ter a “comunidade dos Estados” como referência 
final. Fonseca observa: “Insistimos no ponto: a legitimidade nasce quando 
o interesse se generaliza e se converte em norma que serve à estabilidade 
da sociedade das nações como tal42.” Em movimento paralelo ao que 
ocorre no âmbito nacional, haveria também, no campo internacional, a 
tendência a se considerar que, se todos obedecem a um mesmo conjunto 
de regras, todos obterão benefícios: 
39 Idem. p. 147.
40 Idem. p. 152.
41 Idem. p. 150.
42 Idem. pp. 153 e 154.
39
considerações sobre os conceitos de soberania, legalidade e legitimidade
Os interesses se generalizam e, de certa maneira, a distância entre os 
modos internos e internacionais da legitimidade se tornam menores. A 
legitimidade ganharia feição de universalidade, que é a marca da norma. 
Ainda que não seja obrigatoriamente cumprida, que seja violada em 
ocasiões específicas, a norma passa a se apoiar em um tipo mais forte de 
legitimidade, expressa na ideia de que, em algum momento, algo uniu a 
comunidade internacional em regras que a todos interessaria manter. A 
combinação em valor, em padrão a ser invocado ou negado – e neste caso 
com custos – mesmo pelos que têm sobras de poder43. 
É possível, então, concluir que a questão da legitimidade nas relações 
internacionais se situa na fronteira entre o realismo, dos interesses, e o 
idealismo, dos valores. Conforme Fonseca, “a hipótese de um quadro 
de normas que sustentaria ganhos ideais leva a que se estabeleçam, 
como referência de legitimidade, uma série de outros elementos que 
vão além da consideração de vantagens imediatas”44. Ele insiste que a 
“motivação psicológica original” seria o interesse e a noção de que, ao 
aderir à norma, se obtêm ganhos concretos, como a segurança: 
 
Ao se generalizar, ao interessar a todos, articula-se um padrão de 
legitimidade que deixa de ter a soberania como referência final e passa a 
ter a comunidade de Estados como referência. A natureza do argumento se 
modifica e, como na legitimidade nacional, invoca algo que transcende a 
subjetividade dos atores individuais (...) Paulatinamente o interesse se torna 
crença e as avaliações “egoístas” antes de agir passam a ser temperadas, 
no plano da subjetividade de quem decide, por constrangimentos de valor, 
por alguma intuição de que a violação da norma acarretará consequências, 
de que há limites para o arbítrio45.
O exemplo da intervenção parece adequar-se perfeitamente à 
hipótese teórica. Fonseca recorda a atitude norte-americana de invadir a 
República Dominicana, em 1965, buscando a legitimação da Organização 
dos Estados Americanos (OEA), e a mesma atitude na crise do Golfo: 
“Quando age, o governo americano age amparado por resoluções 
43 Idem. p. 153.
44 Idem. p. 154.
45 Idem. pp. 153 e 154.
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‘legitimadoras’ da comunidade internacional, votadas pelo Conselho 
de Segurança”46. O autor salienta, ainda, que são as circunstâncias 
históricas que determinam o que é legítimo propor no plano das relações 
internacionais. A legitimidade dos soberanos está ligada aos valores do 
seu tempo. 
[Trata-se de] uma delicada e complexa equação entre valores e poder, 
certamente diferente da que ocorre no plano interno, onde a adesão ao 
regime se confunde com a aceitação do poder do Estado e legitimidade 
e hegemonia andam juntas. Nas relações internacionais, como o poder 
está sempre disperso, é estruturalmente fragmentado, cada Estado é, em 
princípio, uma fonte teórica de propostas legítimas47.
Novamente, o exemplo surge a partir de situações de intervenção. 
Michael Walzer considera que um governo pode ser ilegítimo 
internamente e que apenas os cidadãos teriam o direito de derrubar uma 
autoridade tirana. “It is only when the lack of faith is radically apparent, 
says Walzer, that intervention can be allowed. That will only occur in 
cases of genocide, enslavement or men deportations48.”
Fonseca observa que, ao