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Semântica Denotação e conotação

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Semântica: Denotação e Conotação.
Professor: Luiz Carlos; Data: 18/10/2013. 
Leia o texto de Machado de Assis transcrito a seguir:
Um Apólogo
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
-Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
-Deixe-me, senhora.
-Que a deixe? Que a deixe, porque? Porque lhe digo que está com uma ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
-Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha.
Agulha não tem cabeça. Que lhe importa meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe se com sua vida e deixe a dos outros.
-Mas você é orgulhosa.
-Decerto que sou.
-Mas por quê?
-É boa. Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa alma, quem é que os cose, senão eu?
-Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
-Você fura o pano, nada mais e eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
-Sim, mais que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vêm atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
-Também os batedores vão adiante do Imperador.
-Você Imperador?
-Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto quando a costureira chegou à casa da Baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma Baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam entrando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os Galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
- Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que está distinta costureira só se importa comigo; é eu que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima?
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas.A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silencio na sala de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile e a Baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário, e enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
-Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com Ministros e Diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá?
Parece que a agulha não disse nada; mais um alfinete, da cabeça grande e não menor experiência murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto ai ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: -Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária.
(Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar; 1979, vol. II, p. 554-556)
 
 
Um signo lingüístico é constituído da união de um conteúdo com a expressão (imagem mental dos sons) que o veicula. Ao conteúdo chamamos significado; à expressão denominamos significante. Um signo une, pois um significante a um significado.
Todas as palavras têm um significado habitual, conhecido dos falantes da língua. Por exemplo, agulha quer dizer “hastezinha fina de aço, aguçada numa das extremidades e com um orifício na outra, por onde se enfia linha, fio, lã, cadarço, barbante e etc., para coser, bordar ou tecer”, linha significa “fio de linho, algodão, seda etc, usado para coser, bordar, fazer renda etc.”. No texto acima, no entanto, essas duas palavras ganharam um outro sentido, passaram a designar respectivamente, “pessoa que abre caminho para outras e não recebe qualquer reconhecimento por isso” e “pessoa que desfruta do esforço daqueles que lhe abriram caminho e lhe criaram oportunidades”. O segundo sentido acrescenta-se ao primeiro.
Quando um significante se une a um significado, temos um signo denotado. Quando ao primeiro significado se sobrepõe um segundo, temos um signo Conotado. No texto acima, agulha e linha, não estão usadas em sentido denotado, mas em sentido conotado.
Cabe agora uma pergunta. Por que não se fala, nesses casos, simplesmente, em troca de significado, mas em acréscimo de um segundo significado a um significado de base? Quando se faz essa pergunta, na verdade, o que se está querendo saber é o que é que permite a alteração do significado da palavra, dando a ela um valor conotado.
Quando se fala em acréscimo de um segundo significado, está-se indicando que um signo não pode passar a ter qualquer significado, mais só aqueles que tiverem alguma relação com o significado primeiro. Dizer que houve alteração de sentido por acréscimo quer dizer que a mudança se deu, porque o enunciador estabeleceu uma relação entre o significado de base e o significado novo.
As relações entre o significado acrescentado e o de base podem ser de dois tipos: de semelhança (ou intersecção) e de contigüidade (ou implicação). Entre o significado de base de agulha e o significado que essa palavra tem no texto, há traços semânticos comuns (intersecção), há uma semelhança sêmica: abrir caminho para, etc. 
Observação do professor Luiz Carlos:
Resumidamente, podemos entender da interpretação do texto e da explicação acima, que palavras que estão no sentido denotativo, nada mais são do que as palavras em seu sentido real, ou sentido literal, já as palavras que estão no sentido conotativo se apresentam no sentido figurado. 
Exemplos:
*Marinalva gosta de manga verde �Denotação: Refere-se ao estado da manga, sentido real ( fruta não madura)
*Durante a discussão, ele foi ficando cada vez mais vermelho. Ana, desse modo percebeu que falara algo inadequado.
Conotação: Pode ser uma referencia a uma suposta mudança de comportamento (sentido figurado).