A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
39 pág.
JoseEduarFaria

Pré-visualização | Página 8 de 12

investimentos da imprevisibilidade e do indeterminado. A presteza se converte 
numa das condições para a neutralização dos riscos inerentes às tensões e desequilíbrios dos 
mercados, levando a um processo decisório orientado pelo sentido de urgência e baseado 
tanto na capacidade quanto na velocidade de processamento de informações técnicas e 
especializadas. Por isso, empresas e instituições financeiras passam a ver o tempo diferido do 
processo civil e penal como sinônimo de elevação dos custos das transações econômicas, 
encontrando, na tendência de aumento do número de causas decididas por aplicação de 
Coimbra, 29 a 31 de Maio de 2003 (23) 
International Conference on Law and Justice in the 21st Century 
normas processuais em detrimento da decisão de mérito baseada no direito substantivo, um 
bom argumento para justificar esse ponto de vista. 
4.3 – No plano organizacional, além disso, a Justiça também não dispõe de meios 
materiais e técnicos para propiciar a seus integrantes a reciclagem de conhecimento e o 
treinamento necessário para tornar possível a compreensão, em termos de racionalidade 
material, dos litígios inerentes a contextos sócio-econômicos complexos e globalizados. Não é 
por acaso que as corporações transnacionais, conscientes das dificuldades das instituições 
judiciais para lidar com o novo, interpretar normas programáticas e conhecer o próprio 
contexto histórico em que atuam, têm fugido dos países com tribunais burocratizados, 
ritualizados e presos a arcabouços jurídicos ultrapassados, especialmente aqueles com origem 
no direito romano. 
Essa fuga tem três dimensões. Primeiramente, as corporações transnacionais tendem a 
acatar seletivamente as distintas legislações nacionais, optando por concentrar seus 
investimentos apenas nos países em cujo âmbito elas lhes são mais favoráveis (North: 1990; 
Martínez: 1998; e Pinheiro: 2000). Em segundo lugar, elas tendem a buscar alternativas ao 
processo tradicional e a se valer de instâncias alternativas especializadas, seja no âmbito 
governamental (por meio de autoridades administrativas independentes com poder de 
regulação, controle e fiscalização e capacidade técnica tanto para apreciar litígios complexos 
quanto para aplicar sanções), seja no âmbito social (por meio de negociação, mediações e de 
arbitragens) (Auerbach: 1983). Por fim, elas tendem a acabar criando muitas das regras de que 
necessitam e a estabelecer mecanismos de auto-resolução dos conflitos. Para as corporações 
transnacionais, as vantagens dessas estratégicas são inúmeras. As discussões podem ser mais 
rápidas e objetivas. Códigos ultrapassados e linguagens empoladas podem ser substituídos por 
regras e ritos definidos pragmaticamente fora de intermediação do Estado. E as intervenções 
de operadores jurídicos sem formação especializada para compreender problemas técnicos 
podem ser evitados. Acima de tudo, produz-se economia de tempo, o que termina fazendo 
com que essa combinação entre rapidez decisória, simplificação processual e baixo custo seja 
convertida no padrão básico de avaliação dos procedimentos públicos e privados de resolução 
dos conflitos — padrão esse no qual os mecanismos extrajudiciais se destacam por uma 
eficiência e objetividade que os tribunais não têm como assegurar. 
(24) Coimbra, 29 to 31 May 2003 
Colóquio Internacional - Direito e Justiça no Século XXI 
4.4 - Em termos funcionais, como foi concebido com a prerrogativa exclusiva de 
aplicar o direito positivo, sob a forma de uma ordem jurídica postulada como completa, 
coerente e livre de lacunas ou antinomias, o monopólio da Justiça vem sendo desafiado pela 
expansão de ordens normativas e práticas jurídicas que, quando não negam aos órgãos 
judiciais do Estado a exclusividade do exercício da função de dirimir conflitos de interesses, 
modificam drasticamente o conceito tradicional de jurisdição. Como mostra o quadro 14, são 
direitos autônomos e semi-autônomos, com regras, procedimentos e recursos próprios, 
entreabrindo a coexistência -por vezes sincrônica, por vezes conflitante- de diferentes 
normatividades. (Santos: 1995). No âmbito especificamente econômico, é esse o caso da Lex 
Mercatoria (o corpo autônomo de práticas, regras, códigos de conduta, cláusulas contratuais, 
termos padronizados e princípios mercantis constituído pela comunidade empresarial para 
auto-disciplinar suas atividades em escala internacional e propiciar critérios, métodos e 
procedimentos para a resolução de eventuais conflitos) e do Direito da Produção (o conjunto 
de normas técnicas formuladas para atender às exigências de padrões mínimos de qualidade, 
transporte e segurança dos bens e serviços em circulação no mercado transnacionalizado, de 
especificação de seus componentes, certificação da origem de suas matérias primas, de 
contabilização e controle de seus custos, etc). 
Coimbra, 29 a 31 de Maio de 2003 (25) 
International Conference on Law and Justice in the 21st Century 
QUADRO 14 
TIPOS DE ORDENS NORMATIVAS E SUAS PRÁTICAS JUDICIAIS 
TIPOS DE ORDEM 
 
CARACTERÍSTICAS 
LEX MERCATORIA 
E DIREITO 
DA PRODUÇÃO 
DIREITO INOFICIAL DIREITO 
POSITIVO 
DIREITO 
MARGINAL 
O que está em jogo Tensões 
 Não declaradas 
publicamente 
Conflitos 
materiais 
Litígios 
 Jurídico-
processuais 
Agressões 
Objetivos Relações continuadas Soluções substantivas Soluções formais Contestação 
Tipos de norma Pragmático e casuísta Soluções 
 “ad hoc” 
Direito codificado Lei do mais forte 
Racionalidade Procedimental Material Formal Irracional 
Modo 
de formalização 
Contratual Negociação Aplicação Ausência de 
formalização 
Tipo 
de procedimento 
Transação/mediação Conciliação/arbitragem Decisão Punição e e 
Repressão 
 Grau 
de institucionalização 
Organização flexível 
e Sistemas auto-regulados 
Campo social 
semi-autônomo 
Campo 
 Normativo 
estatal 
Marginalidade 
social 
e criminal 
Efetividade do Direito Por aceitação 
 e inclusão 
Por adaptação 
Ao contexto 
Pretensão de 
aplicabilidade 
universal 
Desafio contínuo 
da ordem 
Fonte: Adaptado de Rouland (1988: 447) 
 
A partir desta perspectiva, o pluralismo jurídico resulta, ao nível infra-estatal, no 
advento de justiças técnico-profissionais constituídas à margem da jurisdição convencional e 
de justiças não-profissionais e informais (as comunitárias, por exemplo), ambas operadas 
basicamente com critérios de racionalidade material e circunscrevendo sua atuação a conflitos 
intra-grupos, intra-comunidades e intra-classes; e, ao nível supra-estatal, na proliferação de 
foros descentralizados de negociação e a multiplicação de órgãos técnico-normativos -como 
o International Accounting Standards Committee, a International Organization for 
Standardization, a Internet Corporation for Assigned Norms and Numbers e a Associação 
Brasileira de Normas Técnicas- criados para unificar normas contábeis, fixar parâmetros, 
homologar pesquisas, dar pareceres e promover arbitragens. Atualmente, a resolução de mais 
de 80% dos conflitos mercantis entre empresas de média e grande porte na economia 
globalizada já é feita por mediações privadas e arbitragens extra-jurisdicionais. Nos Estados 
(26) Coimbra, 29 to 31 May 2003 
Colóquio Internacional - Direito e Justiça no Século XXI 
Unidos, a American Arbitration Association, uma entidade privada, conta com 57 mil árbitros 
inscritos em 35 filiais. Nesse país, há ainda 1.200 programas de Alternative Dispute 
Resolution e Amicable Dispute Resolution, com participação de vários setores 
governamentais, profissionais de diferentes áreas e distintas nacionalidades.