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Carl Rogers   Tornar se Pessoa

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de seu próprios sentimentos e atitudes conforme estes existam nele
em um nível orgânico, da maneira como tentei descrever. Também se toma mais consciente da
realidade conforme esta existe fora de si mesmo, ao invés de percebê-la em categorias
preconcebidas. Ele vê que nem todas as árvores são verdes, nem todos os homens são pais
rígidos, nem todas as mulheres são rejeitadoras, nem todas as experiências de fracasso
provam que ele não é bom, e assim por diante. Está apto a assimilar a evidência em uma nova
situação, corno ela é, ao invés de distorcê-la para se ajustar ao padrão que ele já sustém.
Como seria de esperar, essa capacidade crescente de ser aberto à experiência o toma muito
mais realista ao lidar com nossas pessoas novas, novas situações, novos problemas. Significa
que suas crenças não são rígidas, que ele pode tolerar a ambigüidade. Ele pode obter as
evidências mais conflitantes sem que isto o force a se fechar diante da situação. Essa abertura
de consciência àquilo que existe neste mornento em si rnesrno e na situação constitui,
acredito, um elemento importante na descrição da pessoa que emerge da terapia. 
Talvez possa conferir a esse conceito um significado mais vívido se o ilustrar a partir de
uma entrevista gravada. Um jovem profissional relata na quadragésima oitava entrevista a
maneira como se tomou mais aberto a algumas de suas sensações corporais, assim como
outros sentimentos. 
C: Não me parece ser possível a ninguém relatar todas as mudanças que sente. Mas eu
certamente tenho sentido nos últimos tempos que tenho mais respeito pela minha constituição
fisica, mais objetividade com relação a esta. Quero dizer que não espero demais de mim
mesmo. É assim que funciona: parece-me que no passado costumava lutar contra um certo
cansaço que sentia após as refeições. Bem, agora tenho plena certeza de que realmente estou
cansado — de que não estou me fazendo de cansado — que estou simplesmente
fisiologicamente mais fraco. Parece que eu estava constantemente criticando meu cansaço. 
T: Então você se deixa estar cansado, ao invés de sentir, além disso uma espécie de crítica. 
C: Sim, de que eu não deveria estar cansado ou algo assim. E me parece de um certo modo
ser bem profundo o fato de que simplesmente não posso lutar contra esse cansaço, e isto é
acompanhado também por um sentimento real de que tenho que ir mais devagar, de modo que
estar cansado não é uma coisa tão horrível. Acho que também posso como que estabelecer
uma ligação aqui de por que eu deva ser assim, da maneira como meu pai é. e da maneira
como encara algumas dessas coisas. Por exemplo, digamos que eu estivesse doente, e eu lhe
contasse, e pareceria que abertamente ele gostaria de fazer algo a respeito, mas também faria
transparecer: “Oh meu Deus, mais problemas”. Você sabe, algo assim. 
T: Como se houvesse algo bem importuno com o fato de se estar fisicamente doente. 
C: Sim, tenho certeza de que meu pai tem o mesmo desrespeito pela sua própria fisiologia que
eu tive. No verão passado, eu torci minhas costas, eu a distendi, a ouvi estalar e tudo o mais.
Primeiro houve uma dor real ali todo o tempo, realmente aguda. Fui ao médico para que me
examinasse e ele disse que não era sério, que curaria por si só contanto que não me curvasse
muito. Bem, isso acnteu há alguns meses e tenho percebido ultimamente que puxa vida, é uma
dor real e ainda persiste — e não é minha culpa. 
T: Isto não prova algo ruim a seu respeito. 
C: Não. E uma das razões por que pareço ficar mais cansado do que deveria talvez seja essa
tensão constante, e então já marquei uma consulta com um dos médicos no hospital para que
me examinasse e tirasse uma radiografia ou algo assim. De uma certa forma acho que poderia
dizer que estou simplesmente mais acuradamente sensível ou objetivamente sensível a esse
tipo de coisa... E isto constitui uma mudança realmente profunda como disse, e evidentemente
minha relação com minha esposa e meus dois filhos está bem, você não a reconheceria se
pudesse me ver por dentro como aliás, fez você quero dizer parece simplesmente não haver
nada mais maravilhoso do que verdadeira e genuinamente realmente sentir amor por seus
próprios filhos e ao mesmo tempo recebê-lo. Não sei como colocar isso. Temos tido um
respeito cada vez maior ambos por Judy e temos notado que — à medida que participamos
disso observamos uma enorme mudança nela — isso parece ser um tipo de coisa bem
profunda. 
T: Parece-me que está dizendo que pode ouvir mais acuradamente a si mesmo. Se o seu
corpo diz que está cansado, você o ouve e acredita nele, ao invés de criticá-lo; se está com
dor, você pode ouvir isto; se o sentimento é realmente amor por sua esposa ou filhos, você
pode sentir isto, e isto parece se revelar também nas diferenças provocadas neles. 
Aqui, em um excerto relativamente menor porém simbolicamente importante, pode-se
ver muito daquilo que venho tentando dizer sobre abertura à experiência. Anteriormente ele
não poderia sentir livremente dor ou doença, pois estar doente significava ser inaceitável. Nem
poderia sentir ternura e amor por seus filhos pois esses sentimentos significavam ser fraco, e
ele tinha de manter sua fachada de forte. Mas agora ele pode ser genuinamente aberto às
experiências de seu organismo — pode estar cansado quando estiver cansado, pode sentir dor
quando seu organismo estiver com dor, pode experienciar livremente o amor que sente por sua
filha e pode também sentir e expressar aborrecimento com relação a ela, conforme continua a
dizer na proxima porção da entrevista. Ele pode viver plenamente as experiências de seu
organismo total, ao invés de recusar-se a permitir que sejam percebidas. 
Confiança no próprio organismo 
Uma segunda característica das pessoas que emergem da terapia é dificil de ser
descrita. Parece que a pessoa descobre cada vez mais que seu próprio organismo é digno de
confiança, que constitui um instrumento adequado para descobrir o comportamento mais
satisfatório em cada situação imediata. 
Se isto parece estranho, deixe-me tentar expressá-lo mais completamente. Talvez lhe
ajude a compreender minha descrição se pensar no indivíduo que depara com alguma escolha
existencial: “Devo ir para casa de minha família durante as férias, ou devo me virar sozinho?”;
“Devo beber este terceiro coquetel que está sendo oferecido?”; “É esta a pessoa que gostaria
de ter como meu parceiro no amor e na vida?”. Pensando nessas situações, o que parece
verdadeiro a respeito da pessoa que emerge do proceso terapêutico? Na medida em que esta
pessoa está aberta a toda a sua experiência, ela tem acesso a todos os dados disponíveis na
situação, sobre os quais basear seu comportamento. Ela tem conhecimento de seus próprios
sentimentos e impulsos, que são freqüentemente complexos e contraditórios. Ela está
livremente apta para perceber as exigências sociais, desde as “leis” sociais relativamente
rígidas até os desejos de amigos e familiares. Ela tem acesso às suas memórias de situações
semelhantes e às conseqüências de diferentes comportamentos naquelas situações. Ela tem
uma percepção relativamente acurada de sua situação externa em toda a sua complexidade.
Ela está mais apta a permitir que seu organismo total, seu pensamento consciente
participativo, considere, pondere e equilibre cade estímulo, necessidade e exigência, e seu
peso e intensidad relativos. A partir dessa ponderação e equilíbrio complexos, ela está apta a
descobrir o curso de ação que parece mais se aproximar à satisfação de todas as suas
necessidades na situação, tanto as necessidades de longo alcance como aquelas imediatas. 
Nessa ponderação e equilíbrio de todos os componentes de uma determinada escolha
de vida, seu organismo não seria de forma alguma infalível. Escolhas