A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
216 pág.
Carl Rogers   Tornar se Pessoa

Pré-visualização | Página 46 de 50

da sua pessoa em movimento.
Percebe-se responsável pelos seus problemas. Sente-se além disso plenamente responsável
em relação à sua vida em todos os seus aspectos em movimento. Vive plenamente em si
mesmo como um processo em permanente mudança. 
Alguns problemas referentes a esse processo contínuo
Tentemos antecipar alguns problemas que se poderiam levantar a propósito do processo
que procurei descrever. 
Será este o único processo através do qual a personalidade se modifica, ou será apenas
uma entre várias modalidades de mudanças? Ignoro-o. Talvez existam diferentes tipos de
processos de modificação da personalidade. Apenas quis especificar que me parece ser este o
processo que se desencadeia quando o indivíduo faz a experiência de ser plenamente aceito. 
Aplicar-se-á isso a todas as psicoterapias, ou esse processo apenas se verifica numa
determinada orientação psicoterapêutica? Não podemos responder a essa questão enquanto
não tivermos mais gravações de terapias segundo outras orientações. No entanto, a minha
opinião é a de que talvez as abordagens terapêuticas que acentuam bastante os aspectos
cognitivos e menos os aspectos emocionais da experiência possam provocar um processo de
mudança completamente diferente. 
Concordarão todos que se trata de um processo de mudança desejável, orientado para
direções válidas? Não creio. Julgo que certas pessoas não dão valor à fluidez. Este é um dos
juízos de valor social que os indivíduos e as culturas terão de fazer. O processo de mudança
pode ser facilmente evitado pela redução ou pela eliminação das relações em que o indivíduo
seja plenamente aceito como é. 
Será rápida a mudança nesse contínuo? Minha observação leva-me a afirmar
exatamente o contrário. Minha interpretação do estudo de Kirtner (4), que pode ser um tanto
diferente da sua, é que um cliente pode iniciar um tratamento próximo do segundo estágio e
terminá-lo por volta do quarto, ficando tanto o cliente como o terapeuta absolutamente
satisfeitos com os progressos substaiicií que foram atingidos. Ocorre muito raramente, se é que
ocorre alguma vez, que um cliente característico do primeiro estágio chegue a um ponto em
que apresente as características do sétimo estágio. Se isso acontecer, serão necessários
alguns anos. 
Estarão os aspectos descritos agrupados adequadamente em cada estágio? Tenho
certeza de ter cometido muitos erros na maneira como agrupei minhas observações. Também
me pergunto quais os elementos importantes que foram omitidos. Não se poderiam descrever
os diversos elementos desse contínuo de uma forma mais sucinta? A todas essas questões, no
entanto, poderá ser dada uma resposta empírica, se a hipótese que proponho tiver algum
mérito aos olhos de um certo número de pes quisadores. 
Resumo 
Tentei esboçar em traços largos, e de uma maneira provisória, o desenrolar de um
processo de modificação da personalidade que ocorre quando um cliente sente que é aceito,
bemvindo e compreendido tal qual é. Esse processo engloba várias linhas de força, a princípio
separadas, mas que se tomam cada vez mais uma unidade à medida que o processo se
desenrola. 
Esse processo implica uma maleabilidade crescente de sentimentos. No extremo inferior do
contínuo eles são descritos como longínquos, impessoais e não-presentes. Posteriormente são
descritos como objetos presentes e em certa medida reivindicados pelo indivíduo. A seguir são
expressos como sentimentos pessoais em termos mais próximos da sua experiência imediata.
Num grau ainda mais elevado da escala são experimentados e expressos como imediatamente
presentes, com um receio decrescente desse processo. Nesse ponto, mesmo os sentimentos
que foram anteriormente rejeitados da consciência começam a surgir, são experimentados e
cada vez mais reconhecidos pelo indivíduo como seus. No ponto superior do contínuo, no
interior do processo da experiência, um incessante fluxo de sentimentos caracteriza daí cm
diante o indivíduo. 
O processo implica uma transformação das formas de vivenciar. O contínuo começa
com uma fixidez na qual o indivíduo está muito afastado da sua vivência e é incapaz de extrair
ou de simbolizar a sua significação implícita. A vivência é relegada para o passado, antes dc
poder ser compreendida, e o presente é interpretado em termos das significações passadas. O
indivíduo passa desse afastamento em relação à sua vivência para o reconhecimento desta
mesma vivência como de um processo perturbador que se desenrola dentro dele. A
experiência toma-se gradualmente um ponto de referência interior mais aceito, ao qual se pode
voltar para obter significações cada vez mais adequadas. Por último, o indivíduo torna-se
capaz de viver livremente e de se aceitar num processo fluido de experiências, utilizando-as
com segurança como a principal referência para o seu comportamento. 
O processo implica a passagem da incongruência à congruência. O contínuo desenrola-
se a partir de um máximo de incongruência que é absolutamente desconhecido para o
indivíduo, passa através de diferentes fases onde se dá um crescente reconhecimento das
contradições e das discrepâncias que existem nele, para terminar numa experiência da
incongruência imediatamente presente. de tal maneira que a dissolve. No extremo superior do
contínuo nunca se verifica mais do que uma incongruência temporária entre a vivência e a
consciência, pois o indivíduo já não tem necessidade de se defender contra os aspectos
ameaçadores da sua própria experiência. 
O processo implica uma alteração na maneira como o indivíduo é capaz e como deseja
comunicar-se num clima receptivo, implicando também uma extensão dessas capacidades. O
contínuo vai de uma repugnância rica e mutável da experiência interior que se comunica
facilmente quando o indivíduo deseja. 
O processo implica uma maleabilidade crescente dos mapas cognitivos da experiência,
O cliente passa de uma experiência construída em feririas rígidas, percebidas como fatos
externos, para um desenvolvimento elaborado a partir de significações mais fluidas da
experiência, recorrendo a construções que se modificam a cada nova experiência. 
Há uma alteração no relacionamento do indivíduo com seus problemas. Numa
extremidade do contínuo, os problemas não são reconhecidos e não há desejo de mudança.
Vai-se depois reconhecendo gradualmente que existem problemas. Num estágio mais
adiantado, há o reconhecimento de que o indivíduo contribuiu para esses problemas, que eles
não derivam apenas de fontes exteriores. Há um sentido crescente de auto-responsabilidade
pelos problemas. Em seguida, há uma vivência de alguns aspectos dos problemas. A pessoa
vive seus problemas subjetivamente, sentindo-se responsável pela contribuição que deu no
desenvolvimento deles. 
Dá-se uma mudança na maneira de estabelecer relações. No início do contínuo evita as
relações íntimas que lhe parecem ameaçadoras. Na outra ponta do contínuo, ele vive aberta e
livremente na relação com o terapeuta e com os outros, orientan do seu comportamento na
relação a partir da sua experiência imediata. 
De um modo geral, o processo parte de um ponto de fixidez onde todos os elementos e
linhas de força acima descritos são facilmente discerníveis e compreensíveis isoladamente, até
o ponto culminante da terapia em que todas essas linhas de força convergem de modo a
formar um todo homogêneo. Nas novas vivências imediatas que ocorrem nesses momentos, os
sentimentos e os conhecimentos interpenetram-se, o eu está subjetivamente presente na
experiência, a vontade é simplesmente a seqüência de um equilíbrio harmonioso na direção
organísmica. Assim, à medida que o processo se aproxima desse ponto, a pessoa toma-se
uma unidade em movimento, O indivíduo modificou-se, mas o que