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Carl Rogers   Tornar se Pessoa

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de
promoção grau a grau nas faculdades, onde as pessoas tantas vezes se limitam a aprender
uma única lição — a de não mostrarem muito o que são. 
Ao tentar ensinar o que aprendera sobre tratamento e aconselhamento aos estudantes
da Universidade de Ohio, comecei a me dar conta pela primeira vez de que tinha talvez
elaborado uma perspectiva muito pessoal a partir da minha própria experiência. Quando
procurei formular algumas dessas idéias e as apresentei numa conferência na Universidade de
Minnesota, em dezembro de 1940, deparei com reações extraordinariamente fortes. Foi a
minha primeira experiência do fato de que uma das minhas idéias, que para mim parecia
brilhante e extremamente fecunda, pudesse representar para outrem uma grande ameaça. E a
situação de me encontrar no centro das críticas, dos argumentos a favor e contra, desorientou-
me e me fez duvidar e questionar a mim mesmo. Todavia, pensava que tinha algo a dizer e
redigi o manuscrito de Counseling and Psychotherapy, descrevendo o que, de alguma maneira,
me parecia ser uma orientação mais eficaz da terapia. Aqui, mais uma vez, acho um pouco
divertida a minha despreocupação pouco “realista”. Quando propus ao editor o manuscrito,
este o considerou interessante e original mas quis saber para que cursos poderia servir.
Respondi-lhe que apenas conhecia dois: o que eu dava e um em outra universidade, O editor
julgou que eu cometera um erro grave por não ter escrito um texto que pudesse ser utilizado
por cwsos já em funcionamento. Tinha muitas dúvidas de poder vender dois mil exemplares,
número necessário para cobrir as despesas. Somente quando lhe disse que procuraria outro
editor é que se decidiu a arriscar. Não sei qual de nós dois ficou mais surpreso com o iúmero
de vendas: setenta mil exemplares até hoje, e a coisa continua. 
Os últimos anos 
Creio que a partir desse ponto, e até agora, a minha vida profissional — cinco anos em
Ohio, doze anos na Universidade de Chicago e quatro na Universidade de Wisconsin - está
suficientemente bem documentada naquilo que escrevi. Vou me limitar a apontar dois ou três
aspectos que me parecem mais significativos. 
Aprendi a viver numa relação terapêutica cada vez mais profunda com um número
sempre crescente de clientes. Isto pode ser e tem sido extremamente animador. Pode também
ser extremamente alarmante e, por vezes, o foi, quando alguém muito perturbado parece exigir
de mim mais do que sou para poder corresponder às suas necessidades. É certo que a prática
da terapia é algo que exige um desenvolvimento pessoal permanente por parte do terapeuta, o
que às vezes é penoso, mesmo se, a longo prazo, provoca uma grande satisfação. Desejaria
ainda acentuar a importância cada vez maior que a investigação passou a ter para mim*. A
pesquisa é a experiência na qual posso me distanciar e tentar ver essa rica experiência
subjetiva com objetividade, aplicando todos os elegantes métodos científicos para determinar
se não estou iludindo a mim mesmo. Estou cada vez mais convencido de que descobriremos
leis da personalidade e do comportamento que serão tão importantes para o progresso
humano ou para a compreensão do homem como a lei da gravidade ou as da termodinâmica. 
No decurso das duas últimas décadas, habituei-me de certa forma a ser atacado, mas
as reações às minhas idéias continuam a surpreender-me. Do meu ponto de vista, julgo que
sempre propus minhas idéias como hipóteses de trabalho, para serem aceitas ou rejeitadas
pelo leitor ou pelo estudioso. No entanto, por diversas vezes e em diferentes lugares,
psicólogos, terapeutas e pedagogos atacaram meus pontos de vista com críticas cheias de
violência e desprezo. O seu furor atenuou-se um pouco durante os últimos anos, mas renovou-
se entre os psiquiatras, pois alguns deles viam na minha maneira de trabalhar uma grande
ameaça aos seus princípios mais queridos e mais inquestionáveis. E talvez as críticas
tempestuosas encontrem um paralelo no dano causado por alguns “discípulos”, sem sentido
crítico e sem espírito inquisitivo, pessoas que adquiriram para si próprias alguma coisa dc um
novo ponto de vista e que partiram em guerra contra toda a gente, utilizando como arma,
correta ou incorretamente, o meu trabalho e certas teorias minhas. Tive sempre dificuldades
em saber quem me tinha feito um mal maior, se os meus “amigos”, se os meus adversários. 
*A terapia é a experiência em que posso me entregar subjetivamente. Foi talvez em
parte devido a essa situação desagradável de ver as pessoas disputarem por minha causa que
passei a apreciar o extraordinário privilégio que é desaparecer e poder estar só. Julgo que os
meus períodos de trabalho mais fecundos foram os momentos em que pude afastar-me
completamente do que os outros pensavam, das obrigações profissionais e das exigências do
dia-a-dia, quando ganhava uma perspectiva sobre o que estava fazendo. Minha mulher e eu
encontramos lugares de refúgio isolados no México e nas ilhas do Caribe, onde ninguém sabe
que sou um psicólogo; aí, minhas principais atividades são pintar, nadar, fazer pesca
submarina e fotografia em cores. Foi no entanto nesses locais, onde não efetuo mais de duas a
quatro horas de trabalho profissional, que mais progredi durante os últimos anos. Eu dou valor
ao privilégio de estar só. 
Algumas coisas fundamentais que aprendi 
Aí estão, brevemente delineados, alguns traços exteriores da minha vida profissional.
Gostaria, no entanto, de fazer com que vocês penetrassem um pouco mais, de lhes falar de
algumas coisas que aprendi no decurso das milhares de horas que passei trabalhando
intimamente com indivíduos que apresentavam distúrbios pessoais. Gostaria de esclarecer que
se trata de ensinamentos que têm significado para mim. Ignoro se os acharão válidos. Não
pretendo apresentá-los como uma receita seja para quem for. Contudo, sempre que alguém
quis falar comigo das suas opções pessoais, ganhei algo com isso, nem que fosse verificar que
as minhas são diferentes. É nesse espírito que formulo os ensinamentos que se seguem. Creio
que, em cada caso, eles se manifestaram nas minhas atividades e nas minhas convicções
íntimas muito antes de ter tomado consciência deles. Trata-se sem dúvida de uma
aprendizagem dispersa e incompleta. Só posso dizer que ela foi muito importante para mim e
que continua sendo. Aí encontro constantemente novos ensinamentos. Com freqüência deixo
de aplicá-los, mas acabo sempre por me arrepender disso. Acontece-me também
freqüentemente, perante uma nova situação, não saber como aplicar o que aprendi. Estas
experiências não estão cristalizadas. Alteram-se permanentemente. Algumas parecem ganhar
um alcance maior, outras são talvez menos importantes do que o eram noutra época, mas
todas têm para mim um significado. Vou introduzir cada um desses ensinamentos de minha
experiência com uma frase ou proposição que indica em parte o seu significado pessoal. Em
seguida, desenvolvê-lo-ei um pouco, O que se segue não está muito bem estruturado, exceto
nos primeiros aspectos apontados que se referem às relações com os outros. Seguem-se
alguns aspectos que se integram nas categorias pessoais dos meus valores e das minhas
convicções. 
Iniciarei essas várias proposições de ensinamentos significativos com um item negativo.
 Nas minhas relações com as pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como
se eu fosse alguma coisa que não sou. Não serve de nada agir calmamente e com delicadeza
num momento em que estou irritado e disposto a criticar. Não serve de nada agir como se
soubesse as respostas dos problemas quando as ignoro. Não serve de nada agir como se
sentisse afeição por uma pessoa quando nesse determinado momento sinto hostilidade para
com ela. Não serve de nada agir como se estivesse cheio de segurança