A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
43 pág.
filosofia_da_educacao_m1_A1

Pré-visualização | Página 4 de 12

conta as forças e 
as fraquezas humanas, um discurso tão bem argumentado, verifi cado, 
tão meticulosamente pesado que no fi m cada um dos participantes 
fi ca, de certo modo, obrigado a concordar, a aceitar esse discurso. 
Deve fi car bem claro que esse é um aspecto de extrema importância 
(...).CHÂTELET, François. Uma História da Razão. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar, 1994, p. 25-27.
Observe que a forma com que se constrói conhecimento na fi losofi a, tendo-se em conta 
a caracterização acima, é em tudo estranha à forma de proceder do pensamento mítico. 
O mito, apesar de se constituir num esforço de imaginar a realidade, está na contramão 
do conhecimento construído pelo questionamento contínuo. Danilo Marcondes, em seu 
livro de Iniciação à História da Filosofi a, marca esta diferença ao assinalar:
Por ser parte de uma tradição cultural, o mito confi gura assim a 
própria visão de mundo dos indivíduos, a sua maneira de vivenciar 
esta realidade. Nesse sentido, o pensamento mítico pressupõe a adesão, 
a aceitação dos indivíduos, na medida em que constitui as formas de 
sua experiência do real. O mito não se justifi ca, não se fundamenta, 
portanto, nem se presta ao questionamento, à crítica ou à correção. Não 
há discussão do mito porque ele constitui a própria visão de mundo dos 
indivíduos pertencentes a uma determinada sociedade, tendo, portanto, 
um caráter global que exclui outras perspectivas a partir das quais 
ele poderia ser discutido. (MARCONDES, Danilo. Iniciação à História 
da Filosofi a: Dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar, 1997, p. 20.)
AAssim, onde o pensamento mítico leva invariavelmente à reprodução de uma narrativa 
fechada com que se descreve a origem do mundo, dos homens e a excelência de certos 
valores sobre outros, o pensamento argumentativo da fi losofi a põe em causa como se 
chegou a essas conclusões e procura encaminhar outras respostas – sempre, é claro, 
com base antes no raciocínio sistemático do que na simples tradição em torno da qual 
um povo inteiro se reúne.
3
A fi losofi a como atitude - Módulo 1 Filosofi a
4
Esta terá sido, para muitos, a grande revolução operada pela fi losofi a desde seu 
nascimento na região da Jônia, no VI século a.C., com aqueles fi lósofos que estavam 
interessados em descobrir os princípios com que a Natureza se organizava. Estes 
pensadores exigiam de si, nessa procura do elemento primordial da physis, elemento 
chamado de arché, uma explicação objetiva. Para estes pensadores, a realidade passa 
a ser descrita como coerente, um verdadeiro kósmos, e todas as transformações nela 
evidenciadas poderiam ser atribuídas a causas naturais. Os deuses, seus sentimentos 
e humores tão variados, deixam de ser, agora, invocados, por esses pensadores, para 
explicar os acontecimentos da Natureza. Para nossos interesses neste momento, não 
importa tanto relacionar os nomes desses fi lósofos jônicos aos diferentes elementos a 
partir dos quais julgavam que a Natureza era composta, mas perceber o sentido maior 
da invenção deste tipo de pensamento, sua originalidade em relação à forma tradicional, 
mítica, de ver o mundo. Num estilo tão preciso quanto precioso e exatamente nesta 
direção, Fernand-Lucien Mueller nos diz:
Parece dever-se a Tales, o primeiro desses grandes homens da Jônia, 
a noção de physis, no sentido de uma realidade marcada por uma 
coerência e cujas transformações podem ser concebidas objetiva-
mente. Pouco importa assim que Tales tenha assimilado essa arché, 
o elemento fundamental dessa physis, à água. Talvez o tenha feito 
após refl etir sobre as enchentes do Nilo. Em Anaximandro, autor de 
um tratado Da Natureza, do qual resta um fragmento, intervém uma 
realidade originária, indeterminada e ilimitada, o ápeiron, de que 
proviria o mundo por meio de uma ruptura, seguida de diferenciações 
progressivas. Anaximandro teve, até mesmo, o pressentimento de uma 
evolução das espécies vivas, a partir do limo do mar. Anaxímenes, seu 
discípulo, por sua vez, crerá que o elemento primordial é o ar, entendido 
provavelmente num sentido que engloba tanto os ventos, os vapores 
e as nuvens, quanto o espaço e o ar respirável. Mas o essencial é que 
se tenha enunciado, pela primeira vez, a exigência de uma realidade 
natural objetiva – existente independentemente do homem – e tenha 
aberto, assim, caminho a toda investigação científi ca. As primeiras 
fi losofi as dos jônicos são de admirar pelo cuidado novo de uma visão 
racional da realidade, pela reivindicação audaciosa de uma verdadeira 
explicação desligada dos mitos. (MUELLER, Fernand-Lucien. História 
da Psicologia. São Paulo: Nacional, 1978, p. 9 [itálico nosso].)
Observe, no entanto, que o pensamento mítico encontra-se ainda muito bem partilhado 
entre nós. Os fi lósofos da Grécia antiga, ao imaginarem a idéia de um cosmo ordenado 
por princípios objetivos, podem ter, de fato, aberto caminho para certo tipo de pensa-
mento objetivo, mas quão poucos são aqueles que, ainda hoje, ousam pôr em xeque 
as concepções, baseadas em mitos, com que se descreve o mundo e o lugar do homem 
neste. Dirigir a palavra argumentada, o logos, para domínios das “verdades” com que 
crescemos e com que nos identifi camos existencialmente sempre exigirá coragem: o 
pensamento é, sobretudo, uma ousadia. 
4
5
A fi losofi a como atitude - Módulo 1 Filosofi a
Agora que você já teve contato, ainda que muito breve, com o tema da oposição entre o pensamento 
racional e o pensamento mítico, pode explorar, mais detidamente, essa questão lendo um interessante 
texto de Karl Popper, onde este autor elogia o caráter aberto (isto é, de sujeição à revisão crítica) 
das explicações propostas pelos pré-socráticos em sua busca da arché. Trata-se de “Retorno aos 
Pré-Socráticos”, o quinto capítulo de sua obra Conjecturas e Refutações. Reproduzimos um excerto 
do mesmo a seguir:
Indo além
Entre em contato com o Orientador Acadêmico através da Sala do Orientador na sala de aula virtual, 
ou consulte o Quadro Horários de Atendimento presencial ao aluno, disponível no Mural da Lara 
para saber os dias e horários do plantão do Orientador no laboratório de Informática da sua unidade 
UNISUAM.
Dúvidas?
Tudo compreendido até aqui? Então, vamos em frente!
5
A fi losofi a como atitude - Módulo 1 Filosofi a
6
Filosofi a - Texto Complementar 
Módulo 1 aula 2
Retorno aos Pré-Socráticos
(...) Eu receio não ter nada para vos oferecer que ande no ar hoje em dia, pois aquilo a 
que pretendo regressar é à racionalidade simples e límpida dos Pré-Socráticos. E em 
que é que consiste essa tão discutida racionalidade dos Pré-Socráticos? A simplicidade 
e a ousadia das suas questões são parte integrante dela, mas a minha tese é de que seu 
ponto decisivo é a atitude crítica que, como tentarei demonstrar, se desenvolveu pela 
primeira vez na Escola Jônica. (...)
A história dos primórdios da fi losofi a grega, especialmente, a que vai de Tales a Platão, é 
uma história magnífi ca. É quase demasiado boa para ser verdadeira. Em cada geração, 
encontramos pelo menos uma nova fi losofi a, uma nova cosmologia surpreendentemente 
original e profunda. Como foi isto possível? É evidente que não se pode explicar a 
originalidade e o gênio. Mas podemos tentar lançar alguma luz sobre eles. Qual era o 
segredo dos antigos? Sugiro que era uma tradição – a tradição da discussão crítica.
Vou tentar pôr o problema em termos mais esclarecedores. Em todas ou quase todas 
as civilizações encontramos algo como um ensino religioso e cosmológico, e em muitas 
sociedades encontramos escolas. Ora, as escolas, e sobretudo as primitivas, têm todas, 
segundo parece, uma estrutura e função características. Longe de serem centros de 
discussão crítica, assumem como tarefa transmitir uma doutrina defi nida e preservá-la 
pura e inalterada. É missão da escola fazer passar a tradição, a doutrina do seu fundador, 
do