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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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Objetivo do estudo
Neste módulo, você se deterá sobre um tema central do qual esperamos que continue 
a ser objeto de suas reflexões, pois se trata de um assunto extremamente relevante. 
Trata-se da questão: o que é o conhecimento?
A ela estão associadas várias outras. Que conhecimento se faz confiável? Por onde se 
inicia o conhecimento? Podemos estar sendo sistematicamente iludidos, como Platão 
defendeu em sua alegoria da caverna?
A tradição particular em que fomos criados pode fazer as vezes de uma caverna como a 
que iludia os habitantes do mito platônico? A experiência que temos do mundo basta ou é 
exatamente dessa experiência que temos de desconfiar se aspiramos a um conhecimento 
mais universal? Como podemos sair de um estado de imersão num mundo ilusório 
para um outro que nos esclareça do caráter parcial e fragmentado de nossas crenças 
iniciais? A filosofia nos ajudaria neste processo de afastamento do senso comum para 
uma consciência reflexiva? Ou estarão os nossos sentidos, muito adequadamente, nos 
alimentando de informações sobre um mundo a cujo estudo deveríamos nos manter fiéis? 
Quais os objetivos do conhecimento? Eles se mantêm os mesmos ou foram imaginados 
de diversas formas ao longo da história?
No primeiro tópico, veremos por qual atitude o conhecimento forçosamente se inicia 
e que obstáculos uma sociedade que se organiza em torno da técnica como “visão de 
mundo” pode oferecer a esta atitude tão importante. No segundo, você será convidado 
a conhecer a forma com que Platão imaginou o conhecimento. Para ele, o conhecimento 
verdadeiro em tudo se opõe à experiência sensível. Platão localiza no chamado “mundo 
das Idéias” o objeto da procura de Sócrates: o universal. O mundo das Idéias não pode 
ser captado pelo olho sensível. Esse mundo é eterno e incorruptível.
 Platão deixava claro que quem não soubesse geometria, não deveria adentrar sua 
escola, a Academia. Isto porque é exatamente à luz dos objetos da matemática que ele 
pensará a natureza do mundo das Idéias. Os universais platônicos do Bom, do Belo e do 
Justo, eles próprios, só podem ser contemplados pela razão. A experiência que temos do 
mundo sensível é, portanto, o grande obstáculo para o conhecimento, segundo Platão. 
É se afastando do mundo da experiência que a alma pensa melhor – longe, portanto, da 
“prisão do corpo”. Já Aristóteles, como você verá no terceiro tópico, vê nas sensações 
um degrau necessário para o conhecimento. O homem não está lutando contra uma 
ignorância imposta pelo mundo sensível, na concepção aristotélica. O conhecimento, por 
mais afastado que, ao final, se mostre do plano das sensações, na visão de Aristóteles, 
guarda uma relação de continuidade com este último.
O questionamento sobre a relação entre conhecimento e experiência sensível é recapi-
tulado, bem mais tarde, no século XVII entre dois grandes grupos de filósofos. Afinal, 
o conhecimento deveria partir da experiência ou deveria se colocar em guarda contra 
ela? O grupo conhecido como “empiristas” defendem a primeira via; os “racionalistas”, 
a segunda. A Revolução Científica, ocorrida na virada do século XVI para o XVII, pelo 
menos, na interpretação que a ela dá o historiador Alexandre Koyré, aponta para o 
fracasso do empirismo como um bom guia para a construção do conhecimento. A idéia 
é de que Galileu precisa recusar as evidências fornecida pelos sentidos para sustentar 
o heliocentrismo. Este tópico será explorado no quarto tópico.
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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
No quinto topico, por sua vez, procura descrever a ciência como um processo que tem 
na testagem a mais rigorosa das hipóteses sua característica definidora. É com Karl 
Popper, pensador do século XX, que procuraremos afastar definitivamente a visão 
com que nos familiarizamos acerca de como se inicia o conhecimento. O ponto é que 
o conhecimento não se inicia pela observação pura. Na verdade, essa expressão nem 
faz sentido. Toda observação que efetuarmos já implica pressupostos, crenças, teorias 
adotadas tacitamente etc. Se quisermos obter conhecimento objetivo, devemos buscar 
criticar nossas idéias da maneira a mais severa e não imaginar que podemos partir de 
dados puros e neutros.
Ao final deste Módulo II, com o cuidadoso e empenhado estudo do material que tem 
em mãos, você já poderá se orientar diante de algumas questões epistemológicas. A 
Epistemologia é exatamente a área da Filosofia que se detém sobre o conhecimento, 
problematizando-o. É uma área fundamental, pois quem não gostaria de começar a 
refletir sobre as diferenças entre um conhecimento do mundo que se orienta pela crítica 
e um falso conhecimento que repousa ou no dogma ou em justificativas sofríveis?
Bom estudo!
A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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Aula 1 - O ato de admirar-se
(tò thaumázein) como condição para a 
busca do conhecimento.
Há um verbo grego com que se nomeia a condição necessária a toda reflexão filosófica: 
tò thaumázein. Esse termo refere-se à ação de se deixar espantar pelo que nossa forma 
instrumental de lidar com a vida já trivializou.
Quer-se com ele fazer referência a uma atitude vital para o pensamento: voltar-se a ver o 
nosso mundo com o frescor de quem desperta para o reconhecimento de sua estranheza 
ou com a gravidade de alguém que está diante 
de algo que assombra. Entrar no domínio do 
conhecimento é saber se manter como um 
eterno estrangeiro na sua própria terra. 
Você já reparou como é nosso olhar quando 
visitamos um lugar distante?
Um olhar de assombro, que se volta maravi-
lhado para tudo o quanto se nos mostra.
Pois bem, deveríamos nos manter assim no 
domínio do conhecimento: continuamente 
curiosos. Não falamos aqui de uma curiosidade 
pueril e passageira, mas de uma inquietação 
cultivada. Seria possível uma nova pedagogia 
do espanto, uma pedagogia do thaûma, que 
se contrapusesse à experiência de codificação do mundo que nossos olhares treinados 
e nossos hábitos mortificadores justificam a todo o momento? 
Hoje, como jovens e adultos socializados nas regras de um mundo burocrático e 
imediatista e vigiados continuamente para nos mostrarmos eficientes na conquista de 
metas já traçadas, esse espanto, que se traduz pela curiosidade filosófica, soa deslocado: 
perda de tempo ou coisa de quem não tem algo mais importante para fazer. A vida já foi 
loteada e a nova ordem histericamente nos obriga a lutar por um espaço 
num mercado cada vez mais agressivo. A filosofia insiste: o conhecimento 
pode ser entendido como mais do que o domínio de uma técnica que nada 
tem a ver com nossas vidas. 
O ponto incontornável é que tanto o cientista quanto o filósofo necessitam 
cultivar esse estado de abertura expresso no espanto diante do mundo. 
(Na verdade, todos nós precisamos: viver em um mundo sem conhecer tal 
atitude é estar nele de maneira mutilada, é experimentá-lo de maneira 
particularmente empobrecida.) Como o cientista consegue gerar com seu 
saber uma forma de domínio sobre o mundo, a curiosidade que exprime 
por meio dos problemas que formula consegue ainda se ver prestigiada.
Em nosso tempo, a razão operatória, aquela que submete o real aos propósi-
tos mais utilitários do homem, é continuamente elogiada. Mas o espanto do 
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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
filósofo não serve à técnica. O filósofo não pode se contentar em ser um mero funcionário, 
sob condição de, em o fazendo, deixar de pensar filosoficamente. Seu pensamento deve 
incomodar mais do que servir. Lembre-se, aqui, da descrição de Sócrates por si mesmo, 
na Apologia, de Platão, como um mosquito que perturba a nossa tendência ao sono.
Tamanha é a vitória da visão técnica do pensamento, que se tem não só perdido o 
contato com essa experiência do espanto filosófico, mas passou-se também, com um 
desdém