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as aparências não cessam de mudar, à mercê do 
devir”. Como resume Châtelet, se o mundo das aparências é confuso e variável, “o Mundo 
das Idéias, por essência, é estável e transparente” (Châtelet, 1994, p. 37-38). 
A tarefa do filósofo, dentro dessa concepção, não 
é outra senão a busca racional por esse mundo 
incorruptível e, mais ainda, pela Essência ou 
Ideia Suprema, a qual ilumina todas as outras. 
Conforme Châtelet, uma vez mais: “Platão diz 
que esse mundo é tão belo, tão profundamente 
inteligível, de uma transparência tão brilhante, 
que mal se pode falar dele com as palavras do 
mundo sensível” (2001, p. 40).
Em sua célebre obra A República, em que 
Platão desenha um modelo de cidade-ideal com 
funcionamento, a propósito, bem mais parecido 
com o de Esparta do que com o de Atenas, temos, 
a certa altura – mais precisamente no Livro VII 
–, o desenvolvimento da concepção desse pensador acerca da condição humana e do 
exercício de elevação do mundo ilusório a que a racionalidade filosófica, segundo ele, 
pode conduzir. Todo o percurso de uma consciência pré-filosófica (representada pela 
visão limitada dos prisioneiros, dos jogos em que estes se engajam e dos prêmios a cuja 
obtenção se consagram), passando pela construção de uma consciência reflexiva (a 
ascensão sempre dolorosa do sujeito, habituado que estava a uma única posição e ao 
conforto da escuridão, para fora da caverna), até a contemplação da luminosa Ideia pelo 
indivíduo que se liberta (a metáfora da própria Verdade) é simbolizado numa grande 
alegoria.
 Trata-se de uma coleção de metáforas a qual se deve dar atenção redobrada para que seus 
elementos possam ser decifrados. Não pequena atenção deve também ser dispensada a 
um eventual aviso aos antigos companheiros, ainda consagrados aos hábitos da caverna, 
por parte do sujeito que ao dali sair reconhece, então, no mundo anterior, apenas um 
cenário de ilusões. Este último, é claro, é o filósofo. Ele toma para si o compromisso 
pedagógico de procurar esclarecer os demais prisioneiros de sua condição de habitantes 
de um mundo ilusório. Mas lembremo-nos aqui de que ele terá de enfrentar uma série 
de novos obstáculos: já não está acostumado à escuridão e procurará iniciar um diálogo 
com indivíduos que avaliarão suas ideias com base no contexto de crenças e de valores 
da própria tradição confinante em que se encontram. Terá êxito garantido, portanto, na 
tarefa pedagógica que põe para si?
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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
 A Alegoria da Caverna (Leia o Texto complementar)
 Atenção! Procure identificar nessa imensa coleção de metáforas conhecida como “alegoria da caverna” 
estes elementos da filosofia platônica: a oposição entre o mundo sensível o inteligível, entre o corpo 
e a alma, entre a razão e as paixões cegas, entre a opinião (doxa) e o conhecimento (epistéme). 
Procure entender os motivos por que, segundo Platão, a experiência imediata é entendida como um 
obstáculo ao conhecimento (aquilo que chamamos de “obstáculo epistemológico”).
Alegoria da caverna – Vídeo
http://www.youtube.com/watch?v=69F7GhASOdM
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ou consulte o Quadro Horários de Atendimento presencial ao aluno, disponível no Mural da Lara 
para saber os dias e horários do plantão do Orientador no laboratório de Informática da sua unidade 
UNISUAM.
Dúvidas
http://www.youtube.com/watch?v=UQfRdl3GTw4&feature=related
ATENÇÃO ! Antes de assistir ao vídeo, leia o texto complementar sobre a Alegoria da Caverna.
Obs: Embora o vídeo esteja em inglês, o narrador segue, na integra, o texto complementar apresentado 
no link anterior.
Indo Além
Referências
CHÂTELET, François. Uma história da razão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
CORNFORD, F. M. Antes e Depois de Sócrates. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
PLATÃO. A República, 9ª edição. Introdução, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: 
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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Texto complementar
A Alegoria da Caverna 
Livro VII de A República, de Platão
– Imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a 
seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma 
de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento 
dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal 
maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes 
de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se 
queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros 
há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no gênero 
dos tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem 
as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo desse muro homens que transportam toda espécie de objetos, 
que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda 
a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem 
calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles 
tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo 
na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
– Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles 
julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos tran-
seuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz 
da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei –, pessoas nessas condições não pensavam que a realidade 
fosse senão a sombra dos objetos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
– Considera, pois – continuei –, o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e 
curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam 
deste modo. Logo que alguém soltasse um deles e o forçasse a endireitar-se de repente, 
a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso sentiria dor, e o 
deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas 
tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo 
que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais 
reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem 
com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia 
que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e 
voltar-se-ia para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar e julgaria 
ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o 
deixassem fugir antes de o arrastarem até a luz do Sol, não seria natural que ele se doesse 
e agastasse por ser assim arrastado e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, 
nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros