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objetos?
– Não poderia, de fato, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro 
lugar, olharia mais facilmente para as sombras; depois disso, para as imagens dos 
homens e dos outros objetos refletidas na água e, por último, para os próprios objetos. 
A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu e o próprio céu, durante 
a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol 
e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua 
imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos 
e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles 
viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação e do saber que lá possuía, 
dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a 
mudança e deploraria os outros?
A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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– Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prêmios para o que distin-
guisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os que 
costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, 
e aquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te 
que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles ou que 
experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir 
junto de um homem pobre, como servo da gleba” , e antes sofrer tudo do que regressar 
àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu –, que ele sofreria tudo de preferência a viver 
daquela maneira.
– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu. Se um homem nessas condições descesse de 
novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas ao regressar subitamente 
da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham 
estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar 
a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não 
diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista e que não valia a 
pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem 
agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.
– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto 
dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna 
da prisão e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo 
superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao 
mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O 
Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se 
avista a custo a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos 
a causa de quanto há de justo e belo; que no mundo visível foi ela que criou a luz, da 
qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, 
e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública (Platão, 2001, p. 
315-319).
Anexo - Atividades Estudos Socio-Antropológicos
Bloco de notas
e anotações
Este espaço é para você anotar suas observações com relação a disciplina estudada.
Importante:
Leia todas as orientações passo a passo no “Tutorial do Aluno” de como realizar suas 
Atividades.
A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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Aula 3 - A valorização dos sentidos e do 
estudo da natureza
Continuando...
Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) foi discípulo de Platão (nasceu em Estagira, na Macedônia, 
e chegou à cidade de Atenas aos dezoito anos, ingressando na Academia e só a deixando 
com a morte do mestre, em 347 a.C.), mas suas ideias, em sua maturidade, ganham 
contornos bastante próprios. É por esta razão que, em uma primeira apresentação do 
pensamento do criador do Liceu (fundado em solo ateniense em 335 a.C.), costuma-se 
lembrar-lhe a seguinte afirmação: “Sou amigo de Platão, porém ainda mais amigo da 
Verdade”. A noção de alma e sua relação com o corpo, a importância do mundo empírico 
para o filósofo (recusado à investigação pela tradição místico-matemática iniciada por 
Pitágoras e retomada por Platão), a confiança na disposição da natureza humana para 
o conhecimento, em tudo isto Aristóteles se mostrará bastante inovador.
Sou amigo de Platão, porém ainda mais amigo da Verdade - Esta afirmação, apesar de inúmeras 
vezes repetidas, não se encontra no corpo de sua obra. Mas uma afirmação bem próxima pode ser 
encontrada na Ética a Nicômaco.
Saiba mais
Neste tópico, mostraremos um pouco do quanto o pensamento de 
Aristóteles se distancia do pensamento de seu antigo mestre.
Podemos começar?
Comecemos então pela noção de alma. Para Platão, alma e corpo 
travavam uma espécie de guerra civil. Eram entidades distintas. O 
corpo era aquilo de que a alma precisaria se separar. Não será assim 
para um filósofo apaixonado pelo mundo natural como Aristóteles. 
Ele redefiniu em seus próprios termos naturalistas a psyché. A alma, 
aqui, deixa de ser a exilada num mundo que lhe é hostil a seu destino 
de contemplação da Verdade; ela agora se identifica com o próprio 
funcionamento do vivo. Tudo quanto é vivo realiza a busca de um 
fim, de um objetivo (télos). Plantas crescem, animais movem-se e 
reproduzem-se; a alma é a atividade do corpo na realização desse fim. 
O corpo de um ser vivo é organizado por conta exatamente da ação 
diretora da alma. Como essa alma está a formar um corpo, a ordená-lo 
organicamente, Aristóteles diz que a alma é que responde pela forma 
do corpo. De forma mais simples e lapidar, ele escreveu, lembrando 
essa função estruturante da psyché: “A alma é a forma do corpo”.
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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
As comparações feitas pelo próprio Aristóteles em seu Tratado 
da Alma permitem que vejamos essa alma como mortal, pois 
ali se diz dela que está para o corpo assim como a visão para o 
olho, o que significa dizer que, sem o suporte material, a alma 
passa a inexistir. O sinete, para explorar outra comparação de 
Aristóteles na referida obra, para que possa ser reconhecido, 
precisa forçosamente da cera onde se imprime. Como poderia, 
então, uma forma qualquer se imprimir sem haver um corpo? 
Contudo, a questão não é tão simples: no mesmo Tratado, 
Aristóteles informou de uma parte da alma “não misturada” ao 
corpo. É por onde a imortalidade da alma humana se infiltra 
nesse complexo sistema de pensamento – não sem nos deixar 
aturdidos, tentando conciliar o Aristóteles naturalista com 
esse outro que vê numa porção racional da alma humana, o 
intelecto agente, um destino diverso daquele experimentado 
pelas formas organizadoras de todos os outros seres vivos. 
Tentar entender o modo com que a sobrevivência dessa alma 
pôde ser aí imaginada abrange uma discussão que se desdobra 
por muito tempo na filosofia e não com poucas implicações. Por 
ora, concentremo-nos na imagem do mundo aristotélico – em 
particular dos seres animados.
Cada espécie, ocupando um lugar fixo numa verdadeira escada 
dos seres (imagem que influenciou vivamente o pensamento 
biológico posterior, mas que hoje não faz qualquer sentido), 
procura atingir seu princípio de perfeição. Move-se, portanto. Esforça-se na consecução 
desse fim. Todas as espécies encontram-se assim dispostas, de tal modo