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que parecem 
se elevar, mas nunca passando de um degrau para o outro, até o mais organizado dos 
seres, um em que não há mais por que se mover em busca de um fim, pois ele já é puro 
Noüs. Esse ser é Deus, responsável por todo o universo estar se movendo em sua direção, 
embora permaneça imóvel, uma vez que nele já se encontra realizada a própria perfeição. 
O modelo de um mundo de seres hierarquizados e explicados em termos de causas finais 
é hoje insustentável. O darwinismo, no século XIX, destruiu por completo essa visão 
finalista do mundo. A biologia imaginada por Aristóteles pode certamente ser tomada 
como admirável, mas seus princípios são indefensáveis. A teoria da evolução vigente 
hoje é ostensivamente não-teleológica – a ciência como um todo abre mão desse tipo de 
explicação finalista, progressivamente, desde a tradução mecânica do mundo operada 
pela Revolução Científica. 
De qualquer forma, Aristóteles incluiu na agenda filosófica uma preocupação com o 
mundo natural. Passar dias na descrição de um molusco não é tarefa vã, pois para o 
estudioso atento a Natureza permite ver o fim para que concorrem aquelas estruturas 
todas. Debruçar-se sobre o mundo natural é perceber o esquema de ordenação de um 
universo. Estudar a natureza volta a ter uma nobreza que a tradição místico-racionalista 
a que pertenciam Platão e Pitágoras recusara. 
A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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O caráter mais linear e cumulativo da aquisição do conhecimento 
em Aristóteles
Recordemo-nos de que, conforme Platão, o verdadeiro conhecimento se opõe àquilo 
que nos informam os sentidos. Conforme a imaginação platônica, é somente quando 
devidamente eximidos da miopia e da miséria da visão sensível que poderemos, através do 
“Olho da Alma” – metáfora cara tanto ao texto do Banquete quanto à famosa alegoria da 
caverna, no Livro VII de A República –, nos mostrar capazes de capturar, num exercício 
de pura contemplação, as Formas perfeitas e imóveis do Bom, do Belo e do Justo.
Recordemo-nos de que, conforme Platão, o verdadeiro conhecimento se opõe àquilo 
que nos informam os sentidos. Conforme a imaginação platônica, é somente quando 
devidamente eximidos da miopia e da miséria da visão sensível que poderemos, através do 
“Olho da Alma” – metáfora cara tanto ao texto do Banquete quanto à famosa alegoria da 
caverna, no Livro VII de A República –, nos mostrar capazes de capturar, num exercício 
de pura contemplação, as Formas perfeitas e imóveis do Bom, do Belo e do Justo.
É bem verdade que Platão, em certos textos particularmente, exalta o sentido da visão. 
Contudo, à ideia da visão como “verdadeira dádiva dos deuses”, a este grande elogio 
expresso no Timeu pode-se contrapor facilmente inúmeras outras passagens que atestam 
a descrença de Platão quanto ao valor da visão corpórea. De pronto basta, por exemplo, 
lembrar, na anteriormente referida alegoria da caverna, do mundo de completo engano 
em que estão envolvidos os prisioneiros, os quais confiam plenamente na informação 
primeira dos sentidos. Pode-se recordar, ainda e exatamente com o mesmo objetivo, 
sua não menos desconhecida hostilidade às artes miméticas, especialmente à pintura. 
Não nos equivoquemos, portanto: o conhecimento em Platão faz-se sempre contra o 
obstáculo dos sentidos – incluindo-se aí, também, o sentido da visão. Como Cornford 
escreve, não é com os olhos que a alma vê; enquanto o faz através deles, aquela sempre 
verá mal: “Os olhos e os ouvidos não são, para o platônico, as janelas da alma abrindo-
se para a realidade. A alma vê melhor quando essas janelas estão fechadas e mantêm 
uma silenciosa conversação consigo mesma na cidadela do pensamento” (2001, p. 76).
sempre contra o obstáculo dos sentidos
Assim Platão se expressa no Fédon: “E o que dizer quanto a adquirir a 
sabedoria: é ou não o corpo um obstáculo quando aceitamos associá-lo 
nessa procura? Mais concretamente: há alguma dose de verdade naquilo 
que os homens aprendem, por exemplo, pela vista e pelo ouvido ou (como 
até os poetas por aí repetem à saciedade...) nada do que vemos e ouvimos 
é seguro?”. Seja ainda sublinhado que, se Platão já mostra para com 
esses sentidos uma atitude de desconfiança, para com os demais, tidos 
como menos nobres, tal disposição em muito mais se acirrará. Acerca, 
pois, de sua avaliação sobre a confiabilidade desses outros sentidos, 
prossegue, dizendo, no mesmo passo da obra citada, àquele discípulo 
Símias: “E refiro-me apenas aos sentidos da vista e do ouvido, porque, 
se estes não são seguros e exatos, os outros muito menos o são, dado 
serem, suponho, ainda mais falíveis” (Cf. Platão, 2000, p. 41).
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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
Mas é você quem deverá observar esse caráter mais contínuo e suave do conhecimento, em Aristóteles, 
desde as sensações até a ciência. Você se recorda do quão dolorosa foi para o prisioneiro da alegoria 
da caverna, de Platão, a superação de sua consciência confinada nas primeiras impressões? O quanto 
lhe foi custoso o conhecimento?
 Leia o texto a seguir (ele é o primeiro capítulo do Livro I da Metafísica, de Aristóteles) e observe 
que o homem, para este filósofo, já parece estar aparelhado para o conhecimento. Observe que o 
prazer dos sentidos é a evidência, para Aristóteles, desse desejo natural de conhecer. Sim, aqui os 
sentidos não se opõem ao conhecimento, mas iniciam o seu processo de obtenção. Trata-se de uma 
posição que é chamada de empirismo. Será o empirismo uma boa resposta acerca de como o nosso 
conhecimento se constrói? 
A Metafísica de Aristóteles (Leia o Texto complementar)
Indo além
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Dúvidas
Contraste-se tal atitude de Platão com a seguinte passagem do texto de Aristóteles 
selecionado para a leitura adiante: “Não apenas com vistas à ação, mas mesmo quando 
não se pretende ação alguma, preferimos a visão, em geral, a todos os outros sentidos. A 
razão disso é que a visão é, de todos eles, o que mais nos ajuda a conhecer coisas, reve-
lando muitas diferenças”. Parece então que o processo de conhecimento, na imaginação 
aristotélica, se faz de forma bem menos descontínua para com a experiência sensorial 
do que se fazia no esquema platônico. 
A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia
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Texto complementar
Primeiro capítulo do Livro I da Metafísica, de Aristóteles
Por natureza, todos os homens desejam o conhecimento. Uma indicação disso é o valor 
que damos aos sentidos; pois além de sua utilidade são valorizados por si mesmos e, 
acima de tudo, o da visão. Não apenas com vistas à ação, mas mesmo quando não se 
pretende ação alguma preferimos a visão, em geral, a todos os outros sentidos. A razão 
disso é que a visão é, de todos eles, o que mais nos ajuda a conhecer coisas, revelando 
muitas diferenças.
Ora, os animais nascem por natureza com o poder da sensação, daí adquirindo alguns 
a faculdade da memória, enquanto outros não. Por conseguinte, os primeiros são mais 
inteligentes e capazes de aprender do que aqueles que não podem se lembrar. Aqueles 
que não ouvem sons (como a abelha ou qualquer criatura semelhante) são inteligentes, 
mas não conseguem aprender; só são capazes de aprender os que possuem esse sentido, 
além da faculdade da memória.
Assim, os outros animais vivem de impressões e memórias e só têm pequena parcela 
de experiências; mas a raça humana vive também de arte (techne) e raciocínio. É pela 
memória que os homens adquirem experiência, porque as inúmeras lembranças da 
mesma coisa produzem finalmente o efeito de uma experiência única. A experiência parece