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Carl Gustav Jung Interpretação psicológica do dogma da Trindade

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da Trindade, que o homem de hoje o foi perdendo de vista pouco a pouco, sem perceber. O que esta perda significa pode ser visto claramente nos casos em que se coloca o problema de reconstituição, isto é, nos casos em que uma dissociação separa a parte psíquica consciente da parte inconsciente. Ou melhor, esta cisão só deixará de existir quando a consciência conseguir formular conceitos que exprimam adequadamente os conteúdos do inconsciente. É como se a Trindade fosse incomensurável com o quarto elemento de uma destas concepções. Como parte da história da salvação, ela deveria produzir efeito salvífico e totalizante. Na integração de conteúdos inconscientes na consciência a redução dos símbolos oníricos e realidades banais tem uma importância de primeira ordem. Este modo de proceder, porém, é insuficiente no sentido mais profundo do termo, e num prazo mais dilatado não considera suficientemente a importância dos conteúdos arquetípicos. Tais conteúdos alcançam profundidades que o common sense [senso comum] jamais suspeitaria. Como condições genéricas a priori do comportamento da alma, eles reclamam uma dignidade que sempre se exprimiu em figuras divinas. Somente uma formulação deste tipo atende suficientemente às exigências do espírito inconsciente. O inconsciente é a história não escrita do homem, a partir de épocas imemoriais. A fórmula racional pode satisfazer aos tempos de hoje e ao passado imediato, mas não à experiência humana como um todo. Esta experiência supõe a concepção abrangente do mito, isto é, o símbolo. Faltando este, a totalidade do homem não se acha representada na consciência. O homem se situa mais ou menos como um fragmento acidental, como uma consciência parcial e sugestionável, entregue a todas as fantasias utópicas que usurpam o lugar vazio dos símbolos da totalidade. O símbolo não pode ser um x qualquer, como o Racionalismo pretende. Só é legítimo o símbolo que exprime as relações estruturais do inconsciente e que portanto pode alcançar um consenso geral. Enquanto gera espontaneamente o fenômeno da fé, não necessita de qualquer outra compreensão. Entretanto, quando a fé começa a falhar, por faltar-lhe a compreensão, é preciso recorrer, queiramos ou não, ao instrumental da inteligência, se quisermos evitar um risco de conseqüências imprevisíveis. Mas - podemos então perguntar - o que ocupará o lugar do símbolo? Será que alguém conhece uma expressão melhor para uma coisa que ainda não foi totalmente entendida em nosso sentido moderno?
281	Os símbolos da tríade, da Trindade e da quaternidade aparecem com bastante freqüência nos sonhos, como mostrei em minha exposição Psychologie und Alchemie, bem como na obra acima citada, onde aprendi que a noção da Trindade se baseia em dados empíricos, e que afinal de contas significa algo. Não pude chegar a essa conclusão a partir da forma tradicional mediante a qual a Trindade nos é apresentada. Se consegui alcançar uma idéia inteligível da Trindade, fundamentada em dados concretos da experiência, é porque tive a ajuda dos sonhos, do folclore e dos mitos, nos quais estes temas numéricos ocorrem. Nos sonhos, em geral, eles aparecem espontaneamente, como se pode ver até mesmo em seu aspecto exterior e banal. A maioria deles não contém nada de mítico ou de fabuloso, e muito menos de religioso. Em geral, o que se vê são três homens e uma mulher sentados a uma mesa, ou viajando num carro ou três homens e um cachorro, um caçador e três cachorros, três galinhas num galinheiro, exemplos em que o quarto elemento desapareceu. Tais fatos são tão banais, que é fácil não dar por eles. Inicialmente parece que eles não têm nada de especial a dizer, a não ser que se referem a funções e aspectos da personalidade, como é fácil constatar, quando se trata de três ou quatro pessoas conhecidas e bem caracterizadas, ou das quatro cores fundamentais: o vermelho, o azul, o verde e o amarelo. Estas cores aparecem associadas com bastante regularidade às quatro funções de orientação psíquica. Só a constatação de que com o quarto elemento se alude à totalidade permite ver que estes temas oníricos, aparentemente banais, são, por assim dizer, imagens crepusculares de acontecimentos significativos. A quarta figura, em geral, é muito elucidativa: é incompatível, apavorante ou incomum, diferente das outras, tanto no bom como no mau sentido, como, p. ex., no caso do Pequeno Polegar ao lado dos três irmãos normais. Evidentemente também pode acontecer o inverso: os três primeiros podem ter um aspecto estranho e um parecer normal. Quem possui algum conhecimento de Matemática sabe que a distância, aparentemente grande, entre a Trindade e tais fatos incomuns não é de forma alguma intransponível. Mas com isto não queremos dizer que a Trindade possa ser reduzida ao nível de tais ocorrências. Pelo contrário, ela representa a forma mais completa do respectivo arquétipo. O material empírico estudado indica somente de que modo este arquétipo atua até mesmo nas mínimas particularidades da psique. É justamente isso que atesta sua importância: inicialmente parece apenas um esquema ordenador e um critério para se discernir a natureza de uma determinada estrutura psíquica, e depois se mostra como veiculo de síntese, na qual culmina o processo da individuação. A individuação aparece simbolizada pela adição do quarto componente, donde se conclui que a quaternidade é um símbolo do Si-mesmo, que sua importância é central, ocupando o lugar da divindade na Filosofia da Índia. Numerosas quaternidades se desenvolveram na concepção ocidental ao longo da Idade Média: basta mencionar, p. ex., a representação do Rex gloriae, juntamente com os símbolos dos quatro Evangelistas (três teriomórficos e um humano). No Gnosticismo encontramos a forma divina do Barbelo ("Deus é quatro"). Este, como outros exemplos, colocam o quatro em estreita ligação com a divindade (desdobrada), e daí resulta aquela impossibilidade, antes mencionada, de distinguir o Si-mesmo de uma imagem divina. Em todo caso, achei possível encontrar algum critério de diferenciação. Só a fé ou um veredicto filosófico podem decidir acerca disso, mas mesmo assim nem a primeira nem o segundo têm algo a ver com uma ciência empírica.
282	Podemos agora interpretar o aspecto da imagem divina da quaternidade como um reflexo do Si-mesmo ou, inversamente, o Si-mesmo como uma imago Dei. Ambas as interpretações são psicologicamente verdadeiras, pois o Si-mesmo, pelo fato de só poder ser percebido no plano subjetivo como a singularidade mais íntima e extrema possível, precisa de uma totalidade como fundo, sem a qual não poderá, de forma alguma, realizar-se como indivíduo absoluto. Para sermos mais exatos: o Si-mesmo deveria ser concebido com o extremo oposto de Deus. Entretanto, seria preciso dizer com Angelus Silesius: "Ele não pode ser sem mim, nem eu posso ser sem Ele". Isto significa que embora o símbolo exija duas interpretações diametralmente opostas, tanto uma, como outra, podem ser válidas. O símbolo significa tanto uma coisa como. a outra, e por isso é um paradoxo. Este não é o momento de mostrarmos detalhadamente qual o papel que estes símbolos numéricos desempenham na prática. Por esta razão devo. remeter o meu leitor ao material onírico estudado em Psychologie und Alchemie, parte 1.
283	Dada a particular importância de que se reveste a simbólica da quaternidade, pode-se indagar por que motivo o Cristianismo, uma das formas religiosas mais diferenciadas, se baseia justamente na tríade arcaica, construindo a imagem divina de sua Trindade.42 Pela mesma razão deve-se colocar a questão (e ela foi colocada) de saber com que direito se considera o Cristo como símbolo do Si-mesmo, quando se sabe que o Si-mesmo, per definitionem, consiste numa complexio oppositorum, faltando por completo o lado obscuro à figura de Cristo. (Ele é dogmaticamente sine macula peccati [sem mancha de pecado]).
284	Ambas as questões tocam de perto o mesmo problema. Procuro a resposta para tais perguntas sempre no âmbito da experiência, razão pela qual devo aduzir