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Agenda 21 - acoes2edicao

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papéis do Tesouro Nacional, ou pela elevação da taxa básica de juros ou pela opção por títulos corrigidos pela variação cambial. Por isso, colocar todo o peso da implementação das políticas de desenvolvimento sustentável sobre despesas adicionais de custeio e de investimento pode ser uma decisão equivocada e carregada de riscos e incertezas, uma vez que elas implicam em fontes fiscais de financiamento não disponíveis, por causa dos indispensáveis ajustes estruturais do setor público. 
As propostas possíveis: reinvenção de novos instrumentos 
Existem inúmeros mecanismos institucionais e instrumentos que podem contribuir para o processo de implementação da Agenda 21 Brasileira. Alguns mais tradicionais, outros mais inovadores; muitos da alçada do setor público, alguns controlados por decisões da iniciativa privada; há, também, uma diversidade desses mecanismos e instrumentos quanto ao seu grau de descentralização administrativa, participação comunitária e de regionalização. 
A Figura 1 apresenta objetivos e alternativas de intervenção governamental nas políticas de desenvolvimento sustentável, sem ter a pretensão de esgotar todos os mecanismos institucionais e instrumentos que podem ser mobilizados para a implementação da Agenda 21 Brasileira. 
Antes de apresentar alguns desses mecanismos e instrumentos, é preciso lembrar que há um elenco de dificuldades político-administrativas quando se busca operacionalizar o conceito de desenvolvimento sustentável na gestão do cotidiano das políticas públicas. 
Na Agenda 21 Brasileira, o que se busca é um mínimo de integração dentro de um processo de desenvolvimento, entre transformações produtivas, eqüidade social e proteção ambiental, numa perspectiva de sustentabilidade ampliada e progressiva. E essa integração tem que acontecer dentro de um aparelho burocrático que, no Brasil, se encontra em fase de reconstrução após uma seqüência de reformas administrativas malsucedidas ao longo dos últimos anos. 
Usualmente, a implementação de políticas de desenvolvimento sustentável envolve problemas de coordenação entre diferentes setores dos três níveis de governo, equipes técnicas interdisciplinares, agências públicas, o empresariado e organizações não-governamentais na formação de parcerias. Esse processo de coordenação resulta em inúmeros obstáculos técnicos, principalmente, nas organizações responsáveis por uma perspectiva integrada dessa política no país. As instituições tendem a desenvolver seu território próprio de decisão, fechando-se em torno de missões e temas programáticos, específicos e, ao mesmo tempo, protegendo-se de interferências das atividades de coordenação externa.
As ações da Agenda 21 Brasileira são de natureza programática em busca de resultados práticos, envolvendo a mediação de conflitos, a eliminação de setorialismos injustificáveis, a promoção de consensos e a busca do dinamismo efetivo em lugar das divisões formais, para fazer acontecer os objetivos e as metas estruturantes de um processo de desenvolvimento sustentável. 
Os problemas de insucesso na implementação do desenvolvimento sustentável não se encontram, muitas vezes, na ausência de bases conceituais ou de estruturas organizacionais para a sua efetividade, nem mesmo na ausência de mecanismos institucionais e instrumentos (ver Box 1). 
Os problemas de insucessos podem estar ou nas dificuldades político-institucionais para a sua implementação, ou na necessidade de reinvenção de instrumentos mais adequados para tratar das complexas questões de sustentabilidade multifacetada. No caso específico das políticas ambientais, por exemplo, uma questão fundamental se coloca em termos da incorporação de novos instrumentos e mecanismos econômicos como elementos complementares às decisões tomadas dentro do estilo de comando e controle. 
Ao longo das últimas décadas, os três níveis de governo no Brasil têm utilizado crescentemente estruturas e mecanismos de regulamentação (leis, decretos, portarias) para implementar as mais diferentes políticas públicas. Em uma primeira etapa elas se concentravam nas áreas das políticas sociais (saúde, segurança no trabalho, defesa do consumidor, educação). Mais recentemente, com o avanço do processo de privatização dos setores de infra-estrutura econômica, foram criadas agências regulatórias para telecomunicação, energia e petróleo. 
Há uma tendência em diversos países no sentido de que, quanto mais intensos os processos de privatizações e de concessões de serviços públicos, maior necessidade de se criar e executar mecanismos de regulamentação. Em muitas situações, o Brasil ainda está em fase de aprendizado histórico para lidar com esses mecanismos institucionais. Cite-se, por exemplo, o caso das agências regulatórias, criadas após as privatizações abrangentes ou parciais dos setores de infra-estrutura econômica e de energia (Anatel, Aneel, ANP, ANA), que possuem o controle social externo ainda limitado. 
É evidente que não se pode subestimar o conjunto das estruturas regulatórias do país, que serve de base institucional para a concepção e a execução das políticas de desenvolvimento sustentável, inclusive as que venham a utilizar mais amplamente os mecanismos baseados em mercado. Dada a inequívoca importância das estruturas e dos mecanismos regulatórios para o processo de implementação das políticas de desenvolvimento sustentável, é fundamental que sejam aperfeiçoados tecnicamente e fortalecidos politicamente.
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FIGURA 1
Objetivos e Alternativas de Intervenção Governamental nas Políticas de Desenvolvimento Sustentável
Fonte: F. Rezende, Finanças Públicas, Ed. Atlas (adaptação).
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BOX 1 
CONSELHOS DO MEIO AMBIENTE: A PARTICIPAÇÃO INSTITUCIONALIZADA
O Brasil, quando comparado com outros países da América Latina, dispõe de uma larga experiência de sucessos para promover políticas de desenvolvimento econômico e social, assim como de um Sistema Nacional do Meio Ambiente dos mais bem estruturados e operantes com ramificações nos três níveis de governo, com órgãos consultivos, deliberativos, e executores, e tendo como suporte uma legislação contra os crimes ambientais cada vez mais rigorosa e específica. 
Uma das principais características que tem destacado a política nacional do meio ambiente no Brasil é a participação ativa dos segmentos organizados da sociedade civil e dos conselhos consultivos nos três níveis de governo.Essa participação tem sido institucionalizada desde os anos de 1980 e sua eficácia tem dependido, de um lado, do efetivo comprometimento político do Poder Executivo com esse mecanismo democrático de tomada de decisões, e, de outro, da intensidade de mobilização que ocorre no âmbito da sociedade civil para potencializar a possibilidade de estar presente na condução das decisões de desenvolvimento sustentável em nível federal, estadual ou local. Usualmente, a representação social se dá por meio de movimentos sociais e organizações não-governamentais que compõem o que se denomina terceiro setor no país. 
No Governo Federal, o Conselho Nacional do Meio Ambiente _ Conama, órgão consultivo e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente, tem a finalidade de assessorar, estudar e propor diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e, no âmbito de sua competência, deliberar sobre normas e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado. Incluem-se, entre as competências do Conama: 
I. estabelecer, mediante proposta do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente _ Ibama, normas e critérios para licenciamento de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras; 
II. determinar, quando julgar necessário, a realização de estudos das alternativas e das possíveis conseqüências ambientais de projetos públicos ou privados, requisitando aos órgãos federais, estaduais e municipais, bem como às entidade privadas, as informações indispensáveis para apreciação dos estudos de impacto ambiental, e respectivos relatórios, no caso de obras