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Agenda 21 - acoes2edicao

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operacional para o processo de desenvolvimento sustentável, segundo o qual este envolve a maximização dos benefícios líquidos do desenvolvimento econômico, sujeito à manutenção dos serviços e da qualidade dos recursos naturais ao longo do tempo. Esta manutenção implica, desde que seja possível, a aceitação das seguintes regras: a) utilizar os recursos renováveis a taxas menores ou iguais à taxa natural que podem regenerar; b) otimizar a eficiência com que recursos não-renováveis são usados, sujeito ao grau de substituição entre recursos e progresso tecnológico; c) manter sempre os fluxos de resíduos no meio ambiente no nível igual ou abaixo de sua capacidade assimilativa. 
Regionalismos e escassez de recursos naturais 
A consulta nacional da Agenda 21 Brasileira em suas diferentes etapas traz sugestões e estratégias de desenvolvimento sustentável que, por si só, dão a dimensão da gravidade da questão ambiental em termos da destruição e da degradação do capital natural em diversas localidades e microrregiões do país. É curioso observar, contudo, que a escassez crescente de alguns recursos naturais (água, madeira, biodiversidade) ainda não têm se manifestado de maneira expressiva por seus preços de mercado nas áreas mais desenvolvidas do país, o que tem reduzido os impactos e estímulos indispensáveis para a sua conservação, recuperação ou preservação por parte dos agentes econômicos (produtores e consumidores) situados nestas áreas. 
Uma explicação plausível para esta situação está relacionada às possibilidades de que as regiões Sul e Sudeste possam se abastecer, a baixo custo, de recursos ambientais de outras regiões, regularizando a sua oferta por meio de importações inter-regionais, toda vez que ocorrer expansão da demanda local. Em 1995 as importações de bens e serviços do Sudeste, originárias das demais regiões brasileiras, chegaram a 8,2% do seu PIB, sendo que na pauta destas importações há o predomínio de produtos naturais: produtos alimentares (29,5%), agropecuária (23,0%), vestuário e calçados (4,0%), madeira e mobiliário (3,8%). 
Como tende a crescer significativamente este processo de postergar políticas ambientais que possam impor o uso racional dos recursos naturais nas áreas mais desenvolvidas - as que mais avançaram na destruição de seus recursos naturais renováveis e não-renováveis -, e tendo em vista a possibilidade de importações inter-regionais de produtos com alta intensidade destes recursos, já estão identificados sentimentos regionalistas nas áreas exportadoras (particularmente no Norte e no Centro-Oeste), sendo este um dos desafios da Agenda 21 Brasileira, qual seja, a construção de uma economia de solidariedade regional. 
O país precisa utilizar sua capacidade político-administrativa para coordenar a execução de políticas públicas de médio e de longo prazos, para promover ações compensatórias do ponto de vista da eqüidade social, e compensações ambientais para atenuar os desequilíbrios regionais de bem-estar das populações, assim como ações de crescimento, para mobilizar as potencialidades de expansão econômica das áreas periféricas. 
As estratégias de desenvolvimento sustentável da Agenda 21 Brasileira estão atentas a possíveis movimentos regionalistas por força de tensões sociais e políticas provocadas, fundamentalmente, pela difusão desigual da dinâmica do crescimento econômico no espaço nacional. Esses movimentos regionalistas podem se manifestar em diferentes situações, quando ocorre: uma perversa transferência inter-regional de excedentes produtivos; uma persistente deterioração nos termos de intercâmbio inter-regional; relações de dependência entre regiões. 
Nesse último caso, as instituições públicas e as privadas das áreas mais desenvolvidas de um país pretendem, pela manipulação de sua força de decisão pelo poder político central, definir a forma, a intensidade e a cronologia do uso dos recursos naturais e dos recursos energéticos das áreas menos desenvolvidas, particularmente daquelas localizadas na fronteira externa da economia nacional, desconhecendo os interesses dos grupos sociais locais quanto ao seu próprio desenvolvimento. 
Um país com dimensões geográficas e heterogeneidade sociocultural tem, como um dos principais objetivos de desenvolvimento, a preservação da sua unidade nacional. Assim, a Agenda 21 Brasileira contém estratégias político-institucionais para o controle dos conflitos regionais, para promoção do desenvolvimento sustentável das áreas periféricas do país e, particularmente, para a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, por meio de ações programadas, deixando de considerar estas regiões tão-somente como "grandes almoxarifados de recursos naturais e recursos energéticos" à disposição dos eixos mais desenvolvidos. 
Nesse sentido, torna-se indispensável, também, promover a reestruturação produtiva das localidades e microrregiões onde o processo de crescimento econômico vem promovendo uma ampla devastação da sua base de recursos naturais, assim como da base de recursos naturais das demais áreas onde se abastecem direta ou indiretamente destes recursos. 
Políticas de curto prazo versus políticas de desenvolvimento 
A concepção e a implementação de políticas de desenvolvimento sustentável no Brasil colocam em questão os problemas de articulação dos objetivos das políticas econômicas de curto prazo, com as políticas de desenvolvimento de médio e de longo prazos. Esta questão inclui, de um lado, a consolidação do ajuste fiscal e financeiro, e, de outro, a superação do atual quadro de desigualdades sociais e regionais, por meio de políticas públicas que promovam o crescimento econômico, com eqüidade e sustentabilidade ambiental. 
Políticas econômicas de curto prazo, que lidam com problemas de inflação, de flutuações nos níveis de emprego ou de geração de renda, têm de ser operadas dentro das restrições impostas por um tempo histórico e irreversível. 
É indispensável tomar estas restrições e condicionalidades como ponto de partida. Se, nos momentos tumultuados do presente, quisermos resolver graves questões econômicas com orientações estratégicas, que somente são eficazes no longo prazo, as políticas econômicas podem fracassar. Por outro lado, uma sociedade em regime de inflação crônica e de inconsistências macroeconômicas, inclina-se a considerar as políticas de médio e longo prazos como supérfluas e residuais. Pressupõe-se que os problemas de curto prazo (inflação, déficits públicos) sejam tão críticos e dominantes que não haveria condições para que esta sociedade se programasse para tratar das questões de médio e longo prazos que são a erradicação da pobreza absoluta, a atenuação dos desequilíbrios regionais e o êxodo rural, antes de se consolidar a estabilidade econômica. Vale dizer, numa sociedade em regime de rigoroso ajuste fiscal e financeiro, as soluções dos problemas de estrutura ficariam cronologicamente condicionados pelas soluções dos problemas de conjuntura (os de curto prazo). 
Assim, é de se esperar que, num processo de reforma e de modernização do Estado brasileiro, este venha a desempenhar um papel mais amplo do que apenas coordenar e manter a consistência do equilíbrio macroeconômico, além de garantir a oferta de bens e serviços públicos tradicionais, como sinaliza a tendência neoliberal. 
Há uma expectativa de que o Estado possa coordenar, também, instrumentos de políticas públicas para promover ações compensatórias do ponto de vista da eqüidade social, para atenuar os desequilíbrios regionais de bem-estar das populações, e ações de crescimento, para mobilizar as potencialidades de expansão econômica das áreas menos desenvolvidas ou estagnadas. 
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6 - Do Rio a Joanesburgo: os avanços da última década no Brasil 
A conclusão do processo de elaboração da Agenda 21 Brasileira não significa que se está partindo de um ponto zero em termos de desenvolvimento sustentável. Na verdade, desde a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, no Rio