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Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

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do Conselho e mais acórdãos da mesa de Vereação contra o que não poderá valer-
se de privilégio algum e nesta forma lhe concedemos licença para que nesta cidade 
e seu termo possa usar do dito ofício sem que lhe seja posto impedimento algum. 
Pedimos aos senhores julgadores assim a façam cumprir e guardar como nela se 
contém em suas jurisdições para o que nós também faremos o que por parte de 
Vossa Mercê nos for requerido e deprecado. Bahia e Câmara de fevereiro vinte e 
três de setecentos e trinta e dois João de Couros Carneiro ao subscrevi/Manuel 
Correia de Mesquita Basto/Custódio Rodrigues Lima/Marcelino Soares Ferreira/
Manoel Xavier Ala/Antônio da Costa de Andrade/Selo. Lima.”58
~52~
M o b i l i á r i o b a i a n o
Dos naturais da terra e dos portugueses que haviam iniciado sua atividade mecânica 
em Salvador, um número diminuto se submeteu aos exames. Constam poucos registros 
de suas examinações, entre os manuscritos da Câmara. Grande parte dos marceneiros 
pedia simplesmente sua licença, pagando fiança para ter tenda aberta ou loja para vender 
móveis ou trastes usados. Pelas licenças verifica-se que não eram raros os casos em que os 
marceneiros possuíam duas tendas, ou uma tenda e uma loja para vender móveis, embora 
isso fosse proibido. Verificou-se o mesmo em Minas Gerais, onde prevaleceu o uso de 
licenças, por exemplo, em Vila Rica59. Os sapateiros e alfaiates foram mais regulares no 
cumprimento das posturas que os obrigavam a ser examinados. 
As certidões apresentadas à Câmara e as licenças por ela fornecidas seguiam, com 
adaptações locais, o formulário daquelas expedidas na corte:
“Registro da Carta de exame do Ofício de Marceneiro passado a Vitorino 
Gomes Romão
O Doutor Juiz de Fora, Vereadores, e Procurador do Senado da Câmara desta Cidade 
da Bahia e seu termo etc. Fazemos saber aos que esta Carta de Exame virem, que 
por nos constar por Certidão do Juiz e Escrivão do Ofício de Marceneiros haverem 
examinado a Vitorino Gomes Romão, e o acharem apto para exercer o dito ofício, 
havemos por bem de conceder licença ao dito Vitorino Gomes Romão, para que 
possa usar do dito seu Ofício de Marceneiro, e ter sua tenda aberta nesta Cidade 
e seu termo / enquanto não mandarmos o contrário / e fará termo de não usar de 
privilégio algum e responder perante os Almotacés das Execuções deste Senado, 
guardando em tudo as ordens da Vereação e Posturas, em firmeza do que lhe 
mandamos passar a presente sob nossos sinais, e selo, e se registre. Bahia em 
Câmara 14 de fevereiro de 1795. José Rodrigues Silveira, escrivão do Senado a fez 
escrever. Vieira/Bitancourt/Andrade/Braga. Lugar do Selo. Bitancourt.”
A seguinte licença se apensava à Certidão de Exame:
José Gomes Romão e Antônio da Encarnação Juízes do Ofício de Marceneiro, e 
Torneiro nesta Cidade da Bahia e seu termo etc. Porquanto examinando a Vitorino 
Gomes Romão, oficial do dito ofício de marceneiro, o achamos com a suficiência 
necessária para usar dele com sua tenda aberta, assim de obra preta como da 
branca, lhe passamos sua Carta de Exame, que é a presente a qual rogamos ao 
Meritíssimo Senhor Doutor Juiz de Fora, Presidente do Senado da Câmara, e aos 
Senhores Vereadores, se dignem mandar lhe dar todo o vigor e cumprimento visto 
também constar haver o dito aprovado satisfeito a sua esmola ao glorioso patriarca 
o Senhor São José. Dada e assinada por nós sobreditos mestres do ofício na Bahia 
aos 10 de fevereiro de 1795. Eu, por falecimento do escrivão Gonçalo Araújo 
o mandei escrever e assinei José Gomes Romão / Antônio Encarnação Pessoa / 
Escreveu-se-lhe o termo de obrigação onde assinou o dito e o escrivão do Senado 
e prestou o juramento do estilo.60” 
~53~
M ã o d e o b r a : o s o f í c i o s m e c â n i c o s
A partir da segunda metade do século XVIII, passou a constar, nas certidões 
de exames dos marceneiros aprovados, terem os mesmos “satisfeito a sua esmola ao 
Glorioso Patriarca o Senhor São José”. Por essa época organizou-se a Confraria de São 
José, constituída pelos ofícios de carpinteiro, pedreiro e agregados à mesma bandeira – 
marceneiros, torneiros, canteiros e alvíneos. Tinham capela privativa do patrono na antiga 
Igreja da Sé, onde se realizavam as eleições dos juízes dos ofícios de carpinteiro e pedreiro 
e dos membros da mesa da confraria.
Encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino o Compromisso da Confraria de 
São José, ou seja, o “Compromisso e Regimento Econômico dos Ofícios de Carpinteiro e de 
Pedreiro e dos mais agregados a Bandeira do Glorioso São José e sua Confraria ereta na Sé 
Catedral da Cidade da Bahia dedicado ao mesmo glorioso Santo e feito na dita Cidade no 
ano de 1780”61 (figura 2). 
Os artífices, na maior parte dos ofícios, herdaram os regimentos lusos, em especial 
os de Lisboa, que foram adaptados aos novos locais, como o Brasil, principalmente por 
causa da presença dos índios e dos escravos. É interessante notar que esse Compromisso 
foi praticamente copiado do “Regimento e Compromisso da Mesa dos Ofícios de Pedreiros 
e Carpinteiros da Bandeira do Patriarca São José ano de 1709”, de Lisboa62. Diferenciava-se 
apenas em dois capítulos e acrescentamentos, destacados em negrito nos registros abaixo. 
O item 5, do Capítulo VIII, do regimento lisboeta, rezava:
“Não poderá Oficial algum ser admitido no referido exame sem mostrar primeiro 
Certidão do Mestre com quem aprendeu, de ter acabado o seu tempo.
Não poderá ser admitido ao dito exame negro de qualidade alguma e só sim pardo 
que seja forro pelo pai (se) assim o permitir.
E sendo caso, que algum oficial se queira examinar do ofício de canteiro e alvíneo, 
será obrigado a mostrar que aprendeu um, e outro ofício por certidão dos mestres 
deles; e sendo assim examinados, serão obrigados a registrar a sua carta no Senado 
da Câmara; e sendo achado, que antes do referido exame usam dos ditos ofícios 
serão condenados todas as vezes que forem compreendidos, em seis mil réis, 
metade para o Senado e a outra para o ofício.”
E lia-se no Capítulo X:
“Atendendo que tendo os mestres muitos aprendizes, nem estes poderão sair bons 
oficiais, nem as obras feitas como convém. Não poderá mestre algum ter mais de 
dois aprendizes; e para constar de como não excedem a disposição deste capítulo; 
serão os mestres obrigados a fazer presentes a mesa os aprendizes que ensina, e 
2 – Capa do “Compromisso 
e Regimento Econômico 
dos Ofícios de Carpinteiro 
e de Pedreiro e dos mais 
agregados a Bandeira do 
Glorioso São José e sua 
Confraria ereta na Sé 
Catedral da Cidade da 
Bahia dedicado ao mesmo 
glorioso Santo e feito na 
dita Cidade no ano 
de 1780”.
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M o b i l i á r i o b a i a n o
sendo achado que ensinam mais de dois como fica dito; serão condenados em oito 
mil réis para a mesa do ofício; e lhe serão tirados os tais aprendizes, que demais 
tiverem. Na mesma forma incorrerá qualquer mestre que tomar aprendiz que seja 
negro, nem ainda mulato cativo; pois só ensinará brancos, ou mulatos forros.” 63
As eleições dos marceneiros continuaram a se realizar na Câmara, ao “estilo” desta 
ou na capela da Confraria. Eram eleitos dois juízes e um escrivão pelos demais 
oficiais de marceneiro, no mesmo dia, frente aos vereadores a “mais votos”. 
Registravam-se os termos das eleições em livro próprio e os eleitos eram providos 
em seus cargos por Provisão do Senado da Câmara64.
Tem-se a relação dos juízes e escrivães eleitos entre 1706 e 1809. Destacam-se 
entre eles alguns personagens, como José Rodrigues Marrecos65, que exerceu sua atividade 
em fins do século XVII e princípios do XVIII e Gaspar dos Reis Souza, originário do Porto, que, 
embora registrasse sua certidão somente em 1707, serviu de primeiro juiz no ano anterior. 
Pode-se citar também Manoel de Souza Ribeiro, de origem portuguesa, que somente em