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Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

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Destes últimos, muitos serviram como pé de 
oratório. Nos museus, são erroneamente classificados como mesa. Um 
simples olhar mostra os inconvenientes de se ter esse móvel para uso 
nas refeições. 48 – Bofete, primeiro 
barroco, século XVIII. 
Sacristia interna da 
Igreja de N. S. da 
Conceição da Praia.
49 – Bofetinho, primeiro 
barroco, século XVIII. 
Secretaria da Igreja de N.S. 
da Conceição da Praia.
Os bofetes do século XVII, especialmente por 
causa de sua solidez, permaneceram em uso corrente 
durante toda a primeira metade do século seguinte. O 
modelo mais comum apresentava a caixa e o tampo 
lisos, com molduras de gomos, e os pés e as travessas 
torneados ou retorcidos, ou ambos (figura 50). Possuíam 
de uma a quatro gavetas de lado, ou “por banda”, como 
diziam então. A madeira preferida para esse móvel foi 
o jacarandá. Usou-se, em menor número, o vinhático. 
Esse móvel mantinha-se solidamente de pé, sem uso de 
pregos, apenas através de encaixes (figura 51) e peso 
de suas partes.
50 – Bofete (detalhe de pernas, 
travessas torneadas e retorcidas, 
gomos das gavetas). Acervo do 
antigo Museu do Carmo.
51 – Bofete desmontado, 
mostra encaixes. Acervo do 
Museu de Arte da Bahia.
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M o b i l i á r i o b a i a n o
Outro termo que designava um móvel desse gênero era banca – uma 
“mesa” de dimensões pequenas, em geral com apenas três lados decorados, 
sendo o quarto encostado à parede, ou totalmente decorada e colocada no 
meio da sala. É o móvel que, atualmente, alguns estudiosos chamam de mesa 
de encostar (figura 52). A designação mesa de encostar aparece apenas em 
meados do século XIX. Na época, a peça era popularmente chamada de banca 
de esbarra, considerando-se que ficava em corredores, passagens, vestíbulos... 
As bancas, como os bofetes, eram usadas aos pares e chamadas irmãs, por terem 
o mesmo tamanho e feitio. São denominadas hoje de consoles.
Três tipos essenciais de mesas estiveram presentes nas casas baianas, ao 
lado dos bofetes e das bancas. A primeira, feita de vinhático, era lisa, com uma 
ou duas gavetas, pernas retas, sem muita expressão; a segunda, cujos últimos 
exemplares atingiram o fim do século, tinha o tampo de vinhático redondo e os 
pés de jacarandá torneados, com uma ou duas gavetas; a terceira, em menor 
número, em jacarandá, também era redonda, com um só pé torneado. Embora 
raras, havia mesas de tampa e caixa oitavadas, com um só pé torneado. Esse 
modelo é citado em inventários, mas inexiste em acervos baianos.
Antes que terminasse a primeira metade do século XVIII, em 1746, já 
alguns exemplares do período seguinte fizeram seu aparecimento, como 
“uma mesazinha pequena do Norte de três gavetas pés de unha de grã 
besta”58. Embora essa forma de pés seja apontada como modelo corrente 
nos móveis barrocos por vários autores brasileiros e mesmo portugueses, 
os inventários mostram que, ao contrário, esse modelo não existia nos 
setecentos. Na amostragem estudada neste trabalho, o único exemplo 
encontrado foi o citado.
52 – Banca de esbarra ou 
banca de encostar, estilo 
rococó, século XVIII. Acervo do 
Museu do Estado da Bahia.
53 – Mesa, modelo 
ordinário, século XVIII, pés 
de burro (e detalhe do pé). 
Pertencia ao acervo do 
antigo Museu do 
Convento do Carmo.
Não sendo esse tipo de pé o preferido no período, na segunda 
metade do século XVIII o modelo, que apareceu com freqüência bastante 
grande, eram móveis como as “duas bancas de jacarandá de volta de pé de burro com sua 
talha e gaveta cada uma com ferragem de latão”59. Nesse mesmo inventário constam mais 
duas bancas iguais com alguma talha, mais antigas e, já em fins da primeira metade do 
século, encontram-se referências à “mesa redonda com pés de burro”.
Os pés de burro apareceram nas bancas e nas mesas redondas, quadradas ou 
“quadralongas”, com ou sem gavetas. Localizou-se em Salvador apenas um exemplar desse 
móvel, no antigo acervo do Museu do Convento do Carmo (figura 53). Era um modelo, 
como se chamava, ordinário, dos fins do século XVIII60. 
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M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
Com a mudança do modelo do móvel, trocou-se também o material de seus 
ornamentos complementares. A ferragem estanhada mourisca cedeu seu lugar às 
“ferragens” em forma de tarjas de latão dourado, como acontecera em outros móveis.
Concomitantemente aos móveis de pés de burro, desenvolveram-se outros tipos 
de bancas e mesas: o de gavetas e pés de volta, com talha, e o de gaveta lisa e pés de volta. 
Esse último modelo foi também executado com pés de burro.
No período considerado, no qual predominaram os modelos até agora referidos, 
apareceram alguns outros móveis esparsos, de típica influência inglesa da primeira metade 
do século.
Adotados os novos modelos, o “Regimento dos marceneiros” estabelecia, em 1785:
“Levará por uma banca ordinária chamada de leque, de abrir, e fechar com sua 
 gaveta de quatro pés, de jacarandá marchetada lisa com seu pano ............... 6$000
As que não forem marchetadas ................................................................................... 4$000
As bancas lisas ordinárias de jacarandá, chamadas de esbarra, com sua travessa 
de talha de duas gavetas uma inteira e outra partida será paga por ..... 8$000 rs.61” 
O primeiro exemplar que coincide com as descrições do regimento referentes a uma 
mesa de jogo foi encontrado nos inventários, datado de 1783. Os exemplares especificados 
como mesa de jogo, porém, não chegaram a cinco até o fim do século. Distinguiam-se das 
bancas de abrir por possuírem, além dos panos verdes, cinzeiros cavados no seu tampo. 
Tomou-se o exemplo do Rio de Janeiro por não se ter encontrado nenhum móvel desse 
gênero na Bahia. Mas não deixaram de ser usadas, como aparece no inventário de João 
Batista Pires: “uma dita (banca) de jogar marchetada com embutidos de piquiá e sebastião 
da arruda e sua gaveta e pano verde em bom uso”62.
Das mesas de jogo, talvez, adotou-se o hábito de forrar as gavetas e a parte 
inferior das bancas e mesas com pano verde. Usaram-se bancas de forma quadrangular, 
bem como “bancas redondas de jacarandá com seus embutidos e panos verdes”, de 180563, 
ou “bancas de dito (pequiá) oitavadas de abrir com seus embutidos”, de 180464. Nas 
mesas e bancas simples, sem marchetaria ou embutidos, foram colocados, igualmente, 
panos verdes.
Entretanto, como aconteceu com outras peças de móveis baianos, antes que 
existisse um modelo específico mais simples, o trabalho de marchetaria adaptou-se aos 
modelos antigos que ainda eram executados no final do século XVIII, como as “duas bancas 
de jacarandá pés de burro com suas talhas embutidos de sebastião-de-arruda, gavetas e 
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ferragem de latão”65, que pertenceram a José Ricardo Gomes, falecido em 1802. 
Também nesse caso, os motivos da marchetaria eram, sobretudo, florais, ou 
simples frisos ou fitas e laços.
Em relação às mesas, além dos modelos já citados, que se identificaram 
como bancas, e daquelas do primeiro período do século, desenvolveram-se, no 
gênero das bancas de leque (figura 54) ou bancas de abrir, as mesas de abas, como 
passaram a ser chamadas contemporaneamente. Estas, também de influência 
inglesa, eram executadas geralmente em vinhático, na forma retangular, quadrada 
e redonda, e tinham pés de burro. As mesas mais simples, feitas em vinhático 
ou outras madeiras que logo começaram a ser utilizadas – madeira do norte ou 
conduru –, tinham as mesmas formas geométricas.
Tardiamente, já em fins do século, adotaram-se as mesas de abas com 
quatro pés fixos e dois giratórios, torneados, cujo modelo idêntico, inglês, tinha as 
mesmas funções que as feitas na Bahia: