A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
178 pág.
Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

Pré-visualização | Página 30 de 40

quanto heróicos, românticos ou moralistas.
O número de objetos de adorno crescia cada vez mais nas salas de visitas. Pode-se 
citar, como exemplo, a sala do bacharel Francisco Antônio Pereira Rocha, que morava na 
estrada da Graça. Em 1855 suas paredes ostentavam nada menos que 32 quadros73. 
Móveis de higiene
Durante todo o século XVIII, não foi encontrada nenhuma referência especial a 
móveis de higiene, com exceção das tinas ou gamelas de vinhático, com aros de ferro, para 
tomar banho ou, em tamanho menor, para lavar as mãos. Outras tinas, que normalmente 
não são relacionadas, serviam para satisfazer as necessidades fisiológicas. Chamadas 
tigres, ficavam fora da casa e, ao cair da noite, eram carregadas pelos escravos, que 
jogavam seu conteúdo no mar ou rio. Os escravos costumavam transportar o tigre na 
cabeça. Eram proibidos de transitar durante o dia com esse material pelas ruas, segundo 
posturas da Câmara.
60 – Espelho ornamental, 
moldura rococó, século 
XVIII. Acervo do antigo 
Museu do Carmo.
~122~
M o b i l i á r i o b a i a n o
Os primeiros móveis com finalidade higiênica, os chamados toucadores, 
apareceram somente no final do século. Eram pequenos e colocados sobre uma mesa, 
banca ou cômoda. Inicialmente, os exemplares tinham origem inglesa. Com uma, duas ou 
três gavetinhas inferiores, começaram a ser usados em Salvador quando os móveis com 
marchetaria estavam na moda. Os primeiros toucadores executados na cidade eram em 
pequiá ou jacarandá, com ornamentação dessas madeiras invertidas.
Não foram muito numerosos, mas na primeira metade do século XIX já havia 
alguns toucadores de tamanhos maiores, chegando até ao modelo de vestir. Entre 1795 
e 1850 foram registrados apenas 54 exemplares na amostragem de inventários. As peças 
seguiram as modas dos demais móveis, uns pintados e dourados, outros envernizados. 
Foram complementados por tremós de cabeceira de cama, igualmente pouco numerosos.
Somente a partir de 1850 tornaram-se mais numerosos, apresentando também 
maiores tamanhos. Havia toucadores com três espelhos, com bancas e lastro de pedra e as 
toilettes, como passaram a ser chamados.
Ao se encerrar o período estudado, começaram a aparecer os bancos rústicos ou 
lavatórios. Esses lavatórios, a partir de então, passaram a ser cada vez mais aperfeiçoados 
e a aumentar em número. É o período em que, também, os bidets se vulgarizaram. Isso 
quer dizer que os tigres estavam sendo abandonados e que os baianos passaram 
seus sanitários para dentro de casa.
Móveis de devoção
O oratório foi o móvel que esteve sempre presente na casa baiana. Desde as 
moradas de casas de sobrado nobres até as moradas de casas térreas, com paredes 
de taipa, era uma constante. Podiam faltar na casa outras peças de móveis, mas o 
oratório, ainda que de pequeno porte, estava ali entronizado. Ao lado desse móvel 
de devoção, o presépio do Nascimento e os painéis ao Divino ou lâminas dos Santos 
complementavam o ambiente católico fervoroso dos baianos.
O oratório comum, na primeira metade do século, foi o de duas portas, com 
ou sem almofadas quadradas (figura 61), retangulares ou em forma de losango; com 
ou sem gavetinha na parte inferior. Essa “caixa” era arrematada superiormente por 
um aro simples (figura 62), mas, em geral, com frontão entalhado. Alguns desses 
arremates foram dourados, como as talhas das cadeiras, das mesas e de outras peças 
com esse tipo de ornamento.
Feitos, em geral, de madeira branca, eram pintados de escuro por fora e com cores 
mais alegres na parte interna. As cores preferidas para a pintura interna dos oratórios 
61 – Lateral e porta de 
oratório doméstico, com 
almofadas geométricas, 
século XVIII, reminiscências 
renascentistas. Acervo do 
Museu Carlos Costa Pinto.
62 – Oratório doméstico, 
com almofadas e frontão 
com reminiscências 
renascentistas, século XVIII. 
Acervo do Estado da Bahia.
~123~
M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
eram o azul, representando o céu, ou vermelho, às quais se acrescentavam o dourado e/ou 
ornamentos florais.
Todos guardavam numerosos santos, de marfim, de madeira “estofados” ou de 
barro. As imagens recebiam o mesmo tratamento, isto é, mesmo as de marfim ou barro 
eram pintadas. Continham, invariavelmente: uma imagem do Cristo crucificado, com 
sua cruz e calvário, Nossa Senhora da Conceição – seguindo os ditames do Concílio de 
Trento e obedecendo as “Constituições primeiras do arcebispado da Bahia” –, Santana, 
Santo Antônio74, São Francisco Xavier e alguns outros santos de especial devoção dos 
donos da casa. 
Pouco antes de findar a primeira metade do século XVIII, começaram a aparecer 
os oratórios grandes, que eram chamados oratórios de dizer missa (figura 63). Tornou-se 
moda a celebração de missa nas residências particulares, o que não deixou de suscitar 
reclamações por parte do clero da época.
As proporções e os preços dos oratórios aumentaram consideravelmente e, por 
vezes, superavam o valor global dos móveis da casa. Joana Maria da França, por exemplo, 
nesse período, possuía móveis cuja soma alcançava 44$120 réis, enquanto seu oratório, 
com os santos e suporte, somava 60$000 réis75. Exemplos idênticos a esse aparecem 
freqüentemente em muitas casas.
Alcançavam o maior número de residências, entretanto, os oratórios modestos, 
como os já descritos, em madeira branca, com o arremate mais elaborado e sem gavetinha.
Quando entraram em uso os oratórios grandes, de jacarandá, com portas de volta 
ou de almofadas e arremate de talha, tendo na parte de dentro quadros dos Passos da 
Paixão de Cristo ou espelhos emoldurados por talha dourada, outros pequenos oratórios 
já traziam uma porta envidraçada. Seguiram as mesmas modas estilísticas que os demais 
móveis, como modelos rococós ou neoclássicos (figura 64).
Às vezes, o primeiro abrigava este outro menor, que inicialmente apresentava 
apenas um vidro na parte frontal. Depois, as duas partes laterais de madeira também foram 
substituídas por vidro. 
Paralelamente, usaram-se os oratórios com uma parte fixa, a do fundo, e quatro 
móveis, as duas laterais e as duas da frente, o que permitia transformá-lo num pequeno 
altar para ser transportado e servir como móvel de rezar missa.
Com a moda dos móveis marchetados, muitos oratórios receberam o mesmo 
ornamento, em madeiras de várias tonalidades, como o de seus suportes, que eram 
geralmente as cômodas. Dos poucos sobreviventes, o Museu do Estado da Bahia possui um 
exemplar desse tipo de oratório, com aplicações florais (ver figura 22). Do modelo pequeno, 
63 – Oratório de dizer missa, 
conjugado à cômoda, século 
XVIII. Acervo do Museu Carlos 
Costa Pinto.
64 – Oratório com estrutura 
barroca, frontão rococó, 
século XVIII. Acervo do 
Museu Carlos Costa Pinto.
~124~
M o b i l i á r i o b a i a n o
há um exemplar, com frisos simples, no acervo do Museu de Arte Sacra da Universidade 
Federal da Bahia.
No transcorrer da segunda metade do século XVIII, época dos móveis 
pintados e dourados, o modelo que predominou foi o do oratório, ou melhor, do 
nicho com três faces de vidro (figura 65), protegido por guarda-pó e guarnecido 
de cortinas. Esse modelo permaneceu em uso por longo tempo, até o século XIX.
Ao lado desse nicho, nos oitocentos, as mangas de vidro cobriam uma 
imagem de pedra de Nossa Senhora da Piedade com sua peanha dourada, a imagem 
do Senhor da coluna feita de pedra jaspe ou imagens de outros Santos.
O suporte sobre o qual os oratórios repousavam também variou com as 
modas. No princípio do século XVIII, os bofetinhos e contadores desempenharam 
mais comumente essa função. Foram substituídos, entretanto, pelo caixão, como se 
observa em algumas fotos anteriores.
Os oratórios