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Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

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do princípio dos oitocentos possuíam, como se viu, 
uma ou duas gavetinhas conjugadas na sua base, destinadas a guardar as 
ornamentações das imagens. Com o aparecimento dos oratórios de dizer 
missa, a função desse complemento passou a ser desempenhada por um 
móvel em separado, o caixão, com maior número de compartimentos, nos 
quais se guardava todo o acessório de dizer missa.
Mesmo no século XIX, caixas, caixões com gavetas, cômodas, armários 
e papeleiras serviram de base para os oratórios. Houve, ainda, oratórios 
conjugados – unidos a outros móveis, como a papeleira-oratório, ou em duas 
peças distintas, mas com igualdade de confecção e ornamentação. As bancas 
de esbarra e mesas também serviam como suporte de oratório, embora em menor número 
e, sobretudo, nas residências simples.
O uso dos oratórios de madeira estendeu-se do fim da primeira metade do século 
XVIII até o século XIX, quando colunas de mármore, à maneira neoclássica, substituíram 
as cômodas, as papeleiras e as bancas nessa função, especialmente nas casas abastadas. 
Como móvel que mereceu bastante atenção nas residências baianas, principalmente 
no século XVIII, o oratório possuía, além de numerosas imagens, outras ornamentações, 
tais como jarrinhas da Índia com ramalhetes, figuras de leões e outros animais, lâminas 
das figuras dos Santos, castiçais de bojo de estanho, lâmpadas de latão, estantes, toalhas 
de linho com rendas, serpentinas de luzes, pia de água benta de vidro, anjos pintados em 
papelão com pés de madeira, lampiões de folha com vidro, mangas de vidro com pés de 
casquinha, de acordo com a moda, no passar dos anos. 
 65 – Oratório com três 
lados vedados com vidro, 
século XIX. Acervo do 
Museu de Arte Sacra.
~125~
M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
Móveis de transporte
Durante muito tempo o transporte dos baianos, em Salvador, foi a rede, tanto para 
os vivos, quanto para os mortos, mudando apenas o acompanhamento e os sinais de luto 
que ornavam os enterros.
Nas primeiras décadas do século XIX, há notícias de 
umas poucas serpentinas e duas seges. Não significa, 
em absoluto, que os números fossem exatamente 
esses, mas pode-se inferir que eram em quantidade 
diminuta. Em Salvador predominaram as serpentinas 
e, mais do que estas, as cadeirinhas de arruar. O Museu 
de Arte da Bahia possui um exemplar bastante modesto, 
mas significativo (figura 66). 
Entre os dois móveis de transporte, foram 
preferidas as cadeirinhas de arruar, que tanto 
impressionaram os viajantes estrangeiros que passaram 
por Salvador. Datando do final dos setecentos e usadas 
durante boa parte do século seguinte, as mais ricas 
primavam por sua ornamentação rococó, a mesma 
encontrada nas serpentinas.
A serpentina e as cadeirinhas de arruar 
exigiam o esforço de dois escravos para o transporte 
da pessoa conduzida. Cada senhor de escravo 
possuía, no mínimo, três carregadores de 
cadeirinha, um deles reservado para as 
eventualidades. Esses carregadores, como 
os oficiais mecânicos, passavam por um 
período de aprendizagem. Alguns brancos 
possuíam numerosos carregadores para alugar 
a pessoas que não os tivessem no plantel de seus 
escravos. 
Tanto as cadeirinhas de arruar quanto as 
seges seguiram de perto os estilos dos móveis de casa. 
Completava o conjunto o traje libré que os escravos 
portavam quando em serviço. Mas sempre estavam de 
pés descalços.
66 – Cadeirinha 
de arruar, modelo 
simples, século XIX. 
Acervo do Museu de 
Arte da Bahia.
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M o b i l i á r i o b a i a n o
Mobiliário sacro 
É muito comum atribuir-se a confecção tanto de móveis quanto de talhas e 
esculturas a religiosos conventuais. Na realidade, eram os irmãos seculares que executavam 
esses trabalhos, quando existiam. Isso merece um destaque especial, por ser outra exigência 
bem típica da sociedade escravocrata: não podia receber o hábito franciscano, por exemplo, 
o indivíduo que fosse “lacaio ou tivesse ocupação vil e baixa”76. Segundo as “Constituições 
Primeiras do Arcebispado da Bahia”, elaboradas em 1707, ocupação vil e baixa, indigna do 
ministério clerical, era, por exemplo, cavar a terra. 
“Por ser grande opróbrio do estado eclesiástico exercitarem-se os clérigos em 
oficiais, e ministérios baixos, e abatidos, mandamos a todos os de nosso Arcebispado que 
não usem nem exercitem ofício, ou ministério algum vil, e baixo, e indecente a seu estado, 
nem cavem nem rocem, nem cortem canas nem façam semelhante trabalho vil, posto que 
seja em suas próprias fazendas”77. 
Segundo muitos estudiosos, os ofícios mecânicos eram vistos como ocupações vis. 
Os regimentos beneditinos, no entanto, incentivavam o trabalho, sendo lema da Ordem, ora 
et labora. Entretanto, também eram os monges leigos que executavam as obras.
Os móveis aqui examinados podem ter sido feitos por integrantes da própria 
comunidade religiosa, como, provavelmente, pelos jesuítas. Por ser uma companhia militar-
religiosa, tinha irmãos artífices entre seus componentes, conforme destacou Serafim Leite78. 
Entretanto, o móvel e o mobiliário utilizados nas igrejas e conventos baianos, em muitos 
casos, não diferiam do civil ou leigo, nos séculos XVII, XVIII e parte do XIX. A maioria dos 
móveis só tinha como diferença as proporções e, com raras exceções, os usos. Foram os 
estudos realizados, a partir dos anos 1930-1940 que estabeleceram a distinção entre as 
duas esferas: civil e religiosa ou sacra.
Mesmo o móvel religioso propriamente dito, ou usado pelas ordens terceiras ou 
irmandades, com raras exceções, foi feito por artesãos leigos, através de “concorrência 
pública”, pelo menor preço, como no caso da Santa Casa de Misericórdia ou mesmo do 
Mosteiro de São Bento. Por outro lado, alguns irmãos, sobretudo das associações religiosas, 
especialmente as de leigos, como as irmandades e ordens terceiras, ofereciam seus serviços 
gratuitamente, ocasião em que a concorrência pública era abandonada. Mas quase sempre 
solicitavam o pagamento de seus oficiais, como mostra o exemplo do escultor Manoel 
Inácio da Costa, que executou a imagem de São Domingos e a “modernização”79 das demais 
imagens dos altares laterais da Ordem Terceira de São Francisco, por volta de 1830.
Em suas conjecturas, Carlos Ott80 aventou a hipótese de que Luís da Silva Ferreira, 
originário do Porto, nos finais do século XVII, teria chamado seus parentes marceneiros – que 
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M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
só tinham em comum o sobrenome comuníssimo de Ferreira, sem provas de que realmente 
houvesse ligação familiar –, para formar uma “empresa”81. Caberia a eles executar, além do 
arcaz da Santa Casa de Misericórdia, o da Ordem Terceira do Carmo e de São Francisco. O 
irmão franciscano Luís de Jesus, a quem se atribuiu as talhas da Igreja de São Francisco e 
de sua sacristia, teria sido apenas “fiscal”82 da obra desse último templo. Em outro lugar, 
Ott chegou à conclusão de que esse móvel foi feito na Santa Casa da Misericórdia, por 
Ferreira, simplesmente porque a irmandade o encomendou, por volta de 1721-1722, data 
que coincidia com o período de atividade do marceneiro em Salvador. Essa autoria não foi 
confirmada por Marieta Alves83. 
De qualquer forma enganou-se o autor, especialmente ao datar os três “caixões” 
ou, como denomina, arcazes, do final do século XVII, considerando que a obrigatoriedade 
de uso desse tipo de móvel nas sacristias só foi imposto pelas Constituições Primeiras do 
Arcebispado da Bahia, promulgadas em 1707, pelo arcebispo D. Sebastião Monteiro da 
Vide, que dizia que nas sacristias se colocaria um “caixão com gavetas” para recolher os 
ornamentos, cálices, patenas e o mais necessário. 
As sacristias deveriam ter prontos armários