A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
178 pág.
Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

Pré-visualização | Página 6 de 40

a designação dos estilos gerais da arte 
européia ocidental, com os anos de respectivo uso na Bahia, desprezando-se os modelos 
híbridos, isto é, aqueles que, no século XVIII, misturaram elementos renascentistas e 
barrocos, por exemplo: 
a. renascentistas, de linhas retas, com guarnições de almofadas e frontões 
(1600-1740); 
b. primeiro barroco, com torneados e retorcidos (1640-1740); 
c. segundo barroco e rococó, com talhas e linhas curvas (1740-1820); 
d. neoclássicos com linhas retas, colunas estriadas, etc. (1820-1890); 
e. ecléticos e estrangeiros (1840-1910)3. 
Por não haver o conceito de mobília, preferiu-se designar os móveis de acordo com 
a sua utilidade: 
a. móveis de guardar – caixas, arcas, cômodas, frasqueiras, cofres, armários, 
guarda-roupas, guarda-louças; 
b. móveis de trabalho – contadores, papeleiras;
c. móveis de descanso – leitos, camas, catres, preguiceiros, cadeiras, tamboretes, 
sofás, canapés e outros; 
d. móveis de refeição e decoração – mesas, bofetes, bancas, tremós;
e. móveis de higiene – toucadores, gamelas, tinas ou tigres; 
f. móveis de oração – oratórios, altares de dizer missa; 
g. móveis de transporte – (redes)4, serpentinas, cadeirinhas de arruar. 
Essas designações se adequam perfeitamente tanto aos móveis de uso civil e leigo, 
quanto, em parte, aos religiosos.
Como mencionado, a metodologia adotada considera, além da morfologia e da 
cronologia dos móveis, a sua inserção na sociedade, a mão de obra e os materiais empregados. 
Assim, antes de tratar dos móveis propriamente ditos, serão dadas notícias sobre a mão de 
obra que os elaborou no período abordado – considerando-se seu regime de trabalho e sua 
importância na vida da sociedade baiana – e sobre os materiais então utilizados.
Caixa ou arca com gavetas, clássico renascentista, século XVIII. Sacristia da Igreja de São Francisco, Salvador.
~35~
M e t o d o l o g i a d o p r e s e n t e e s t u d o
n o t a s
1 – canti, Tilde. O móvel no Brasil; origens, evolução e características. Rio de Janeiro: Cândido 
Guinle de Paula Machado, 1980. 337 p.
2 – Para a datação dos móveis, foi calculada a idade média de casamento dos inventariados, 
considerando-se a idade da maioridade – 25 anos –, em que o matrimônio era permitido, e a 
idade dos filhos, além da média da expectativa de vida da época.
3 – Quando o Imperador D. Pedro II visitou Salvador, em 1859, vários aposentos do Palácio do 
Governo foram mobiliados com peças de estilo eclético, de influência francesa. A mobília da 
“sala vermelha” era de “mogno, estofada de damasco vermelho, ao gosto da época de Luís XV”, 
por exemplo (MeMórias da viageM de suas Magestades iMPeriais a Provincia da baHia. Rio de Janeiro: 
Indústria Nacional de Cotrin & Campos, 1867. p. 13).
4 – A rede aparece entre parênteses porque, apesar de ter sido, por longo tempo um meio de 
transporte eficaz, não pode ser considerada um móvel, como os demais, pois era feita de tecido.
Mão de obra: 
os oF íc ios Mecânicos
4
~39~
Salvador herdou de Portugal a composição administrativa e a estrutura 
socioeconômica, incluindo a formação de mão de obra, constituída majoritariamente 
de artífices. Na prática, os ofícios foram divididos entre os brancos e os negros, sendo 
exercidos por uns ou por outros – não exclusivamente, mas em grande parte. 
Do século XVI até a terceira década do século XIX, os artesãos ou artífices e alguns 
pequenos comerciantes eram designados na Bahia e no Brasil como oficiais mecânicos. 
Os pintores e escultores, que também usavam as mãos na elaboração de suas obras, não 
eram classificados como artesãos, pois tinham, teoricamente, a possibilidade de “inventar” 
e, por isso, ser profissionais liberais1, enquanto aos artífices cabia “copiar” e permanecer 
administrativamente atrelados às Câmaras.
Vários oficiais mecânicos interferiam na confecção dos móveis, como os 
marceneiros ou carpinteiros de obras brancas e pretas, torneiros, entalhadores, carpinteiros 
de móveis e samblagem, correeiros lavradores de couro, picadores de sola ou couro, 
ferreiros ou serralheiros2. A confecção de cadeiras, por exemplo, podia reunir marceneiros 
e correeiros. O marceneiro podia acumular a função de torneiro, mas não a de entalhador. 
O profissional dessa especialidade intervinha no móvel separadamente. Os entalhadores 
não tinham obrigação de cumprir os preceitos da Câmara, por estarem classificados na 
categoria dos escultores. 
Segundo afirma a historiografia clássica tanto em relação ao urbanismo quanto 
em relação aos ofícios mecânicos, apenas na América castelhana teria havido organização. 
No Brasil, por causa da presença do regime escravista, teria reinado a desordem, a 
desobediência profissional. Isso é bem válido para a vila de São Paulo, que, até o século 
XIX, não teve muita relevância. Até as primeiras décadas daquele século, como acusava o 
governador Antônio José de Franca e Horta, não havia em São Paulo mestres pedreiros e 
carpinteiros hábeis como os que existiam no Rio de Janeiro e na Bahia3.
Fato praticamente desconhecido é que, na Bahia, a partir do final da primeira metade 
do século XVII, foram criados os cargos de procuradores dos mesteres, hierarquicamente 
subordinados à Câmara. A exemplo do que existia em Lisboa, procurou-se constituir as 
guildas de forma ativa, buscando 
“dar maior relevo à atividade dos juízes dos ofícios mecânicos, criando-lhes função 
própria sob a denominação de mesteres, como órgão de classe junto à Câmara, onde 
teriam assento, trazendo mais uma figura ao cenário administrativo da Cidade – o 
juiz do povo – eleito pela assembléia de 12 mesteres, por sua vez aclamados pelos 
vários grupos profissionais, regularmente registrados”4.
M ã o d e o b r a : o s o F í c i o s M e c â n i c o s 
Banca de esbarra ou mesa de encostar, rococó, séculos XVIII-XIX. Museu de Arte da Bahia.
~40~
M o b i l i á r i o b a i a n o
Instituídos os mesteres, por resolução da Câmara de 21 de maio de 16415, dois 
dias depois os oficiais mecânicos se reuniram, por convocação da Câmara, e elegeram 
24 representantes, escolhendo-se, entre estes, 12 – um ou dois de cada ofício, dos mais 
indispensáveis6. Seguia-se o exemplo de Lisboa, que possuía um ou dois representantes, a 
depender do ofício, na chamada Casa dos Vinte e Quatro7. 
Logo após a escolha dos 12, elegeu-se o juiz do povo e o escrivão, aprovados 
com dois procuradores dos mesteres8 por Alvará Régio de 28 de maio de 1644, da mesma 
forma que nas vilas do Reino e com iguais isenções e privilégios9. Cabia-lhes controlar 
as atividades dos seus companheiros, fixar preços e avaliar as obras. Tratava-se de uma 
continuação das guildas medievais.
As “iniciativas partidas dos proletários”, como as chamou Affonso Ruy, “começaram 
a agitar os vereadores, originando-se, aos poucos, um ambiente de reação que foi crescendo 
até à hostilidade contra os representantes corporativos”10. 
Elegeram-se outros juízes do povo e mesteres. Estes, porém, cada vez mais 
infiltravam-se nas competências dos vereadores11 que, por sua vez, procuravam cercear o 
poder daqueles. Os antagonismos continuaram até que, em 1710, os vereadores deliberaram 
que o juiz do povo e os mesteres só fossem às vereações requererem, segundo Affonso Ruy, 
“aquilo que entendessem era útil ao povo”12 e que não comparecessem mais às vereações.
Os juízes do povo e os mesteres foram acusados de provocar reações populares 
contra a Câmara, contra o Governo e contra a Coroa13, até que, “por ter mostrado a 
experiência ser causa dos motins que tem havido em desserviço meu e do público desses 
moradores”, o rei, através da Carta Régia de 25 de fevereiro de 1713, extinguiu esses cargos, 
pelas mesmas razões por que o fizera