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na cidade do Porto, a pedido da própria Câmara.
Os vereadores, em 1715 e 1716, apelaram ao rei a fim de que novamente se 
instituíssem os cargos de juiz do povo e de mesteres, sem os quais, diziam, “ficava a Cidade 
Capital do Estado do Brasil igual a mais humilde vila dele” e para que houvesse “o sossego 
do bem comum”14. Tudo inútil. Os cargos estavam extintos definitivamente.
Os oficiais mecânicos perderam assim seus representantes junto ao poder 
público e seus privilégios, e tiveram suas atividades restringidas. A partir de então apenas 
examinavam, através do juiz e do escrivão do ofício, aqueles que queriam ingressar na 
atividade, defendiam poucos de seus interesses e avaliavam as obras, em comum acordo 
com a Câmara.
Além da falta de representação junto à Câmara, dois fatores importantes, entre 
vários outros, contribuíram para enfraquecer a organização das guildas, dentro dos 
moldes de Lisboa. Em primeiro lugar, a presença do braço escravo, que exercia alguns 
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ofícios mecânicos, sobretudo aqueles que exigiam maior esforço físico ou que lidavam com 
sangue; em segundo, a instabilidade e as restrições político-administrativas impostas à 
Câmara de Salvador, quer pelo governo geral, quer pela corte.
Como exemplo de interferência de órgãos superiores da corte, escrevia Vilhena15: 
“uma outra origem de desordem no Senado é a ascendência que o Supremo Tribunal 
da Relação tem arrogado sobre ele, sendo certo que querendo o Senado fazer 
obviar algumas infrações das leis municipais, e ainda portarias dos excelentíssimos 
governadores interpõem a parte um agravo para a Relação, e tem por certo o 
provimento com que já conta quando agrava; motivo por que vem a ficar sem 
validade as posturas, e reiteradas portarias do Senado, ou para melhor, o presidente 
iludido, e os perversos com a mão alçada para descarregarem quando este obsta 
as suas pretensões.”16
Apesar disso, a Câmara e os oficiais mecânicos tentaram organizar suas corporações 
mesmo sem os poderes, isenções e privilégios, que haviam conquistado a partir de 1641, e 
que perderam em 1713.
Essas tentativas estão registradas nos manuscritos existentes no Arquivo Histórico 
da Prefeitura Municipal do Salvador, sob a guarda da Fundação Gregório de Mattos. 
Embora a documentação tenha sofrido várias interrupções ou esteja danificada, pode-se, 
há alguns anos, de uma maneira genérica, estabelecer a “história dos ofícios mecânicos do 
Salvador”17, correlacionando-a à de Lisboa.
As atividades dos oficiais mecânicos eram reguladas, em parte, pelo Livro de 
Regimentos dos Oficiais mecânicos de Lisboa, de 1572. Nesses regimentos, reformados 
pelo marquês de Pombal em 177118, foram baseadas as posturas estabelecidas pela 
Câmara de Salvador. 
Em 1704, os oficiais mecânicos requereram ao rei que, em Salvador, se observassem 
os “estilos”, ou costumes, da corte para a eleição de seus juízes em “casas particulares”, 
como a Casa dos Vinte e Quatro, de Lisboa. Solicitada a opinião da Câmara, esta procurou 
dar esclarecimentos ao rei sobre as irregularidades e diferenças na observância desses 
“estilos”19. A maioria das eleições, apesar desse pedido, continuou sendo realizada na 
Câmara, conforme o costume desta.
Em Salvador, chamava-se vulgarmente de regimento à lista de preços das obras 
que os oficiais mecânicos executavam, e não um conjunto de normas de procedimentos. 
Essa lista era estabelecida em comum acordo com a Câmara, enquanto existiram os juízes 
do povo e os mesteres, e depois somente pela Câmara. Os regimentos dos diversos ofícios 
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constam dos livros de posturas da Câmara. As atividades de alguns artífices, entretanto, 
eram regulamentadas pelos regimentos das confrarias. Esses regimentos e/ou as posturas 
da Câmara definiam a vida pública e profissional dos artífices.
As posturas, estabelecidas pela Câmara, eram lidas em pregões públicos, nas praças 
e ruas “costumadas” da cidade, praia e seus arrabaldes, em voz alta e inteligível, para que 
“fossem bem entendidas por todo povo” e que ninguém pudesse “alegar ignorância”20. 
Qualquer pessoa do povo podia denunciar os culpados que agiam contra as posturas 
e tinham direito à terça parte das condenações, as coimas21. As penas impostas eram 
aplicadas pelos almotacés das execuções, a pedido dos juízes de fora ou da Câmara.
Os primeiros livros de posturas foram perdidos. Sabe-se que, com “a entrada dos 
inimigos rebeldes de Holanda se haviam perdido os livros” da Câmara, e pedia-se, expulsos 
os invasores, 
“que se pusessem [...] o traslado das posturas, que se haviam feito antes disso, e 
estavam nos ditos livros perdidos das quais ainda havia alguma notícia, por estar o 
traslado delas em poder do escrivão da Almotaçaria João Mendes Pacheco, as quais 
de novo haviam por boas, e mandaram se copiassem como nelas se continham, e 
que pelas penas nelas estabelecidas fossem executadas as pessoas que caíssem em 
coima, e fossem contra elas.22”
Com referência aos oficiais mecânicos, as posturas da Câmara de Salvador 
estabeleciam que “de novo se mandavam cumprir, e executar nas pessoas que forem contra 
elas” (1625), e definiam:
“que nenhum oficial de qualquer ofício ponha tenda sem licença da Câmara, e 
fiança nela, e seja examinado, e tenha seu regimento a porta, pena de seis mil réis 
.............................................................................................................................................6$00023.
que todos os oficiais serão obrigados a acompanhar a bandeira os dias das procissões 
del Rei, pena de seis mil réis ..................................................................................... 6$000.24”
Ao pedir a licença à Câmara, os oficiais mecânicos pagavam fiança, apresentando 
avalistas. A fiança era válida por um ano, ou seis meses para aqueles que recebiam 
pagamento de terceiros25. Registravam-se em livros próprios os nomes dos oficiais e, por 
vezes, os endereços e tipo de atividade26. As licenças para os escravos eram tiradas em 
nome de seus senhores, os quais pagavam a fiança. Poucos foram os oficiais que cumpriram 
com regularidade essas duas obrigações: licença e exame.
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o F í c i o s e H i e r a r q u i a
Existiam, na Cidade do Salvador, os seguintes ofícios denominados mecânicos: 
barbeiro, sapateiro, carpinteiro de obra branca ou de edifícios, carpinteiro das naus da 
ribeira, carapina, correeiro, dourador, espadeiro, esparteiro, ferreiro, latoeiro, marceneiro, 
ourives do ouro e da prata, parteira, pasteleiro, pedreiro, polieiro, sangrador, seleiro, 
serralheiro, sombreiro, tanoeiro, tintureiro, torneiro, alfaiate, anzoleiro. Muitos dos ofícios 
existentes em Lisboa não passaram para o Brasil por não serem de primeira necessidade ou, 
então, foram anexados a outros ofícios. As demais atividades constituíam, normalmente, 
monopólio real. Como dizia José da Silva Lisboa a Domingos Vandelli, em 1781, “as artes na 
Bahia se reduzem aos ofícios mecânicos de pura necessidade”27. 
Hierarquicamente, encontravam-se em São Paulo o mestre, o oficial, os aprendizes 
e os serventes, enquanto na Bahia existiam o mestre, o oficial, os aprendizes e os jornaleiros. 
Com a exceção dos serventes e jornaleiros, os demais podiam e deviam prestar exames para 
galgar os títulos superiores da hierarquia.
Os exames consistiam na confecção de uma obra própria do ofício ou em 
questionário sobre os principais conhecimentos que o candidato devia possuir. A execução 
da obra, objeto de exame, não tinha prazo definido. Podia estender-se por meses. Apenas 
em caso de troca de juízes ficavam os examinados obrigados a concluí-la