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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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colocadas. A mercantilização da
cultura permitiu a vulgarização dos bens culturais, antes somente
acessíveis a alguns, ou gerou a massificação da cultura, nivelando
por baixo os padrões culturais? Ou será que ambas as interroga-
ções têm resposta positiva? O que está a acontecer agora, com a
emergência de fenómenos de segmentação, interactividade, des-
massificação e individualização/personalização da comunicação,
enquadrados pela comunicação global?
Todas estas interrogações destacam a importância dos estudos
que interligam a cultura e a comunicação no campo das Ciências
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da Comunicação, como tentam fazer os pesquisadores que inves-
tigam com base no envasamento teórico e metodológico propor-
cionado pelos estudos culturais.
Dois dos autores mais referidos no campo das ciências huma-
nas e sociais, Berger e Luckmann (1976), propuseram a ideia de
que a realidade é construída socialmente. Os indivíduos, na ver-
são dos autores, reflectem sobre os significados, normas e valores
que interiorizam com base nos valores, normas e significados que
já interiorizaram (princípio da auto-referencialidade dos disposi-
tivos culturais), o que os torna produtos e produtores da sociedade
e da cultura.
Autores como Bourdieu (1994) associam cultura e poder, no
campo específico da reprodução cultural. Bourdieu e Passeron
(1970) definem o conceito de "reprodução cultural"como a reno-
vação quotidiana da cultura e da estrutura das relações sociais que
a cultura suporta sem que haja lugar a grandes mudanças, mesmo
que haja evolução, à semelhança do que acontece no campo da
reprodução social. Para Bourdieu e Passeron (1970), a escola e
outras instituições sociais, designadamente as mediáticas, acabam
por contribuir, nesse contexto, para manter as desigualdades so-
ciais e culturais e as relações de dominação, já que transmitem
os valores, atitudes, normas, formas aceitáveis de comportamento
e, em suma, o habitus, da cultura dominante. No caso da es-
cola, isso acontece, argumentam os autores, porque as crianças
dos meios sociais privilegiados têm melhores condições para ace-
der ao conhecimento do que as restantes, incorporando melhor
a cultura dominante. A escola legitimaria, mesmo, o insucesso
das crianças das classes "populares", apesar da mobilidade social
ascendente que pode ser promovida pela educação.
Assim, pode dizer-se, em síntese, que para Bourdieu a cultura
é um sistema de significações susceptível de distinguir e hierar-
quizar, simbolicamente, os indivíduos na sociedade, permitindo
a supremacia de determinados grupos sobre outros. Ferin (2002:
79), interpretando Bourdieu, pormenoriza: "(...) a cultura elitista
caracterizar-se-ia pelas estratégias de distinção, a cultura da classe
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média pela boa vontade cultural e pela pretensão, e a cultura de
massa (inerente ao consumo do povo/massa) pela privação". A
cultura surge, assim, como um campo de produção e reprodução
simbólica, "nomeadamente de produção das representações po-
líticas, jurídicas, religiosas, educativas, frequentemente recriadas
pelos media, com especial destaque para a televisão - pautada pela
tensão e pelo conflito, onde se enfrentam estratégias de classe e
comportamentos de agentes sociais"(Ferin, 2002: 79). No en-
tanto, o argumento de Bourdieu de que as fronteiras do capital
económico e do capital cultural coincidem deve ser tido com re-
servas. Fiske (cit. in McQuail, 2003: 105), por exemplo, explica
que existem duas economias relativamente autónomas: uma cul-
tural e outra social. Como diz McQuail (2003: 105), interpretando
Fiske, "Mesmo que a maior parte das pessoas numa sociedade de
classes seja subordinada, tem um nível de poder semiótico na eco-
nomia cultural - isto é, o poder de desenhar os sentidos para os
seus próprios desejos".
No contexto grupal e organizacional, se queremos compreen-
der a comunicação, também devemos olhar para a cultura. Kreps
(1992: 128-129) aconselha olhar para filosofias, crenças e valo-
res compartilhados; para os heróis e líderes (formais e informais)
da organização ou grupo (e respectivas hierarquias); para os ritos
e rituais, em particular para aqueles destinados a celebrar os va-
lores e heróis da vida organizacional; e ainda para a as redes de
trabalho, formais e informais, usadas para aculturar e socializar
os neófitos na vida organizacional.
1.6.3 Comunicação, sociedade e pós-modernidade
A sustentação da globalização numa comunicação social verti-
ginosa e poderosa trouxe consigo um vasto número de transfor-
mações sócio-culturais e civilizacionais. Por isso, alguns teó-
ricos argumentam que a modernidade estaria a dar lugar à pós-
modernidade (como o português Boaventura Sousa Santos). Ro-
berto Elísio dos Santos (1998: 32-35) faz uma útil recapitulação
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das principais características que os teóricos da pós-modernidade
atribuem às sociedades pós-modernas:
• Omnipresença dos meios de comunicação social, alguns de-
les multimédia, que invadem a esfera pessoal e social;
• Flashes da vida contemporânea são transmitidos ao vivo pe-
los meios de comunicação electrónicos, por vezes para uma
audiência mundial, rompendo com a banalidade da vida
quotidiana;
• O discurso dos meios, em particular o dos meios electróni-
cos, está sujeito à espectacularidade, para atrair a atenção,
e promove uma lógica não linear, por vezes mesmo esqui-
zofrénica, já que as maiores tragédias, por exemplo, podem
ser misturadas com anúncios a detergentes e os directos po-
dem ser misturados com infográficos, numa lógica de simu-
lação da realidade;
• Os meios de comunicação oferecem fantasia sofisticada e
simulacral a quem não encontra satisfação na realidade;
• Há saturação informativa decorrente da proliferação de ar-
tefactos de alta-tecnologia que permitem produzir, captar,
copiar, guardar, processar e difundir informação a uma ve-
locidade cada vez mais vertiginosa;
• As pessoas procuram distinguir-se pelo que consomem e
exibem, conduzindo ao hedonismo;
• overdose informacional e a proliferação dos discursos e das
discussões através dos media esvaziam as ideologias, bana-
lizam os acontecimentos e as ideias e tornam os discursos
repetitivos. O vazio e a redundância também se fazem sentir
na criação estética, onde a forma se sobrepõe ao conteúdo.
Perde-se a esperança na originalidade, na criação, e cai-se
no niilismo, na negação da substância;
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• A cultura pós-moderna cultiva o pastiche, reapresentando e
reformatando velhos temas e misturando estilos.
A pós-modernidade gera trajectórias espontâneas e imprevis-
tas dos indivíduos, afectando as identidades grupais tradicionais
e os papéis sociais a elas associados13 e obrigando, mais do que
nunca, cada indivíduo a renegociar continuamente os seus papéis
sociais e a sua identidade. Porém, não apagou totalmente essas
identidades grupais estruturantes da própria sociedade (família,
género sexual, grupo profissional, etc.), às quais muitos indiví-
duos se agarram como derradeiros vestígios de segurança. Se o
cruzamento das histórias de vida14 dos indivíduos é importante
para um nível de análise microscópico, a operacionalidade das
identidades grupais continua a ser relevante a um nível de análise
macroscópico.
1.7 Alguns modelos do processo de comu-
nicação
A comunicação, enquanto processo, é indissociável do universo
em que ocorre. Qualquer acto comunicativo está ligado ao todo.
Tudo está ligado com tudo. No entanto, para tornar a realidade
compreensível, ou seja, para tornar compreensíveis os actos co-
municativos, os teóricos têm desenvolvido vários modelos (ou pa-
radigmas) dos processos comunicacionais. Estes não são, porém,
mais do que artefactos imaginativos, embora úteis, criados inte-
lectualmente