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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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pelo homem para compreender e estudar a realidade
comunicacional.
Os modelos do processo de comunicação não podem ser en-
tendidos como espelhos do real. Todos os modelos são, neces-
13 Ver o capítulo dedicado às Escolas e Autores do Pensamento Comunica-
cional, nomeadamente o ponto sobre a Escola de Chicago, e o ponto sobre o
método de investigação dos "papéis sociais"no último capítulo.
14 Ver o ponto dedicado às "histórias de vida"no último capítulo deste livro.
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sariamente, incompletos e imperfeitos. São uma reconstrução in-
telectual e imaginativa da realidade. A Teoria (matemática) do
Caos demonstra que, por um lado, os modelos nunca podem con-
templar todos os elementos (variáveis) que interferem num acto
comunicativo, porque tudo está relacionado com tudo. Isso se-
ria impossível, excepto para um ser omnisciente. Por outro lado,
a mesma teoria demonstra que os modelos não conseguem dar
conta de todas as interacções estabelecidas entre todos os elemen-
tos que interferem no processo de comunicação. Inclusivamente,
não só todos os elementos do processo de comunicação apresen-
tam contínuas mudanças no tempo como também as interacções
que eles estabelecem entre si são evolutivas e sujeitas a perpé-
tua mudança. No entanto, os modelos da comunicação procuram
dissociar, artificialmente, os actos comunicativos do seu entorno
e representá-los como se fosse possível congelar um instante do
processo.
Um segundo problema que enfrentam os pesquisadores está
associado à descrição do processo de comunicação com base em
modelos. Para descrevermos o processo de comunicação necessi-
tamos de recorrer à linguagem. Só que a linguagem também é um
processo (Berlo, 1985: 35), ou seja, é evolutiva. As palavras não
só mudam com o tempo como também podem assumir diferen-
tes significados para emissor e receptor. Além disso, a linguagem
também é uma invenção humana incapaz de espelhar a realidade.
A linguagem recria a realidade, tornando esta última compreen-
sível, sobretudo ao nível fenomenológico, mas não cognoscível,
em particular ao nível ontológico.
Há ainda um terceiro problema com que os teóricos da co-
municação têm de lidar quando procuram construir modelos dos
actos comunicativos: a observação depende do observador. Esta é
uma realidade de que as ciências sociais e humanas foram adqui-
rindo consciência a partir da introdução, na física, do Princípio da
Incerteza de Heisenberg e da Teoria da Relatividade, respectiva-
mente.
Os modelos são, assim, no dizer de John Fiske (1993: 58),
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uma espécie de mapa, que representa características seleccionadas
do seu território. Neste livro apresentam-se alguns desses "ma-
pas"(modelos ou paradigmas), mas sem preocupações de exausti-
vidade, uma vez que há dezenas de modelos do processo de comu-
nicação, muitos deles dizendo respeito a realidades diferentes (por
exemplo, há modelos do processo de comunicação interpessoal,
do processo de comunicação organizacional, do processo jorna-
lístico, etc.). Preferiu-se descrever, essencialmente, os primeiros
modelos que surgiram na história da pesquisa comunicacional,
pois, de algum modo, definiram grande parte dos componentes
dos modelos posteriores.
1.7.1 O modelo retórico de Aristóteles (século IV
a.C)
O primeiro modelo histórico da comunicação foi apresentado por
Aristóteles, na sua obra Arte Retórica, durante o século IV a.C.
Segundo o filósofo, para se estudar, compreender e cultivar a re-
tórica há que olhar para três elementos essenciais do processo de
comunicação: 1) A pessoa que fala (locutor); 2) O discurso que
faz; e 3) A pessoa que ouve. Esta abordagem traduz a essência
de qualquer modelo posterior do processo de comunicação:
Emissor - Mensagem - Receptor
1.7.2 O modelo (ou paradigma) de Lasswell (1948)
Harold Lassweell apresentou, em 1948, o segundo modelo do pro-
cesso de comunicação que encontramos na história. É um modelo
cuja aparição pode situar-se na fase de transição entre as primeiras
teorias (não científicas) sobre a comunicação social, em concreto
a teoria das balas mágicas ou da agulha hipodérmica, e os primei-
ros estudos científicos sobre os efeitos da comunicação, como o
modelo psicodinâmico de Cantril (1940) ou as teorias funciona-
listas do fluxo de comunicação em duas etapas (two step) ou em
etapas múltiplas (multistep).
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Lasswell sustentou que uma forma de descrever um acto de
comunicação é responder a cinco questões:
Quem? – Diz o Quê? – Em que Canal? – A Quem? – Com
que Efeitos?
O modelo de Lasswell, embora seja útil para descrever qual-
quer acto comunicativo, foi, originalmente, pensado para a des-
crição da comunicação mediada através dos mass media (media é
o plural de medium), ou seja, dos meios de comunicação de mas-
sas, também designados por meios de difusão ou por meios de
comunicação social. De algum modo, é um modelo que propõe a
ideia de que a iniciativa de um acto de comunicação é sempre do
emissor e que os efeitos ocorrem unicamente no receptor, quando,
na verdade, um acto comunicativo não tem início bem definido e
emissores e receptores se influenciam mutuamente.
De acordo com Lassweel, o estudo da comunicação tende
a centrar-se nas interrogações que fazem parte do seu modelo.
Pode, assim, sistematizar-se o estudo da comunicação em vários
campos:
Quem? Estudos sobre o emissor e a emissão
das mensagens.
Diz o quê? Análise do discurso.
Por que canal? Análise do meio.
A quem? Análise da audiência e estudos sobre
o receptor e a recepção de mensagens.
Com que efeitos? Análise dos efeitos das mensagens e
da comunicação.
O modelo de Lasswell é um modelo claramente funcionalista,
pois atomiza e articula em vários segmentos funcionais, objectiva-
dos, o fenómeno da comunicação, propondo, consequentemente,
vários campos de estudo. Assim, o modelo mereceu várias críti-
cas, sobretudo dos teóricos que não se revêem nas posições funci-
onalistas. Estes dizem, por exemplo, que o modelo de Lasswell é
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linear, quando o processo de comunicação é complexo, admitindo
várias formas que transvazam dessa aparente linearidade; que é
um modelo redutor, já que não dá conta de várias variáveis, como
o feedback; que é um modelo compartimentado, pois segmenta
em diferentes elementos aquilo que, na realidade, é um todo, o
processo de comunicação; que é um modelo que pressupõe que o
efeito constitui uma mudança observável ou mesmo mensurável
que se regista no receptor, quando isto pode não ocorrer; final-
mente, que não dá conta do contexto do processo de comunicação,
nomeadamente da história e circunstâncias dos seus elementos.
Há que convir, porém, que, independentemente das críticas,
o modelo de Lasswell é bastante pertinente, constituindo, ainda
hoje um bom auxiliar para o estudo da comunicação. Aliás, o
modelo de Lassewll foi proposto num tempo em que os estudos
da comunicação ainda se estavam a desenvolver, representando
um passo em frente para o conhecimento comunicacional.
1.7.2.1 As noções de medium, mídia e comunicação de massas
(ou comunicação social)
Como vimos, o modelo de Lasswell foi pensado para descrever os
actos de comunicação mediada através de um mass medium (meio
de comunicação social).
Em geral, um medium, ou meio de comunicação, é todo o su-
porte de comunicação. A voz humana, por exemplo, é um meio
de comunicação (todavia, sendo-se minucioso, a voz humana ne-
cessita de um canal, o ar, que estabelece o contacto entre emissor
e receptor). O corpo, que permite a linguagem gestual, é outro
meio de comunicação. O vestuário também pode ser considerado
um meio de comunicação, tal como um perfume. No entanto, nor-
malmente, quando se fala de um meio de comunicação fala-se de
um artefacto tecnológico