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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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do objecto são conceptualmente satisfa-
tórios (Piñuel Raigada e Gaitán Moya, 1995: 21).
Nas ciências da comunicação não se necessita de se manifestar
a causalidade ontológica que é específica da filosofia (Lucas Mar-
tín et al., 1999: 39). Precisa-se, ao invés, de determinar as cor-
relações entre os diferentes fenómenos observados, embora sem
ignorar que, no campo comunicacional, é difícil determinar as re-
lações directas de causa-efeito e delimitar em concreto as causas
e os efeitos.
A apropriação da comunicação como objecto de reflexão fi-
losófica ou "quase-filosófica"tem contribuído para a elasticidade
das fronteiras das Ciências da Comunicação, mas também para al-
guma confusão metodológica. A semiótica, por exemplo, recorre
essencialmente à reflexão como método de trabalho. Porém, ciên-
cia e filosofia não são redutíveis uma à outra. Trabalham de forma
diferente (1) aqueles que procuram avaliar hipóteses, testando-as
em campo, e que, por observação ou de forma empírica, reco-
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lhem dados, que sistematizam, analisam e interpretam, e (2) aque-
les que reflectem filosoficamente sobre a comunicação, por vezes
com base em pressupostos ideológicos que constrangem, logo à
partida, a liberdade do pensamento. Filósofos e cientistas têm pa-
péis complementares, mas diferenciados. Por isso, deve ser feito
um esforço para separar as Ciências da Comunicação da filosofia
da comunicação. Só assim as Ciências da Comunicação se podem
afirmar como um verdadeiro campo científico.
No campo da comunicação, ciência e filosofia têm um papel
distinto, uma legitimidade distinta, uma utilidade diferenciada. Se
bem que o objecto "comunicação"seja "o mesmo", os métodos da
ciência e da filosofia da comunicação são distintos. Na realidade,
o próprio objecto é diferenciável, já que a filosofia se ocupa (ou
deve ocupar-se) das causas ontológicas da comunicação, enquanto
a ciência se ocupa (ou deve ocupar-se) das relações entre os fe-
nómenos comunicacionais. Além disso, o conhecimento cientí-
fico assenta na possibilidade de verificação e comprovação, sendo
refutável sempre que uma explicação melhor aparece, coisa que
não acontece na filosofia. O conhecimento filosófico é eminen-
temente subjectivo e não "objectivo"como o conhecimento cientí-
fico. Deve rejeitar-se, aliás, qualquer deriva "pós-moderna"no que
respeita à ciência, como a protagonizada por Boaventura Sousa
Santos, que relativiza o conhecimento científico, colocando-o a
par de outros tipos de conhecimento, como o filosófico, o metafí-
sico ou o senso-comum. Essa deriva é obscurantista e, ao contrá-
rio da verdadeira ciência, é irrefutável porque é exclusivamente
subjectiva.
Uma outra distinção deve ser tida em conta: as Ciências da
Comunicação servem-se (ou devem servir-se), preponderantemen-
te, dos métodos e técnicas de pesquisa das ciências sociais e hu-
manas, embora também possam recorrer, colateralmente, à refle-
xão, por exemplo, para questões relacionadas com o estudo da sig-
nificação15 . Mas isto não acontece com a filosofia, cujo método
15 Não se olvide, porém, que a semiótica não pode subtrair-se à possibilidade
de comprovação e eventual refutação se deseja ser verdadeiramente ciência.
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exclusivo é a reflexão filosófica. A filosofia da comunicação, com
os seus métodos reflexivos e princípios de causalidade ontológica,
pode ser útil para alargar horizontes às Ciências da Comunicação.
Também pode ser útil para o exercício de uma reflexão epistemo-
lógica sobre o objecto, os processos e os métodos das Ciências da
Comunicação e sobre o conhecimento produzido por estas ciên-
cias e a sua validade. Mas as Ciências da Comunicação devem
traçar uma fronteira em relação à filosofia da comunicação, opção
que na pesquisa comunicacional nem sempre é nítida.
O facto das Ciências da Comunicação deverem recorrer às
técnicas e métodos de pesquisa das ciências sociais e humanas
não impede os chamados "estudos críticos", nomeadamente aque-
les que orbitam as esferas dos Estudos Culturais e da Escola de
Frankfurt. A "descrição da realidade"pode conter em si mesma
o gérmen da crítica, embora esta surja da valorização das per-
cepções da realidade à luz do enquadramento dado pelos valores
existentes na sociedade num determinado momento. Por exem-
plo, a descrição das estratégias comunicacionais de dominação
social e de fabrico do consentimento pode ter um pendor crítico,
mas o procedimento para descrever e compreender essas estraté-
gias pode ser eminentemente científico, resultando, por exemplo,
da observação participante e de análises do discurso. Além disso,
para o procedimento ser verdadeiramente científico, os achados
devem ser comprováveis e verificáveis. O que não é comprovável
e verificável não pode ser entendido como ciência, ainda que se
esteja no campo das ciências sociais e humanas.
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Capítulo 2
O estudo da significação:
semiótica, semiologia e
psicanálise
Comunicar significa, em grande medida, significar e interpretar.
Para comunicar com significado, as pessoas recorrem a signos,
que organizam em sistemas de signos. Este texto, por exemplo, é
constituído por signos individuais -as palavras−, por sua vez or-
ganizadas num sistema de signos, a língua. É um texto codificado.
O receptor vai entendê-lo porque conhece o código. Cada palavra
tem um significado. As palavras juntas geram uma mensagem,
que tem igualmente um significado. O receptor, face ao contexto
da situação, interpreta essa mensagem. Por exemplo, a mensagem
directa deste livro é a descrição de algum do conhecimento exis-
tente sobre o fenómeno da comunicação, mas o receptor, interpre-
tante, pode entender este livro, por exemplo, como um convite ao
estudo da comunicação, ou simplesmente uma obrigação acadé-
mica. O receptor estaria, neste caso, a interpretar a mensagem em
função do contexto da recepção. De certa forma, interpretação e
significado são coisas diferentes.
Os signos não se restringem às palavras. As imagens, por
exemplo, podem funcionar como signos. As portas dos quartos de
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banho públicos, geralmente, têm imagens afixadas que permitem
distinguir qual é o das senhoras e qual é o dos homens. Estas
imagens funcionam como signos.
A semiótica -ou semiologia- é a ciência que estuda os sig-
nos, os sistemas de signos (códigos), as relações entre os signos
e os seus utilizadores e a cultura onde esses signos existem
(e que depende deles para subsistir e reproduzir-se), visando a
classificação e interpretação desses mesmos signos. Assim, os
objectivos principais dos estudos semióticos são:
• Explicar os processos de geração de sentido através dos sig-
nos e dos sistemas de signos, isto é, explicar o sentido (ou
significado) do que se enuncia;
•Explicar aquilo que os signos são, esclarecendo, em espe-
cial, a sua função designadora e referencial;
• Desvelar a relação entre enunciadores, enunciados, recep-
tores e contexto, na perspectiva da utilização de signos per-
tencentes a determinados sistemas de signos.
A semiótica e as suas ramificações colocam em evidência que
nem todas as realidades comunicacionais podem ser matematiza-
das ou contabilizadas em inquéritos.
A semiótica admite várias disciplinas. A pragmática é a parte
da semiótica que estuda as relações entre os signos e aqueles que
os utilizam, ou seja, procura esclarecer as razões pelas quais al-
guém produz e dirige um determinado enunciado a alguém, em
suma, estuda a interpretação das mensagens. Por exemplo, se di-
zemos a frase "aqui está quente", a interpretação dependerá sem-
pre do contexto da situação. Poderá ser entendida como uma
queixa, ou um pedido subentendido para se diminuir a tempe-
ratura do ar condicionado, etc., tendo em conta o contexto da