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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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pode ser analisado semioticamente (Berger, 1991: 4).
Segundo Saussure, os signos organizam-se em paradigmas
(conjunto de signos entre os quais se escolhem os que vão ser
usados) e em sintagmas (mensagem onde se combinam os signos
escolhidos). O vocabulário (inventário de todas as palavras de
uma língua) é um paradigma. As frases são sintagmas. Todas as
mensagens envolvem selecção de signos a partir de um paradigma
e combinação dos mesmos num sintagma.
Os códigos correspondem aos sistemas em que os signos se
organizam. Os códigos regem-se por regras aceites pelos utiliza-
dores desse código. Assim sendo, os códigos realçam a dimensão
social da comunicação (Fiske, 1993: 91). A língua portuguesa é
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um código regido pelas regras da gramática. Mas existem códigos
menos óbvios, como os códigos da etiqueta, os códigos de vestuá-
rio, etc. De acordo com Fiske (1993: 91), os códigos podem ser
divididos:
• Em códigos significativos (sistemas de signos) e códigos
de comportamento;
• Ou em códigos representativos (mensagens com existên-
cia independente, como este texto) e códigos apresenta-
tivos (de natureza indiciática e que não se podem referir a
algo independente deles mesmos e do seu codificador, como
um código de vestuário) (Fiske, 1993: 94). A comunicação
não-verbal realiza-se através códigos apresentativos, como
os gestos, a expressão facial, etc. (Fiske, 1993: 95).
Basil Bernstein (1973) distingue os códigos elaborados dos
códigos restritos. Esse autor diz que é a teia de relações sociais
que determina o código. Uma comunidade fechada tende a usar
códigos restritos; uma comunidade aberta, mais sujeita às trocas
comunicacionais, tende a comunicar com base em códigos ela-
borados. No entanto, uma comunidade aberta também pode usar
códigos restritos; e uma comunidade fechada também pode usar
códigos elaborados.
Falar de códigos restritos e elaborados não está relacionado
com a dimensão da comunidade que usa um determinado código,
mas sim com a natureza desse mesmo código e com o tipo de
relação social que ele pressupõe. Todavia podem distinguir-se os
códigos em função do número de utilizadores, existindo códigos
de grande difusão e códigos de pequena difusão.
Quando o interpretante não domina suficientemente bem o có-
digo usado pelo codificador, ou quando o primeiro não está total-
mente imerso no contexto do segundo, pode ocorrer o fenómeno
que Umberto Eco (1972) classifica como descodificação aber-
rante. Por exemplo, se estamos num país do qual não conhece-
mos os líderes políticos e vemos um rosto no telejornal com a
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legenda "Presidente da República", pensamos que esse rosto é o
do Presidente da República desse país. Mas pode não ser. A le-
genda pode estar trocada. Neste caso, pensarmos que aquele rosto
é o do Presidente é uma descodificação aberrante da mensagem.
2.1 Metáfora
A metáfora é um dos processos mais importantes e quotidiana-
mente repetidos de significação. A metáfora baseia-se em analo-
gias. Por exemplo, dizer-se que "o sistema educativo é uma casa
esburacada"é uma metáfora que põe a nu as debilidades desse sis-
tema. Da mesma maneira, dizer-se que "o orçamento é um queijo
suíço"coloca metaforicamente em evidência os défices orçamen-
tais.
A comparação é, frequentemente, metafórica. Pode mesmo
dizer-se que corresponde a uma metáfora com a partícula compa-
rativa bem relevada (como, semelhante a, parecer-se com, etc.).
Dizer "ela é doce como um bombom"refere-se à cordialidade, su-
avidade e afectividade de uma determinada pessoa. A palavra
que evidencia a comparação, "como", pode, porém, subtrair-se ao
enunciado, reforçando a própria metáfora: "ela é um bombom".
No entanto, esta última formulação metafórica está sujeita a uma
maior abertura à interpretação do que a primeira.
A metáfora explora, simultaneamente, as diferenças e as se-
melhanças. Pode dizer-se "o navio move-se sobre as ondas", que
não é uma linguagem metafórica. Mas também pode dizer-se "o
navio corta as ondas", que implica a utilização de uma metáfora,
já que cortar é próprio de objectos cortantes, como as facas. O
navio a avançar contra as ondas tem que ter semelhança com a
acção de cortar, pois só assim "navio"e "cortar"podem figurar no
mesmo paradigma. Mas a acção "cortar"tem que ter suficientes
diferenças com a acção "mover-se", para se poder evidenciar a
comparação e o contraste das acções.
Na linguagem visual a metáfora é mais rara. No entanto, em
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determinadas mensagens pode ser usada a metáfora visual, como
acontece em certos anúncios publicitários. Por exemplo, os ci-
garros Benson & Hedges publicaram um anúncio em que se vê
uma "chuva"de cigarros a atingir guarda-chuvas. É uma versão
visual da metáfora "estão a chover cigarros". A semelhança com
a chuva e a diferença entre cigarros e gotas de chuva são explora-
das simultaneamente.
2.2 Metonímia
Na metonímia, uma relação é sugerida por associação. A metoní-
mia consiste em tomar um conceito por outro (normalmente uma
palavra por outra), em função da relação que eles estabelecem.
Por exemplo, tomar Marte pela guerra, a garrafa pelo conteúdo
ou Paris pela França são metonímias.
A definição mais clássica de metonímia consiste em tomar a
parte pelo todo. Quando isto se processa, a metonímia adquire
a denominação de sinédoque (como acontece se tomarmos Paris
pela França). A selecção arbitrária de uma imagem de funcio-
nários da Bolsa de Nova Iorque a debitar febrilmente ordens de
compra e venda de acções e obrigações também funciona meto-
nimicamente como a imagem de toda a Bolsa, pois, na realidade,
o fenómeno bolsista é significativamente mais complexo. A si-
nédoque também pode referir-se à tomada do todo pela parte,
como em Portugal por Lisboa. A sinédoque é muito comum em
análises de opinião apressadas e infundadas (por exemplo, a ex-
pressão "todos afirmam que o Governo é mau"trata-se de uma
sinédoque, devido à utilização de "todos"pela parte daqueles que
efectivamente acham que o Governo é mau).
A antonomásia é uma espécie de sinédoque que consiste, ge-
ralmente, em tomar uma pessoa por uma qualidade, ou por outra
pessoa, ou ainda por uma acção. Por exemplo, falar do "funda-
dor da Monarquia Portuguesa"em vez de falar de D. Afonso Hen-
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riques é uma antonomásia. Falar do Presidente Jorge Sampaio
como "o príncipe"de Maquiavel é, igualmente, uma antonomásia.
Fiske (1993: 130) salienta que "a representação da realidade
envolve, inevitavelmente, uma metonímia: escolhemos uma parte
da realidade para representar o todo". O problema identificado por
Fiske é relevante: as referências que se têm da realidade são sem-
pre metonímicas. Isto é, construímos os nossos referentes sobre
a realidade baseando-nos em visões incompletas dessa realidade.
Esta é uma das razões pelas quais se pode dizer que a realidade
fenoménica, podendo ser compreensível, nunca pode ser cognos-
cível. A apropriação integral do objecto de conhecimento pelo
sujeito de conhecimento -ou seja, a objectividade ontológica- é,
assim, impossível.
2.3 Figuras de estilo
As figuras de estilo são das formas mais comuns de gerar sig-
nificação, quer na literatura, quer nos discursos que estabelece-
mos no quotidiano, quer nas reflexões e introspecções que fa-
zemos. A metáfora e a metonímia (incluindo a sinédoque) são,
como vimos, algumas das figuras de estilo -e estruturantes do
pensamento- mais comuns. Elas moldam estilisticamente os dis-
cursos, contribuem para os processos de significação e, ao mesmo
tempo, desvelam a produtividade da linguagem (a linguagem
nunca espelha a realidade) e mostram-nos como são imperfeitos
e incompletos os processos que os seres humanos usam para co-
nhecer. Mas existem outras figuras de estilo,