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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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outras formas de
atribuir significados ao mundo. No contexto das teorias da co-
municação e da significação, as mais importantes são, provavel-
mente, as que dizem respeito ao estabelecimento de relações sig-
nificantes entre duas realidades e as que intensificam ou atenuam
um discurso.
A personificação ou prosopopeia, por exemplo, é uma fi-
gura de estilo em que se atribuem qualidades humanas a outros
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seres, vivos ou inanimados, como em "a montanha ri-se para o
alpinista".
Através da antítese aproximam-se conceitos de sentidos opos-
tos, como em "o mundo político está cheio de estrume que cheira
bem". O oxímero é uma espécie de uma antítese mais elabo-
rada e requintada, em que dois termos com sentidos opostos ou
mesmo incompatíveis são associados, como no exemplo "foi o
dia mais negro do Governo". A sinestesia permite associar sensa-
ções que pertencem a sentidos diferentes, como em "a atmosfera
do encontro tacteia-se, tão densa que ela é". O paradoxo consiste
numa combinação de ideias contraditórias que aparentam ser mu-
tuamente exclusivas. A título de exemplo, pode dar-se a frase "o
diálogo é a força do Governo, mas é também a sua fraqueza".
Enquanto as figuras de estilo anteriores são chamadas de fi-
guras de oposição, porque contrapõem qualidades, outras figu-
ras intensificam ou atenuam determinadas qualidades. A hipér-
bole consiste no exagero de uma qualidade, como em "o Governo
gasta rios de dinheiro". Na ironia empregam-se palavras cujo sen-
tido literal é contrário ao sentido sugerido, como em "lindo ser-
viço". O sarcasmo corresponde a uma intensificação cruel e sá-
dica da ironia, sendo, normalmente, direccionado para quem não
pode defender-se, como na frase: "se o Governo quer favorecer
os trabalhadores, que elimine o IRS". O eufemismo consiste no
emprego de uma expressão neutra em substituição de um termo
negativo, como acontece quando se usa a expressão "mulher da
vida"como sinónimo de prostituta ou "casa de meninas"como si-
nónimo de bordel ou "deficientes auditivos"como sinónimo de
surdos. Nos casos atrás relatados está-se também perante perí-
frases (a perífrase é a figura de estilo que consiste no emprego
de um grupo de palavras em vez de um signo só). O disfemismo
é a figura de estilo inversa, consistindo na intensificação de algo
negativo (por exemplo, chui em vez de polícia). O litote corres-
ponde à negação do contrário do que se quer dizer, como em "o
Presidente não é nada tolo".
O estrangeirismo consiste no emprego de signos que não
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pertencem à língua do texto, como quando se emprega o termo
"gay"para se falar de um homossexual ou quando se fala de um
"site"na Internet.
A enunciação proverbial ocorre quando se usa um provér-
bio para fazer apelo à "sabedoria popular", fundindo-a com a voz
do enunciador. Eventualmente, um provérbio pode também ser
usado ironicamente. Algo semelhante pode ser obtido com o re-
curso a slogans e títulos de filmes, músicas, livros etc. conhe-
cidos. Nestes casos está-se perante fenómenos de intertextuali-
dade.
Os plebeísmos correspondem à introdução de termos próprios
do discurso vulgar num discurso de nível linguístico superior ou
erudito, como em "baixar as orelhas"em vez de submissão ou "le-
var um puxão de orelhas"em vez de repreensão.
A elipse corresponde à supressão de palavras, como em "Bush
decidiu"(começar a guerra), sendo que, neste caso, o verbo tran-
sitivo decidir surge sem complemento directo.
A hipernomínia corresponde à substituição, frequentemente
eufemística, de um termo por outro mais geral, como em "Que
fizeram os iraquianos para merecer isso?"(sendo "isso"a guerra).
Também há a considerar as figuras de estilo fonéticas, como a
aliteração (repetição de sons, como em "pendurado pelo pescoço".
2.4 Estereótipos
Walter Lippmann (1922) escreveu em Public Opinion que os meios
de comunicação não reproduzem a realidade, mas sim representa-
ções dessa realidade. As representações da realidade interpõem-
se entre o homem e a realidade. Lippmann compreendeu, de al-
gum modo, que a mente humana distorce o real, pois as pessoas
vêem o mundo com base nas suas emoções, hábitos e preconcei-
tos (Steel, 1981: 181). Lippmann e, depois dele, o seu biógrafo
Ronald Steel, colocaram em evidência que muitas vezes as pes-
soas, para conferirem sentido ao mundo, recorrem a estereótipos.
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Os estereótipos são esquemas cognitivos de abordagem da re-
alidade que se manifestam na língua e que têm sempre por trás
uma avaliação emotiva e preconceituosa da realidade. Por exem-
plo, quando pensamos nos ciganos, frequentemente pensamos num
estereótipo do cigano, quiçá homem barbudo, violento, sempre
vestido de negro, amante da música, vendedor ou marginal, com
forte sentido de família. Mas a realidade é bem mais complexa
do que o pensamento estereotipado que temos dos ciganos. Há
muitos ciganos que não se enquadram nesse estereótipo. Há ci-
ganos que são pessoas de sucesso extremamente bem integradas
na nossa sociedade. Aliás, nem sequer nos apercebemos de que
se tratam de ciganos. Os estereótipos são, portanto, redutores,
minimizando as diferenças entre os elementos que nele se podem
enquadrar (o estereótipo dos ciganos minimiza as diferenças en-
tre eles). O problema é que, quando nos falam de alguma coisa
da qual temos uma imagem estereotipada, tendemos a recorrer a
estereótipos para interpretar a mensagem.
Os estereótipos não funcionam isolados. Eles fazem parte do
sistema lógico e coerente com que olhamos para o mundo. Todos
temos imagens de padres, freiras, maçons, burgueses, comunistas,
muçulmanos, construtores civis, cientistas, teóricos da comunica-
ção, professores, etc. e tendemos a recorrer a todas essas ima-
gens estereotipadas para conferir sentido ao mundo. Quanto mais
usamos a emoção em detrimento da razão, quanto mais envereda-
mos pelo conhecimento do senso-comum em detrimento do pen-
samento racional (filosófico ou científico), mais tendemos a cair
num pensamento estereotipado.
É muito difícil mudar os estereótipos, porque fazem parte da
matriz cultural profunda de uma sociedade (Szymaniak et al.,
2000: 93).
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2.5 Mitos
Os mitos são histórias de que as pessoas dentro de uma deter-
minada cultura se servem para explicar fenómenos da realidade.
São, portanto, uma das formas de conferir sentido ao mundo por
parte de uma comunidade, de dar sentido à existência e ao agir. O
alimento do mito é a crença.
Fiske (1993: 120-121) explica que os mitos antigos diziam
respeito "à vida e à morte, aos homens e aos deuses, ao bem e ao
mal", enquanto os modernos, mais sofisticados, "incidem sobre
a masculinidade ou feminilidade, sobre a família, sobre o êxito,
sobre o polícia britânico, sobre a ciência".
Barthes (1973) editou um livro unicamente consagrado ao es-
tudo semiótico do mito (Mitologies). Para ele, as culturas usam
o mito como uma forma de conceptualizar e compreender a reali-
dade. Ou seja, o mito só faz sentido numa determinada cultura.
Segundo Barthes (1973), o mito funciona com base em vá-
rios conceitos inter-relacionados. Por exemplo, o "homem mas-
culino"é o homem de feições quadradas, tipo George Clooney,
firme, galante, sedutor, seguro de si, sólido, amante de desporto
mas também de uma bebida, capaz de grandes performances se-
xuais. O mito da masculinidade, como se vê, baseia-se em vários
conceitos inter-relacionados.
Barthes (1973) apresentou o seguinte esquema de funciona-
mento do mito:
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Interpretando o esquema, os signos reportam-se à realidade. O
significado imediatamente construído a partir do significante cor-
responde à significação de primeira ordem do significante. Mas
há significações