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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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do infra-eu por obstáculo do
super-eu e que o indivíduo não é capaz de voluntariamente evo-
car e controlar. O problema coloca-se, segundo Freud, no facto
de o inconsciente ter um papel determinante no comportamento e
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nas atitudes do sujeito. Este papel é, frequentemente, superior ao
papel do consciente.
A associação livre é o principal método usado pelo psica-
nalista para penetrar no inconsciente do sujeito e aí encontrar os
conflitos não resolvidos entre o infra-eu e o super-eu, que estão na
origem de comportamentos neuróticos ou incompreendidos e que
são expressos simbolicamente. Nos sonhos, evocados por auto-
análise, podem encontrar-se, igualmente, traços desses conflitos
não resolvidos entre o infra-eu e o super-eu. Os sonhos projectam
imagens simbólicas desses conflitos, com base em signos que o
psicanalista pode interpretar. Nos desenhos das crianças e nos ra-
biscos dos adultos encontram-se também imagens com um simbo-
lismo potencial, representativas dos impulsos inconscientes. Na
utilização de certos objectos, em alguns comportamentos ou em
determinadas atitudes, também é possível descobrir imagens sim-
bólicas dos desejos, preocupações e aspirações do inconsciente
humano. Interpretar os sonhos e os comportamentos é função do
psicanalista. Aliás, os comportamentos são também uma forma
de comunicação que interessa aos comunicólogos, tanto quanto
a utilização de determinados signos impulsionada pelo inconsci-
ente.
Dichter (1964), por exemplo, sustenta que a utilização de um
isqueiro em detrimento de um fósforo representa o desejo de po-
der, pois a habilidade de controlar o fogo era uma manifestação de
poder na pré-história. A chama representa a potência sexual. Para
o autor, quando um isqueiro falha frustra o desejo de controle,
dominação e poder do seu possuidor (Dichter, 1964: 341). Aliás,
para Dichter (1964), e em consonância com Freud, vários objec-
tos e comportamentos estão relacionados com a sexualidade e as
repressões a que ela é sujeita desde a infância, que se acumulam
no inconsciente. A utilização de objectos que têm uma figuração
fálica seria relativamente óbvia (canetas, aviões, etc.). O desenho
de um avião por um adulto representaria o seu desejo de potên-
cia sexual e dominação. Da mesma maneira, a preferência por
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carros com motores "musculados"representaria, igualmente, esse
enorme desejo de potência sexual e superioridade.
A noção de complexo de Édipo também é cara a Freud. Para
ele, todos passamos por uma fase em que desejamos sexualmente
o progenitor do sexo oposto, a um nível inconsciente, e a morte
do progenitor do mesmo sexo. As crianças do sexo masculino
têm ainda um medo intenso de castração, enquanto as do sexo
feminino têm inveja do pénis. Os rapazinhos procuram, assim,
devido ao medo de castração, renunciar ao seu amor pelas mães e
identificar-se com a masculinidade dos progenitores do sexo mas-
culino. A musculação, a utilização de jeans apertados, etc. simbo-
lizam esse apego edipiano à masculinidade. As meninas procuram
identificar-se com as suas mães para evitar a perda do amor dos
pais. Procuram, ainda, encontrar homens que lhes dêem bebés
delas próprias e que as compensem por não possuírem pénis. O
comportamento seria, assim, altamente simbólico e revelaria o in-
consciente das pessoas. A publicidade explora sabiamente todas
essas aspirações não conscientes do ser humano.
A maior parte das pessoas aprenderia a resolver o seu com-
plexo de Édipo, mas outras não, de onde decorreriam comporta-
mentos neuróticos e obsessivos, como a musculação intensiva ou
a busca incessante de novas parceiras, nos homens, ou a ninfoma-
nia, nas mulheres.
A noção de complexo de Édipo pode também, obviamente, ser
aplicada à comunicação mediada. Por exemplo, nos filmes da he-
xalogia A Guerra das Estrelas, as relações entre Luke Skywalker
e Darth Vader são, em grande medida, edipianas.
Outra noção interessante de Freud é a de sentimento de culpa.
Este sentimento relaciona-se, segundo Freud, com a repressão
da agressividade pelo super-ego, já que a agressividade tende a
destruir as relações humanas e até a sociedade e a civilização.
Sentimo-nos culpados de sermos instintivamente agressivos com
aquilo ou com quem nos revolta e ao mesmo tempo culpados de
não confrontarmos a civilização, que nos faz reprimir o prazer, es-
pecialmente o prazer sexual, e os nossos instintos agressivos con-
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tra aquilo ou contra quem nos revolta. Por isso, segundo Freud,
recorremos frequentemente ao humor, à ironia, ao sarcasmo e à
paródia para encontrarmos formas socialmente aceitáveis de co-
municar a nossa agressividade.
Carl Jung, discípulo e amigo de Freud, afastou-se das posi-
ções deste último para criar a sua própria escola, a que chamou
psicologia analítica.
Ao contrário de Freud, Jung acreditava que as pessoas não
são apenas orientadas pelo seu passado, mas também pelos seus
objectivos futuros. Manifestou, assim, um certo optimismo em re-
lação ao homem, que para ele se consegue individualizar no seio
do colectivo. O princípio da individualização, segundo Jung,
não leva, porém, ao isolamento, mas sim à intensificação da cons-
ciência colectiva. Aliás, para Jung o comportamento do adulto
não é exclusivamente determinado pelos acontecimentos da in-
fância, como, de certa forma, pretendia Freud, mas também pelo
passado ancestral da humanidade. Deste modo, para Jung há
dois inconscientes: o inconsciente pessoal, conforme pretendia
Freud; e o inconsciente colectivo, proposto inovadoramente por
Jung.
O inconsciente colectivo, que é uma noção que interessa bas-
tante às ciências da comunicação, é uma espécie de armazém de
memórias e de padrões comportamentais herdados dos nossos an-
tepassados. Na versão de Jung, todos os povos de todos os tempos
tiveram ou têm um inconsciente colectivo. Os mitos são uma das
expressões mais evidentes do inconsciente colectivo.
Jung foi mais longe nessa sua noção de inconsciente colec-
tivo, tendo proposto que existe um fundo universal de imagens e
símbolos fundamentais.
A noção de inconsciente colectivo foi aplicada cedo aos estu-
dos comunicacionais. Por exemplo, em 1940, os pesquisadores
Nathan Leite e Martha Wolfenstein sustentaram, no livro Movies:
A Psychological Study, que o cinema americano vivia da figura do
herói solitário sempre a enfrentar ameaças externas, tendo con-
cluído que isso representava a forma como os americanos se viam
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inconscientemente a si mesmos e ao país. O cinema permitiria
revelar as aspirações, as preocupações e os desejos inconscientes
de um povo2.
Em 1947, Siegfried Kracauer lançou uma história psicológica
do cinema alemão, intitulada From Caligari to Hitler, baseada,
igualmente, na ideia de que os filmes revelam o inconsciente co-
lectivo de um povo, tal como acontece com os sonhos em relação
ao indivíduo. Ou seja, por outras palavras o autor sustentou que
através do cinema se pode descodificar o inconsciente colectivo
de um povo. Deste modo, para Kracauer, a popularidade dos te-
mas narrados nos filmes é mais importante do que a popularidade
dos filmes. Kracauer chegou, assim, à conclusão de que os filmes
alemães anteriores à Segunda Guerra Mundial revelavam um de-
sejo inconsciente do povo alemão pela aparição de um líder forte
que pusesse termo ao caos, o que abriu caminho a Hitler3.
Uma seguidora da metodologia aberta por Kracauer, Barbara
Deming, concluiu, por seu turno, num estudo publicado em 1950,
intitulado Running Away from Myself, que os heróis nos filmes
americanos da década de quarenta eram retratados como pessoas
insatisfeitas, que descobriam que mesmo o sucesso era algo vazio.
Para ela, esse padrão revelava que os americanos se sentiam em
crise