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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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para que um aluno se
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consciencialize de que não sabe o suficiente, ou de que não mani-
festa suficiente competência em algum domínio, é melhor repro-
var esse aluno do que ceder à sempre eterna chantagem emocional
(em que eu próprio caio, estou, humanamente, consciente disso)
do "seja generoso a corrigir os testes".
Têm-se alimentado as ideias perversas de que a escola e a Uni-
versidade devem "dar prazer"e de que só devemos fazer e escolher
"o que gostamos". Se a escola e a Universidade puderem dar pra-
zer, tanto melhor, mas a escola e a Universidade são, antes de
mais, um lugar de trabalho, e o trabalho, normalmente, envolve
sacrifício, esforço, dedicação, não prazer, ou não apenas prazer.
Não podemos ser irrealistas ao ponto de pensar que vamos poder
fazer, pela vida fora, unicamente o que queremos e nos dá prazer.
Pelo contrário, a vida, muitas vezes, obriga-nos a fazermos coisas
de que não gostamos nem nos dão prazer. Na Universidade, como
sucede na vida profissional, um estudante terá, normalmente, de
estudar coisas de que gosta e lhe dão prazer e coisas de que não
gosta nem lhe dão prazer. É bom, por isso, que um aluno se ha-
bitue a ver em cada nova disciplina do curso mais um desafio que
tem de superar, independentemente de gostar ou não dos conteú-
dos, até porque também não pode pedir a um professor que faça
o milagre de pôr o discente a gostar daquilo que não gosta. O
professor deve, porém, contribuir para que a matéria seja compre-
ensível, apresentando-a de forma sistematizada, simples e clara.
Foi isso que procurei fazer neste trabalho, que elaborei pensando
no tipo de livro de apoio que gostaria de ter tido no meu percurso
de graduação.
Ao escrever estas palavras, veio-me à mente a imagem de um
aluno que, numa das últimas aulas do semestre, me criticou, em
sala de aula, por "impingir livros", "vender bilhetes para congres-
sos"e "só ensinar teoria"(a aula era de Teoria da Notícia), pelo
que não lhe dava "prazer"assistir às minhas aulas. Disse também
que, quanto mais contactava com jornalistas profissionais, mais
"desprezo"votava "aos teóricos e às teorias". A conversa decor-
reu do facto de eu ter começado a aula por anotar as presenças,
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em conformidade com o regulamento pedagógico da minha Uni-
versidade, pelo que o aluno se achou no direito de me perguntar,
quando foi chamado, se alguém conseguia fazer a disciplina sem
frequentar as aulas. Bem, descontando o facto de ser a primeira
aula a que o aluno assistia, apesar de estarmos no final do semes-
tre, o que causa alguma estranheza, já que o discente parecia falar
com muito conhecimento de causa das minhas "chatas"aulas, a
postura do referido aluno é um dos sintomas de um entendimento
perverso da educação, que confunde trabalho e estudo com "pra-
zer"e acha que a escola deve dar "prazer". O ponto de vista do
estudante em causa corresponde, também, a uma distorcida visão
da teoria da comunicação, já que conhecer a teoria da comunica-
ção é essencial para se compreenderem e dominarem performa-
tivamente as técnicas profissionais e para se entender o que está
em causa no desempenho das profissões "da comunicação"(aliás,
as profissões da comunicação são, do meu ponto de vista, pro-
fissões técnicas, como qualquer engenharia - um engenheiro ci-
vil precisa de conhecer, em teoria, como se faz uma ponte, tal e
qual como o jornalista, o publicitário ou o relações públicas ne-
cessitam de entender a teoria do jornalismo, da publicidade ou
das relações públicas, para poderem desempenhar performativa-
mente a sua profissão). É bom que se relembre, neste contexto,
a velha máxima de que "o saber não ocupa espaço e sai barato, a
ignorância é que sai cara". Finalmente, a percepção do estudante
em causa distorce as qualidades que um discente deveria reconhe-
cer num seu professor e revela incompreensão completa pelo que
deve ser a vivência universitária e a relação professor-aluno. Por
um lado, o acto de publicar livros é uma exigência da carreira pro-
fissional de um docente universitário, pois deste espera-se, como
se disse, que produza e divulgue conhecimento. Por outro lado,
incentivar os alunos a participar em congressos científicos é levá-
los a perceber a importância de se enriquecerem curricular, pes-
soal, científica e tecnicamente, aproveitando ao máximo a riqueza
da vida universitária. Num mundo competitivo, em que os alunos
de Ciências da Comunicação, no final do seu curso, terão de en-
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frentar centenas de candidatos com idênticas habilitações quando
concorrerem a um emprego, o que contará é aquilo que distingue
curricularmente cada estudante e as competências que individual-
mente demonstre, não o que cada estudante fez de igual a todos
os outros.
A Universidade, por definição, é um espaço em que se cultiva
o saber e cultivar o saber dá trabalho e exige esforço. Quem pro-
cura prazer em vez de trabalho e estudo, não deve ingressar numa
Universidade. O melhor que tem a fazer é arranjar uma namorada,
ou um namorado, ou viajar, ou fazer seja lá o que for que lhe
dê "prazer". A frequência da Universidade deve ser uma escola
de vida, de profissionalismo e de exigência, de competição, de
mérito, de cumprimento de regras, não de facilitismo, sobretudo,
não de facilitismo em nome do "prazer". Na vida profissional, em
particular no sector privado, os alunos não serão tão protegidos
quanto o são durante o seu percurso universitário. É bom, por
isso, que os estudantes se habituem às competitivas exigências do
mundo laboral.
Ofereço, assim, este livro ao julgamento público e, em parti-
cular, ao julgamento dos meus "bons"alunos, que, independen-
temente das notas obtidas, são todos os que, tendo uma rela-
ção cordial, ética e civicamente irrepreensível com o seu profes-
sor, se empenham responsável e laboriosamente na construção do
seu próprio conhecimento sobre o mundo da comunicação e na
aquisição de competências que lhes permitam ter sucesso na sua
vida profissional e os diferenciem dos demais estudantes. Ofe-
reço também este livro ao julgamento dos meus colegas e pares, a
quem agradeço feedback, para poder, no futuro, corrigir aspectos
menos bem conseguidos e eventuais erros ou omissões.
Finalmente, reforço a advertência que já fiz no prólogo à pri-
meira edição: não pretendo suscitar unanimidades com este livro.
Há várias perspectivas admissíveis em muitas áreas das Ciências
da Comunicação e a minha é uma delas. Espero, somente, que
tenha conseguido fundamentar bem as minhas posições.
Jorge Pedro Sousa, Agosto de 2005
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16 Jorge Pedro Sousa
Prólogo à primeira edição
Este livro nasceu da necessidade de providenciar apoio pedagó-
gico aos alunos da disciplina de Teoria da Comunicação e dos
Media, do curso de Ciências da Comunicação da Universidade
Fernando Pessoa (Porto, Portugal). No entanto, é ambição deste
livro ser útil aos estudantes de graduação em Ciências da Comu-
nicação em geral. Trata-se de um trabalho que pretende proporci-
onar ao estudante uma introdução básica e compreensiva a alguns
dos tópicos mais relevantes das teorias da comunicação e dos me-
dia, numa linguagem o mais simples possível.
O mundo da comunicação é demasiado vasto para se poder fa-
lar de toda a construção teórica que tem sido elaborada para aju-
dar a compreender melhor os processos comunicacionais. Esse
mundo estende-se da comunicação animal, estudada pela etolo-
gia1, à comunicação humana, nas suas mais diversificadas formas,
passando pelos vários fenómenos ambientais e naturais que se po-
dem considerar como sendo, de algum modo, comunicacionais.
Por isso, qualquer livro que aborde o universo da comunicação
necessita de definir uma orientação e um enquadramento. Este
manual direcciona-se, assim, para o estudo das formas