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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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renascentista, a fome de conhecimento originada
pelos descobrimentos e a tipografia gutemberguiana detonaram a
explosão da comunicação.
O sucesso da imprensa ter-se-á devido à interacção de vários
factores:
• Os dispositivos técnicos tipográficos foram continuamente
aperfeiçoados, permitindo cada vez maiores tiragens, em
menos tempo e com melhor qualidade;
6 O primeiro texto impresso data de cerca de 868, altura em que se imprimiu
na China a Satra do Diamante, com caracteres de argila. Foram também os
chineses a inventar o papel, que se introduziu na Europa apenas no século XII.
7 O Weltgericht (Juízo Final), publicação atribuída a Gutenberg, terá sido
elaborado entre 1444 e 1447, constituindo o mais antigo testemunho da tipo-
grafia com caracteres metálicos móveis agrupados. Dele apenas se salvou um
fragmento. A Bíblia de 42 linhas, ao que tudo indica primeiro livro impresso
com caracteres metálicos móveis, foi publicada cerca de 1455 por Füst e Scha-
effer, credores de Gutenberg, que se apropriaram da sua oficina e usaram o
método tipográfico de Gutenberg para imprimir o livro. Aliás, essa Bíblia fi-
cou para sempre apelidada de Bíblia de Gutenberg, embora não tenha sido ele
o editor.
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• Ao diminuir os custos de impressão e ao permitir tiragens
maiores de cada obra, a imprensa estimulou o acesso à lei-
tura. Um maior acesso à leitura significou mais procura e
isto permitiu ainda maiores tiragens, o que reduziu ainda
mais o custo por exemplar;
• Os livros, revistas e jornais incentivaram a instrução e esta,
retroactivamente, incentivou a leitura. Com os hábitos de
leitura, veio o gosto de ler;
• Os textos impressos e a instrução alimentaram a curiosi-
dade, o interesse pelo mundo, a fome de conhecimento, o
que por sua vez se reflectiu nos índices de leitura.
Livros, jornais e revistas transformaram a civilização, molda-
ram a esfera pública moderna e modificaram a cultura. A circu-
lação massiva de textos impressos foi um dos factores que con-
tribuiu para as grandes mudanças político-sociais que germina-
ram a partir do século XVI e que vieram a culminar na ascen-
são da burguesia, na formação do espírito demo-liberal e no der-
rube do Antigo Regime. A Revolução Gloriosa inglesa, a Re-
volução Francesa e a Revolução Americana, por exemplo, de-
vem muito à imprensa. A Revolução Liberal portuguesa de 1820,
grande responsável pela explosão de jornais no nosso país, tam-
bém deveu muito a esse fervilhar ideológico possibilitado pela
imprensa. Mais tarde, já em 1917, a Revolução Russa (reacção
anti-burguesa) coroou a fase de processos revolucionários fomen-
tados pela imprensa. Em 1989, quando se dá a queda do muro de
Berlim e começa o colapso da União Soviética, já eram outros os
meios imperantes.
Na génese da Revolução Francesa de 1789 esteve, de facto,
uma actividade fervilhante de troca de ideias, possibilitada pela
imprensa e animada por filósofos como Voltaire, Montesquieu ou
Rousseau. Além dos livros, já existiam jornais impressos, em-
bora de circulação relativamente restrita, já que ainda eram caros
e havia poucos alfabetizados.
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Os enciclopedistas Diderot e D’Alembert lançaram, em 1780,
a Enciclopédia, projecto inspirado em obra semelhante do inglês
Ephraim Chambers, lançada em 1727. A Enciclopédia, com 17
volumes, pretendia reunir os conhecimentos da época numa única
publicação. Inicialmente, o poder instituído interditou a obra. Se-
gundo Hohlfeldt (2001: 89), vários dos colaboradores abandona-
ram o projecto para não serem presos. Mas quando foi dispo-
nibilizada, a Enciclopédia teve sucesso, demonstrando que a sede
social pelo conhecimento encontrava eco na Europa das luzes, não
obstante os receios do poder real absolutista e da nobreza privile-
giada, que talvez já pressentissem até que ponto o sistema estava
condenado.
Vários factores contribuíram para a explosão e sucesso da
comunicação social ao longo do século XIX. Em primeiro lu-
gar, as vias de comunicação permitiram a circulação de pessoas a
maior velocidade e com maior facilidade. O turismo começou a
desenvolver-se. Outros factores foram o crescimento económico,
o enriquecimento, a escolarização e a alfabetização (consequên-
cias do triunfo burguês e das ideias de liberdade, igualdade e fra-
ternidade propagadas pela Revolução Francesa), a urbanização e
o liberalismo político (que estimulava o exercício da cidadania
em liberdade). O desenvolvimento da tipografia (pela agregação
da máquina a vapor às impressoras) e os processos industriais de
fabrico de papel permitiram, por seu turno, o embaratecimento
dos materiais impressos (livros, jornais, folhetos...) e o aumento
exponencial do número de cópias. Conquistavam-se novos públi-
cos para os jornais e para a literatura, entre os quais os estudantes
e as mulheres (Hohlfeldt, 2001: 90).
O aparecimento da imprensa foi a primeira etapa da democra-
tização da cultura, mas também desencadeou um processo de es-
tandardização e simplificação das mensagens que vulgarizou essa
mesma cultura.
Segundo Habermas (1984), o conceito de espaço público pode
aplicar-se à democracia ateniense, uma vez que os cidadãos parti-
cipavam no processo de discussão política de informações e opi-
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niões que levava à tomada de decisões. Mas, segundo o mesmo
autor, é apenas no século XVIII que verdadeiramente nasce o es-
paço público moderno (ou esfera pública) e que surgem os con-
ceitos de público (no sentido do que deve ser publicitado, tornado
público) e privado.
A noção de espaço público inicial de Habermas corresponde
ao espaço onde se formam as opiniões e as decisões políticas e
onde se legitima o exercício do poder. É o espaço do debate e
do uso público da razão argumentativa. Concretizava-se, inicial-
mente, na vida social, nos debates racionais sobre política, econo-
mia, assuntos militares, literatura e artes que ocorriam nos cafés,
clubes e salões, bem ao gosto do espírito iluminista. Porém, a ex-
plosão da imprensa transferiu para os jornais e revistas os debates
que anteriormente se desenvolviam nesses lugares. A imprensa
tornou-se, assim, a primeira grande instância mediadora na confi-
guração do espaço público moderno. Deste modo:
"a formação moderna da opinião pública ao longo
do Iluminismo ocorre inicialmente em espaços ínti-
mos de discussão de ideias, com apresentação em pri-
meira mão das obras, para medir as reacções, transfe-
rindo-se, depois, para os debates mediatizados pelos
meios impressos, por colaboração de uma intelectu-
alidade crítica nascente. O princípio da publicidade,
defendido pelos burgueses cultivados, opõe-se à prá-
tica do segredo (...). Ao fazê-lo, a burguesia cria um
autêntico estado de mediação entre a sociedade ci-
vil e o Estado (esfera do poder público). O público
forma-se quando os indivíduos se reúnem para fa-
lar. A palavra "público"adquire o seu presente signi-
ficado, referindo-se a uma área da vida social à mar-
gem do domínio familiar e dos amigos íntimos (...).
Em tal espaço público burguês utilizam-se instrumen-
tos, como a imprensa de opinião e as diferentes for-
mas de representação política, que confluem na for-
mação da opinião pública (...), espécie de árbitro en-
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tre opiniões e interesses particulares. À comunicação
interpessoal sucede a comunicação dos meios de in-
formação, que os séculos XIX e XX virão alargar. Ao
mesmo tempo que cresce o número de leitores de jor-
nais, a imprensa de intervenção política, fundamental
no período primitivo dos media, perde a sua influên-
cia."(Santos, 1998: 10-118).
Segundo Habermas (1984), a integração de mais cidadãos,
menos cultos, no espaço público e, portanto, nas discussões polí-
ticas, devido à força da imprensa, prejudicou a coerência