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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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bém beneficiou dos contributos dos primeiros historiadores gre-
gos, como Tucídides e Xenofonte, que legaram à posteridade re-
latos relativamente factuais de grandes acontecimentos que teste-
munharam11.
Como se disse, as Actas nasceram no final da República Ro-
mana, por ordem de Júlio César. Primeiramente eram apenas afi-
xadas, mas rapidamente começaram a circular sob a forma de per-
gaminho. As Actas relatavam as sessões do Senado Romano e re-
ferenciavam alguns acontecimentos importantes para o Império.
Circularão por todo o Império, dando a conhecer o que se passava
em Roma e nas diferentes províncias imperiais.
As cartas e as Actas abriram caminho às crónicas medievais,
uma espécie de reinvenção dos antigos relatos históricos. As rela-
ções de factos importantes saíam da pena dos cronistas. As cróni-
cas eram copiadas à mão e remetidas aos nobres, aos eclesiásticos
e a outras personalidades importantes. No século XV, surgiram na
Europa as folhas volantes, também conhecidas por folhas ocasio-
nais, e, no século XVI, as gazetas. As primeiras eram uma espécie
de relatos, normalmente individualizados, de curiosidades e fac-
tos históricos, por vezes completamente inventados, outras vezes
abordados com intuito moralista; as segundas eram colectâneas
de notícias, nem sempre rigorosas, e, com o tempo, começaram
a ter periodicidade regular, fazendo uma relação das principais
notícias (pelo que também são conhecidas por relações) durante
um determinado período de tempo (o problema da veracidade das
notícias, contudo, manteve-se).
Numa sociedade pouco escolarizada, as gazetas e as folhas
11 Embora se considere que Heródoto foi o "pai "da História, os generais
gregos Tucídides e Xenofonte foram os primeiros a escrever crónicas históricas
relativamente factuais e, acima de tudo, pouco contaminadas com interpreta-
ções míticas. Ao contrário do que sucede nos escritos de Heródoto, nos livros
de Tucídides e Xenofonte fica claro que o curso da História se deve às acções
dos homens, às rivalidades entre povos e estados, às políticas expansionistas,
etc., e não a acontecimentos mitificados.
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ocasionais eram, muitas vezes, lidas em público por pessoas que
cobravam uma certa quantia de dinheiro a quem queria ouvir as
notícias. A denominação "gazeta "deve-se, inclusivamente, a uma
moeda italiana que correspondia ao preço exigido para se poder
ouvir aquilo que as gazetas diziam.
Para o aparecimento da noção de periodicidade, fundamental
para o jornalismo, contribuíram bastante as compilações de notí-
cias aparecidas em várias folhas volantes e gazetas ocasionais fei-
tas por alguns empreendedores. Inicialmente, essas colectâneas
apareciam anual e semestralmente, sendo, por vezes, conhecidas
por mercúrios, mas rapidamente se tornaram mensais, quinzenais
e semanais, à medida que o seu volume diminuía em idêntica pro-
porção. No século XVII já existiam, na Alemanha, gazetas diá-
rias. No século XVIII, os jornais diários tornaram-se vulgares.
3.2.1 História breve do jornalismo impresso
A possibilidade de contar histórias e novidades e de as difundir
para um número vasto de pessoas ganhou nova expressão, como
se disse, com as invenções de Gutenberg, na década de quarenta
do século XV. Se bem que a tipografia com caracteres móveis
já existisse antes, Gutenberg inventou um processo de criação de
inúmeros caracteres a partir de metal fundido. A instalação de
tipografias um pouco por toda a Europa permitiu a explosão da
produção periódica de folhas volantes, mercúrios e gazetas.
É grande a controvérsia sobre qual teria sido o primeiro jor-
nal impresso digno do nome. Segundo Costella (1984: 83), para
alguns historiadores o mais antigo jornal impresso da história é
o Noviny Poradné Celého Mesice Zari Léta 1597 (Jornal Com-
pleto do Mês Inteiro de Setembro de 1597), mensário editado em
Praga por Daniel Sedltchansky, a partir de 1597. Mas outros his-
toriadores preferem dar as honras de primeiro jornal impresso ao
semanário Nieuwe Tijdinghen, criado em Antuérpia por Abraão
Verhoeven, em 1605. De qualquer modo, pode dizer-se que du-
rante o século XVII os jornais impressos (e mesmo manuscritos)
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vão tornando-se comuns por toda a Europa. Por exemplo, em
1622, surge em Inglaterra, o Weekly News. Em 1611, aparece, em
França, o Mercure Français.
Observando a força com que a imprensa se instalava e o poder
que detinha, os governantes começaram a controlar as publica-
ções periódicas, adoptando um sistema de concessão de licenças
a pessoas da sua inteira confiança. Dentro deste espírito, a Gazete
de France, ao serviço do cardeal Richelieu e do absolutismo, ini-
ciou a sua publicação regular em 1631. Em Inglaterra, a London
Gazete, lançada pouco depois, serviu o rei Carlos II. O nasci-
mento da imprensa periódica portuguesa pode situar-se em 1641,
com o lançamento da Gazeta em Que se Relatam as Novas Todas,
Que Ouve Nesta Corte, e Que Vieram de Várias Partes no Mês de
Novembro de 1641, mais conhecida simplesmente por Gazeta12.
Este jornal durou até Setembro de 1647, embora a sua publicação
tenha sido suspensa em vários períodos, devido, entre outros fac-
tores, à imprecisão das notícias que publicava. O primeiro jornal
diário generalista e noticioso surge na Alemanha, em Leipzig
(Leipziger Zeitung), em 166013.
Da Europa rapidamente a imprensa alastrou à América. Em
Boston, surgiu, em 1690, o Public Occurrences Both Foreign and
Domestic. Foi fechado quatro dias depois pelas autoridades britâ-
nicas. Em 1704, foi lançado o Boston News-Letter, que substituiu
o Public Occurences.
O primeiro jornal diário impresso em língua inglesa foi o Daily
12 Na verdade, as primeiras gazetas portuguesas de que se têm registos datam
de 1627 e1628, tendo periodicidade anual, mas como apenas se publicaram, ao
que se sabe, dois números, pode adiar-se para 1641 o verdadeiro início do
jornalismo português.
13 Na verdade, este jornal não saía todos os dias da semana, razão pela qual
alguns autores dão ao jornal britânico Daily Courant, de 1702, a primazia de
ter sido o primeiro diário, mas como era publicado mais de quatro dias por
semana cabe por inteiro na definição contemporânea de jornal diário dada pela
UNESCO. Há, de qualquer modo, indicações de que outros jornais alemães
do século XVII foram publicados diariamente, sete dias por semana, pelo que
dificilmente o Daily Courant pode ser considerado o primeiro diário.
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Courant, criado em Inglaterra por Elizabeth Mallet, em 1702. Era
apenas "uma folha de papel ", mas não só mostrou que as pessoas
queriam conhecer rapidamente as notícias como também contri-
buiu para transformar o conceito de actualidade.
Até aos princípios do século XIX, a evolução técnica da indús-
tria gráfica foi muito lenta. Mas tudo se alterou com a invenção
da rotativa por Koning, em 1812, que passou a permitir a pro-
dução de um número elevado de cópias a baixo preço. O triunfo
do liberalismo em várias partes do mundo, incluindo em Portugal
(1820), com influência directa no Brasil, e a influência das revolu-
ções Americana e Francesa e, antes delas, da Revolução Gloriosa
Inglesa, inaugurou um período de liberdade de expressão que im-
pulsionou a criação de jornais no Ocidente.
Os primeiros jornais diários portugueses, a Gazeta de Lisboa e
o Diário Lisbonense, começaram a editar-se diariamente em 1809
(a Gazeta de Lisboa já existia, mas não tinha periodicidade diá-
ria). Mas será apenas com o aparecimento do Diário de Notí-
cias, no final de 1864 (número de apresentação), que o jornalismo
português entrará na modernidade. Com o aparecimento do DN,
rompeu-se com a tradição da imprensa opinativa, em favor da im-
prensa informativa de qualidade14, e começou a trilhar-se o cami-
nho que haveria de conduzir à profissionalização