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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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tremo a receita de Pulitzer, não se coibindo, por vezes, de inventar
factos (mesmo que fossem desmentidos em duas linhas no dia se-
guinte). A esta linha de jornalismo chamou-se jornalismo ama-
relo (yellow journalism). Timoteo Álvarez (1992) acusa mesmo
Hearst de ter sido um dos principais instigadores da Guerra Hispano-
Americana, já que o empresário inventou notícias apenas para le-
var os Estados Unidos a declarar guerra a Espanha, por causa de
Cuba. Mas Hearst terá tido, igualmente, os seus méritos jornalísti-
cos, mandando repórteres seus para todo o mundo como enviados
especiais e dando bastante relevo às imagens como veículos de in-
formação (embora, por vezes, se usassem fotografias truncadas).
Embora tenha contribuído para mudanças paradigmáticas no
jornalismo, tornando-o mais factual e de linguagem acessível, a
imprensa popular coexistiu com a imprensa informativa "de
qualidade”, ou "de referência", e não impediu o seu floresci-
mento.
Na versão de Timoteo Álvarez (1992), a imprensa de refe-
rência herdou, ao mesmo tempo, as qualidades analíticas e argu-
mentativas da party press e o rigor e factualidade da imprensa de
negócios do século XIX. Rigor, exactidão, sobriedade gráfica e
de conteúdos, análise e opinião, independência e culto da objec-
tividade (até aos anos setenta) foram e ainda são as marcas do
jornalismo de referência. Entre os jornais de referência que sub-
sistem desde o século XIX, contam-se, por exemplo, The Times
(que até é do século XVIII) e The New York Times. Em Portu-
gal, também se encontram descendentes neste ramo da imprensa.
Diário de Notícias, Expresso ou Público são bons exemplos.
Timoteo Álvarez (1992: 57-78) mostra que as mudanças que
se deram no jornalismo americano foram exportadas para a Eu-
ropa, começando pela Inglaterra. Pode, assim, dizer-se que a im-
prensa evoluiu de forma semelhante em todo o Ocidente, de um
e do outro lado do Atlântico. Nos séculos XVII e XVIII, a lide-
rança pertenceu à Europa; a partir do século XIX, as principais
inovações que ocorreram no jornalismo ocidental tiveram origem
nos Estados Unidos.
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Datam também do final do século XIX as primeiras preocu-
pações sistemáticas com a regulação e auto-regulação do jorna-
lismo. A segunda geração da imprensa popular, a profissionali-
zação dos jornalistas e os excessos do "jornalismo amarelo"não
terão sido alheios a essas preocupações. Assim, salienta Traquina
(2002: 71), o primeiro artigo de crítica da imprensa que usou a
palavra ética no título foi publicado em 1889 e o primeiro código
de conduta para jornalistas apareceu em 1890. Em 1900, os sue-
cos elaboraram o primeiro código deontológico, mas este apenas
entrou em vigor em 1920, dois anos após a aprovação do código
deontológico dos jornalistas franceses (Traquina, 2002: 71).
A I e a II Guerra Mundial, talvez por força das circunstân-
cias excepcionais que o mundo atravessou, tornaram o jornalismo
ocidental tendencialmente descritivo, apostando na separação en-
tre “factos” e “comentários”. Fez escola o "he said journalism",
ou seja, o jornalismo das declarações/citações, do qual estavam
arredadas a análise, o contexto, a interpretação e até a investiga-
ção (Sloan, 1991). Mas, a partir de meados dos anos sessenta do
século XX, o jornalismo, particularmente o jornalismo de refe-
rência, evoluiu para um modelo de análise, que pressupõe a es-
pecialização dos jornalistas (v.g., Barnhurst e Mutz, 1997; Pinto,
1997).
A orientação do jornalismo de referência para um modelo
analítico e especializado, que se contrapõe ao modelo genera-
lista e descritivo (predominante entre a I Guerra Mundial e os
anos sessenta do século XX), tem, porém, raízes históricas. De
facto, pelos anos vinte, de acordo com Schudson (1978; 1988) já
se fazia jornalismo interpretativo nos jornais de referência norte-
americanos.
Para mostrar como o jornalismo evoluiu, Michael Schudson
(1978; 1988) analisou a forma como os jornais americanos tra-
tavam o discurso sobre o Estado da União, que o Presidente dos
Estados Unidos profere anualmente no Congresso. O aconteci-
mento é basicamente o mesmo desde há cerca de duzentos anos.
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Mas Schudson notou que as notícias sobre esse acontecimento
mudaram ao longo do tempo.
Nos jornais mais antigos, reproduzia-se o discurso do Presi-
dente. Em meados do século XIX, o discurso era incluído numa
notícia sobre os trabalhos do Congresso nesse dia. Não era se-
guida uma ordem de importância para os temas, mas sim uma or-
dem cronológica, baseada na agenda do dia do Congresso. Por ve-
zes, era dedicado um editorial ao discurso do Presidente. No final
do século XIX, as notícias pouco abordavam o conteúdo do dis-
curso presidencial. Antes atentavam nas reacções do Congresso.
Falava-se dos congressistas que adormeciam nas bancadas, dos
senadores que saíam da sala, e até das senhoras e das flores que or-
namentavam a sala. A mensagem presidencial era pouco referen-
ciada. Nos primeiros anos do século XX, começaram a realçar-se
os pontos mais importantes da mensagem, o que pressupõe inter-
pretação e valorização da informação, e a incluir um lead19. O
Presidente também começou a ser tratado pelo nome. A partir de
1910, o jornalista começou a situar a mensagem no seu contexto.
Nos anos vinte, analisava-se a mensagem, numa expressão de au-
tonomia e autoridade profissional, e procurava dizer-se o que o
Presidente tinha dito nas entrelinhas e ainda se procurava salien-
tar o que ele não disse mas deveria ter dito - "Toma-se como certo
o direito e a obrigação de mediar e simplificar, cristalizar e identi-
ficar os elementos políticos no acontecimento noticioso", explica
Traquina (2002: 72). "O que mudou não foi o reconhecimento
da importância do presidente, mas antes a ideia do que devia ser
uma notícia e do que devia fazer um repórter. (...) Isto (...) ajudou
a construir um novo mundo político que aceitou o repórter como
intérprete de acontecimentos políticos". (Schudson, 1988: 18)
19 Traquina (2002: 72) escreve: "É precisamente com o estabelecimento do
lead como convenção, que podemos identificar a crescente afirmação de uma
autoridade profissional, embora houvesse já outras manifestações de crescentes
saberes ligados à actividade jornalística, tais como: 1) a estenografia; 2) a
invenção de novos géneros, como a entrevista e a reportagem; 3) a elaboração
de uma linguagem específica".
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Beneficiando da conjuntura histórica, propícia à experimen-
tação e às rupturas (movimento hippie, Maio de 68, Guerra do
Vietname, movimentos alternativos, novas formas de expressão
musical...), assistiu-se, nos anos sessenta, à erupção de movi-
mentos como o do Novo Jornalismo, ou seja, do segundo Novo
Jornalismo que nos surge na história. Este segundo movimento
de Novo Jornalismo teve duas forças motrizes principais: a as-
sumpção da subjectividade nos relatos sobre o mundo; e a retoma
do jornalismo de investigação em profundidade, que revelou ao
mundo escândalos como o do Watergate. Hoje ainda é uma va-
riante válida para o jornalismo, havendo quem o defenda sob a
forma de um jornalismo narrativo, capaz de tornar histórias cin-
zentas mais atraentes.
As raízes do novo Novo Jornalismo encontram-se não só na
literatura de viagens mas também na obra de escritores como
Orwell (Na Penúria em Paris e em Londres é um bom exemplo).
Mas é em meados da década de sessenta que essa forma de jor-
nalismo surge como um movimento de renovação estilística, ide-
ológica e funcional nos Estados Unidos. Tom Wolfe, no livro The
New Journalism (London: Picador, 1975), diz que ouviu o termo,
pela primeira vez, em 1965.
O movimento do novo Novo Jornalismo surge como uma ten-
tativa de retoma do jornalismo aprofundado de investigação por