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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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de uma das partes em conflito".
Depois de Lee, nada mais foi como dantes nas relações pú-
blicas. As RP estiveram com militares e governantes para asse-
gurar a compreensão e o apoio público para o esforço de guerra
dos diversos países na I e na II Guerras Mundiais (embora con-
taminadas pela propaganda). Estiveram com os governantes para
levar o público a consentir na implementação de políticas e me-
didas; estiveram com os políticos em geral; com as organizações
não governamentais; com empresas e empresários; com grupos de
cidadãos; com lóbis; sempre procurando influenciar, persuadir,
negociar, mediar, gerar consentimentos, fabricar entendimentos,
fomentar a compreensão entre entidades e seus públicos.
A vinculação inicial das relações públicas modernas àquilo
que se passava nos Estados Unidos não deve levar a concluir que
as únicas dádivas à actividade tiveram lugar nesse país. Apesar do
pioneirismo norte-americano, os países da Europa que no século
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XIX já estavam consideravelmente avançados na Revolução In-
dustrial -nomeadamente o Reino Unido e a Alemanha− também
aderiram às práticas de relações públicas.
Tal como nos Estados Unidos, na Europa as relações públicas
modernas cristalizaram-se nos mundos da política, das empresas,
dos militares, das organizações não governamentais e nos demais
sectores onde a sua presença tem sido requerida, principalmente
após a II Guerra Mundial.
Na Alemanha, Alfred Krupp, fundador da Companhia Krupp,
em 1866 já se oferecia para informar os jornais sobre as activi-
dades da sua companhia. Em 1901, a sua companhia já tinha
um gabinete de relações públicas (Wilcox et al., 2001: 39). A
expansão das RP na Alemanha foi, porém, vinculada à propa-
ganda nazi. Beneficiou dos saberes acumulados pelos nacional-
socialistas nessa área, mas perdeu, durante o período nazi, o com-
promisso com a verdade e com a realidade que orientava o modelo
de informação pública, nessa época o mais em voga nos democrá-
ticos Estados Unidos e Reino Unido.
No Reino Unido, foi a Marconi Company a criar, pela pri-
meira vez, um departamento para divulgar comunicados à im-
prensa, em 1910 (Wilcox et al., 2001: 40). A primeira empresa
britânica a contratar um profissional de relações públicas terá sido
a Southern Railway Company, em 1925 (Wilcox et al., 2001: 40).
O modelo seguido -de informação pública- beneficiou do contá-
gio com as práticas de RP nos Estados Unidos e condicionou toda
a evolução posterior das RP nesse país.
Segundo Wilcox et al. (2001: 40), a primeira campanha go-
vernamental de RP foi desenvolvida pelo governo de David Lloyd
George, para explicar aos britânicos uma medida sobre seguros
que tinha provocado reacções negativas.
O primeiro assessor de imprensa do Governo britânico foi no-
meado, em 1919, pelo ministro da Aviação, e, em 1920, o Minis-
tério da Saúde britânico integrou o primeiro director de informa-
ção (Wilcox et al., 2001: 40).
A primeira tentativa de introduzir as relações públicas empre-
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sariais em França terá sido em 1924, quando um grupo de ameri-
canos pretendeu abrir uma agência e promoveu conferências para
fazer interessar os empresários franceses pelas relações públicas
(Lougovoy e Huisman, 1981: 32). Em 1937 a Renault já tinha um
"engenheiro social"com uma missão semelhante à dos modernos
profissionais de relações públicas (Lougovoy e Huisman, 1981:
32). As primeiras empresas a terem departamentos de relações
públicas foram, porém, as multinacionais americanas em França,
designadamente as companhias petrolíferas. A crise do Maio de
1968 impulsionou a colocação de relações públicas em todos os
ministérios do Governo francês. (Lougovoy e Huisman, 1981:
21).
Em Espanha, as relações públicas são impulsionadas com a
criação, em 1961, da Associação Técnica de Relações Públicas.
Em 1964, começa, em Barcelona, o primeiro curso de relações
públicas, no Instituto de Técnicas para a Comunicação Social.
Nessa mesma cidade, um ano mais tarde, é criada a Associação
Espanhola de Relações Públicas. Em 1974, é criada a primeira
licenciatura em Publicidade e Relações Públicas.
Em 1946, é criada a primeira agência de relações públicas ho-
landesa; em 1949, é igualmente criada uma agência de relações
públicas na Finlândia. Em 1954, surgiu, na Bélgica, uma fede-
ração europeia de relações públicas, durante cuja reunião geral,
no Luxemburgo, em 1956, se propôs a adopção de um código de
ética. Este veio a ser aprovado em Atenas, em 1965, altura em
que a federação adoptou a designação Confederação Europeia de
Relações Públicas.
Em Portugal, as relações públicas modernas deram também os
primeiros passos nos mundos da economia e da política. A Casa
das Índias já tinha, em pleno século XVI, uma norma para aten-
dimento aos clientes (Lozano, s/d: 279). Os armazéns Grandella,
por exemplo, no século XIX já tinham uma publicação destinada
às clientes, dando conselhos de moda e beleza e apresentando os
produtos à venda, e a Caixa de Crédito Industrial foi a primeira
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empresa portuguesa a publicar um jornal, em 1869 (Moreira dos
Santos, 1995: 71-72).
Em Portugal, as relações públicas estenderam-se ao mundo
da política, bastante vinculadas à propaganda, durante o regime
corporativo, em especial mercê da acção do Secretariado da Pro-
paganda Nacional (mais tarde Secretariado Nacional de Informa-
ção), dirigido por António Ferro. São exemplos de acções de re-
lações públicas propagandísticas do SPN/SNI os álbuns fotográfi-
cos que glorificavam o regime, as suas realizações e os seus líde-
res; os grandes eventos, como a exposição do Mundo Português
(1940), ligada às comemorações do duplo centenário da Fundação
e da reconquista da Independência Nacional; os desfiles militares
e civis, etc.
A introdução do modelo de informação pública nas relações
públicas portuguesas e o acerto de agulhas das RP nacionais pe-
las RP estrangeiras deveu muito à acção das multinacionais que
se foram instalando no país a partir dos anos sessenta do século
XX e que possuíam departamentos de comunicação, marketing ou
mesmo de RP.
O Instituto de Novas Profissões começou a formar profissio-
nais de relações públicas em 1964. A Sociedade Portuguesa de
Relações Públicas foi fundada em 1968. O primeiro curso supe-
rior português de relações públicas apareceu em 1971.
Depois de Ivy Lee, o segundo grande impulsionador de no-
vos rumos para as RP terá sido Edward L. Bernays, professor do
primeiro curso universitário de relações públicas no mundo, lec-
cionado na Universidade de Nova Iorque, a partir de 1924. Para
que a Universidade de Nova Iorque tivesse convidado Bernays
para leccionar o curso muito terá contribuído o lançamento do
seu livro Cristallizing Public Opinion, em 1923, o primeiro livro
sistemático sobre relações públicas.
Em 1955, Barnays escreveu The Enginieering of Consent. Neste
livro, ao descrever as funções das RP, Bernays avançou da con-
cepção de Ivy Lee para o terceiro modelo histórico de RP (assi-
métrico bidireccional), onde preconizava um conhecimento cien-
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tífico dos públicos para melhor os persuadir. As suas concepções
ainda orientam grande parte das práticas de relações públicas -
basta lembrarmo-nos das sondagens de opinião e das mudanças
que elas provocam no mundo político, do telemarketing bancário
direccionado para públicos seleccionados pela sua tipologia de in-
vestimentos, etc. Segundo Wilcox et al. (2001: 45), Bernays é re-
conhecido como o fundador das relações públicas actuais, embora
estas tenham evoluído, posteriormente, para um modelo bidirecci-
onal e simétrico, onde mais do que persuadir os públicos importa
encontrar pontos de equilíbrio, compreensão e comunicação entre
uma entidade e os seus públicos.