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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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o jornalismo moderno se começou a con-
figurar, no século XVII, o poder político, receoso dos eventuais
efeitos adversos das notícias, tratou de controlar os jornais. O
paradigma autoritário de jornalismo perdurou até ao presente em
países como a Indonésia ou a Tailândia, tendo sido o modelo vi-
gente em Portugal até ao 25 de Abril de 1974 e no Brasil durante
a Ditadura Militar.
Nos países que impuseram um Modelo Autoritário de jorna-
lismo, o exercício da actividade jornalística é sujeito ao controle
directo do estado, através do governo ou de outras instâncias. Não
existe liberdade de imprensa e a censura prolifera, apesar de os ór-
gãos de comunicação poderem ser propriedade de empresas priva-
das. O jornalismo não pode ser usado para promover mudanças,
para criticar o governo, os governantes e o estado ou para minar
as relações de poder e a soberania. As diferenças de pontos de
vista são tidas como desnecessárias, irresponsáveis ou até subver-
sivas. O estado pode impor multas, sanções económicas, códigos
de conduta, penas de prisão e a impossibilidade do exercício pro-
fissional do jornalismo aos jornalistas, editores, directores e pro-
prietários que colidam com os princípios do Modelo Autoritário
de jornalismo. A suspensão das publicações/emissões e a apre-
ensão de jornais são também dispositivos usados pelos estados
autoritários para controlar o jornalismo e os jornalistas.
4.1.2 Modelo Ocidental de Jornalismo
As revoluções Francesa e Americana, a par da tradição política
britânica e da sua Revolução Gloriosa, estiveram, de algum modo,
na génese do Modelo Ocidental de Jornalismo, que vigora nos
países democráticos capitalistas, como o Brasil, Portugal ou os
Estados Unidos.
O Modelo Ocidental de Jornalismo preconiza que a imprensa
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deve ser independente do estado e dos poderes, tendo o direito a
reportar, comentar, interpretar e criticar as actividades dos agentes
de poder, inclusivamente dos agentes institucionais, sem repres-
são ou ameaça de repressão. Teoricamente, os jornalistas são ape-
nas limitados pela lei (tida por justa), pela ética e pela deontolo-
gia. O campo jornalístico configura-se, assim, como uma espécie
de espaço público, um mercado livre de ideias, onde se ouvem e,
por vezes, se digladiam as diferentes correntes de opinião. Nestas
últimas ocasiões, o jornalismo funcionará mais como uma arena
pública.
As ideias de uma imprensa livre e do livre acesso à imprensa
foram exportadas para todo o planeta a partir do Ocidente. Porém,
o fluxo livre de informação poderá ter aspectos negativos, já que
se faz, predominantemente, dos países ricos (geralmente situados
no hemisfério Norte) para os países pobres (geralmente situados
no hemisfério Sul). Para os críticos do free-flow da informação,
segundo Hachten (1996), esta doutrina traduz-se numa ingerência
constante nos assuntos internos dos países em desenvolvimento e
na imposição de valores ocidentais a todo o mundo, mina os es-
forços de desenvolvimento e promove um alegado "imperialismo
cultural". Além disso, para esses críticos o free-flow inscreve-se
numa lógica de dominação dos mercados por parte dos grandes
oligopólios ocidentais da comunicação.
Quem advoga a filosofia do free-flow da informação afirma,
pelo contrário, que o acesso aos media ocidentais fornece visões
alternativas às pessoas que vivem sob regimes autoritários, fre-
quentemente totalitários. Além disso, consideram que o free-flow
da informação promove os direitos humanos, publicita os abusos
a esses mesmos direitos e fornece informação que pode ser usada
para as pessoas de diferentes países tomarem melhores decisões.
Existem outros tipos de críticas que têm sido feitas ao Modelo
Ocidental de Jornalismo, tendo em conta a forma como é teori-
zado e a expressão dessa teorização na Lei. Uma das críticas mais
pertinentes e consistentes foi feita por Chomsky e Herman (1988)
ao jornalismo norte-americano. Para os autores, quando se reú-
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nem um certo número de circunstâncias o Modelo Ocidental de
Jornalismo funciona, pontualmente, como um Modelo de Pro-
paganda, que beneficia os interesses governamentais e os gran-
des poderes económicos. Esse sistema de propaganda é de difícil
detecção, pois os órgãos jornalísticos ocidentais geralmente são
privados e a censura formal está ausente.
Entre os factores que levam o jornalismo a funcionar pontu-
almente como um sistema propagandístico estão a concentração
oligopólica da propriedade dos media (que pode condicionar
o pluralismo e afecta as alternativas de emprego dos jornalistas
descontentes), a dependência da publicidade (que leva as em-
presas jornalísticas a evitar publicar informações lesivas para os
clientes publicitários, incluindo as entidades governamentais), a
confiança nas informações dadas pelo governo e empresas do-
minantes (que promove o recurso aos canais de rotina) e ainda
os ditames da audiência (levando, por exemplo, à publicação de
matérias anti-comunistas nos Estados Unidos).
Alguns autores, além de criticarem a rotinização e burocrati-
zação do jornalismo ocidental, têm proposto alternativas. Uma
das tendências que se foi desenhando a partir da década de No-
venta do século XX é a do jornalismo cívico, também denomi-
nada jornalismo comunitário, jornalismo público ou ainda jor-
nalismo de cidadania ou dos cidadãos.
O jornalismo cívico tem aplicação prioritária ao nível da im-
prensa regional e local. É um modelo que direcciona directamente
o jornalismo para os interesses, motivações e anseios de uma co-
munidade, de forma a reduzir o alheamento dos cidadãos face à
política e também face ao jornalismo. Além do idealismo que lhe
está subjacente, a aplicação do modelo tem também um objectivo
muito pragmático: salvar os pequenos jornais da crise que repre-
sentaria a perda de leitores.
O jornalismo cívico propõe uma atitude de envolvimento com
a comunidade que dê maior atenção a cada tema, em substituição
da fragmentação noticiosa. Prevê o aproveitamento de sinergias
com outros media locais e regionais, nomeadamente a rádio. Quer
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levar os candidatos políticos a confrontar-se com uma agenda de
assuntos estabelecida pelos cidadãos em conexão com os jornalis-
tas. Preconiza o uso de instrumentos como as sondagens de opi-
nião para se reconhecerem as prioridades da comunidade. Propõe
a confrontação regular de políticos, jornalistas e representantes da
comunidade, amplificada pelos news media.
O jornalismo cívico também tem os seus detractores. O envol-
vimento exacerbado dos jornalistas em causas comunitárias im-
pede o distanciamento crítico. Além disso, o jornalismo cívico
promove a fragmentação da sociedade em grupos de interesse.
Outra tendência que se desenha no jornalismo contemporâ-
neo é a do chamado jornalismo participativo, que bebe muito
do jornalismo cívico. No jornalismo participativo são, em grande
medida, os consumidores de informação a definirem a agenda jor-
nalística e, por vezes, são os próprios cidadãos que "vestem a
pele"de jornalistas e alimentam o órgão de comunicação social
com trabalhos jornalísticos. Já há jornais on-line feitos na quase
totalidade por cidadãos-jornalistas, que não recebem salário, nem
são profissionais, mas fazem a cobertura de assuntos que lhes in-
teressam, oferecendo uma saudável alternativa aos meios tradi-
cionais. O mesmo se passa, aliás, com alguns weblogs, em que
cidadãos produzem notícias sobre determinados assuntos, que co-
locam à disponibilidade dos cibernautas. Há mesmo vários jor-
nalistas profissionais que têm weblogs, patrocinados ou não, aí
publicando trabalhos de índole jornalística. A blogosfera con-
solida a vertente polifónica da Internet e da World Wide Web,
cumprindo um pouco o papel dos primeiros jornais políticos e
político-noticiosos,