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Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media

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Determinados acontecimentos, ideias e temáticas são, de algum
modo, os referentes das notícias. Porém, o “acontecimento” ga-
nha na competição. O ritmo do trabalho jornalístico dificulta que
se dê uma ênfase semelhante às problemáticas (Tudescq, 1973) e
aos processos sociais invisíveis e de longa duração (Fontcuberta,
1993).
Se pensarmos no que une os diversos fenómenos generica-
mente denominados por acontecimentos, talvez encontremos o
seu carácter de notoriedade, dentro de um contexto social, his-
tórico e cultural que co-determina essa notoriedade.
Aparentemente, os acontecimentos são também ocorrências
singulares, concretas, observáveis e delimitadas, quer no tempo,
quer no espaço, quer em relação a outros acontecimentos que
irrompem da superfície aplanada dos factos (Rodrigues, 1988).
Esta visão dos acontecimentos torna-os "manipuláveis", isto é,
permite o seu tratamento através de determinadas linguagens, como
a linguagem escrita ou a linguagem das imagens, pois os aconteci-
mentos necessitam de ser comunicáveis para se tornarem referen-
tes dos discursos jornalísticos e serem, consequentemente, comu-
nicados. Todavia, a percepção de que o acontecimento é concreto
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e delimitado é uma falácia, já que o real é contínuo e os fenó-
menos são estreitamente interligados. Mas é também uma falácia
a que, de algum modo, os seres humanos necessitam de recorrer
para interpretarem, estudarem, compreenderem e simplesmente
relatarem o real.
A previsibibilidade ou imprevisibilidade dos acontecimentos
são marcas susceptíveis de permitir a distinção entre vários tipos
de acontecimentos, embora não em exclusivo. De qualquer modo,
com base neste pressuposto, poderemos classificar, à falta de me-
lhor, como “verdadeiros” acontecimentos os acontecimentos im-
previstos, como uma catástrofe natural; por outro lado, em con-
sonância com Boorstin (1971), podemos falar também de pseudo-
acontecimentos, como as conferências de imprensa, ou seja, acon-
tecimentos provocados e fabricados com o objectivo de se torna-
rem objecto de discurso jornalístico, que são, obviamente, acon-
tecimentos previsíveis. Dentro desta ideia, também é possível fa-
lar dos acontecimentos mediáticos, uma noção que Katz (1980)
apresenta para designar acontecimentos programados e planeados
para se tornarem notícia, mas que ocorreriam mesmo sem a pre-
sença dos meios de comunicação, como as ocasiões de Estado (a
cerimónia de assinatura de um tratado, por exemplo), as missões
heróicas (a partida de um vaivém espacial. . . ) ou as competições
simbólicas (jogos olímpicos. . . ).5
5 Katz, em conjunto com Dayan, voltou a este tema, tendo apresentado o li-
vro Media Events - The Live Broadcasting of History, traduzido para português
em 1999, pela Editora Minerva, de Coimbra (A História em Directo - Os Acon-
tecimentos Mediáticos na Televisão). Katz e Dayan (1999) referem-se, neste
livro, unicamente aos acontecimentos mediáticos televisivos, alguns dos quais
atraíram as maiores audiências da história do mundo (500 milhões de pessoas
em simultâneo), como os funerais da Princesa Diana, as cerimónias de abertura
dos Jogos Olímpicos, a chegada do Homem à lua, etc. Só a leitura da Bíblia,
após todos estes séculos, poderia rivalizar com esses números. Os aconteci-
mentos mediáticos exclusivamente televisivos caracterizam-se, na definição de
Katz e Dayan, por serem programados, transmitidos em directo e protagoni-
zados por pessoas ou grupos “heróicos”. Esses acontecimentos teriam, assim,
um significado dramático ou ritual à escala global, transformando a assistên-
cia aos mesmos quase numa obrigação social normativa. Segundo os autores,
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Há alguns acontecimentos dificilmente categorizáveis, talvez
porque não o sejam dentro do sistema que se propôs. Por exem-
plo, como categorizar a Guerra do Golfo? Em grande medida, terá
sido um acontecimento previsível, planeado para ser objecto de
um determinado tipo de cobertura jornalística (que enfatizou, por
exemplo, o arsenal militar de alta-tecnologia americano, quase
como se fosse um catálogo de vendas - Sousa, 1999), pelo que
poderíamos falar do conflito como um acontecimento mediático,
embora contaminado por vários acontecimentos "erdadeiros", os
acasos da guerra. Assim sendo, há sempre ocorrências que ex-
travasam esta classificação dos acontecimentos, nomeadamente
quando possuem uma grande dimensão, sendo autênticos mega-
acontecimentos.
Recentemente, segundo Mar de Fontcuberta (1993), os news
media começaram a difundir relatos de não-acontecimentos, ou
seja, a construir, produzir e difundir notícias a partir de factos não
sucedidos (como, por exemplo, o Conselho de Ministros não se
pronunciar sobre o que nem sequer estava previsto que se pronun-
ciasse), o que mina aquelas que a autora considera serem as bases
tradicionais do jornalismo: realidade, veracidade e actualidade
(Fontcuberta, 1993: 26).
Tuchman (1978: 46-53) afirma que os jornalistas distinguem
vários tipos de acontecimentos, classificados em função do fac-
tor tempo: acontecimentos inesperados; acontecimentos pré-
determinados (acontecimentos intencionais e anunciados que ocor-
rem em momentos específicos); e acontecimentos em desenvol-
vimento. O tipo de acontecimento, em grande medida, molda a
notícia (spot news; hard news, soft news, running story). Por ou-
tras palavras, o factor tempo interfere com a definição do que é
notícia e com a tipificação das notícias.
os media events televisivos podem tipificar-se de acordo com características
de competição (competições desportivas, debates televisivos, etc.), celebração
(casamentos e funerais reais, entronizações, etc.) ou conquista (descobertas ci-
entíficas e tecnológicas, feitos heróicos proporcionados pela tecnologia, como
a chegada do Homem à lua, etc.).
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Molotch e Lester (1974) servem-se das figuras dos "promo-
tores de notícias", ou seja, os indivíduos que elevam um aconte-
cimento à categoria de notícia, para tipificar os acontecimentos.
Distinguem, assim:
• Acontecimentos de rotina (acontecimentos intencionais pro-
movidos por aqueles que neles estão envolvidos);
• Acidentes (acontecimentos inesperados, cujos implicados
pretendem manter em segredo, promovidos a notícia por
alguém que neles não está envolvido);
• Escândalos (acontecimentos intencionais promovidos por
pessoas que não partilham das estratégias dos envolvidos);
• Serendipity, ou "feliz acaso" (acontecimentos inesperados
revelados inadvertidamente por aqueles que neles estão im-
plicados).
4.2.3 A unidade discursiva: a notícia
Os acontecimentos são transformados em notícias pelo sistema
jornalístico. As notícias são, na óptica de McQuail (1991: 263),
"uma das poucas dádivas originais dos meios jornalísticos ao re-
portório das formas de expressão humanas."
Usando a definição dada em As Notícias e os Seus Efeitos
(Sousa, 2000), podem definir-se as notícias como artefactos lin-
guísticos6 que procuram representar7 determinados aspectos da
6 Isto é, as notícias são construídas com base em linguagens: a língua, a
linguagem das imagens, etc.
7 Não vamos aqui deter-nos significativamente sobre a estafada “teoria” do
espelho, a primeira visão que se teve das notícias, conforme nos assevera Nel-
son Traquina (1993, 133 e 167), avançando já para a perspectiva da represen-
tação da realidade, conforme resulta das "teorias"construcionistas da notícia.
Porém, é de relevar que, para alguns jornalistas, as notícias são perspectivadas
como um espelho da realidade, já que, de acordo com as normas e técnicas
profissionais, os jornalistas, vêem-se como observadores neutros da realidade
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realidade e que resultam de um processo de construção e fabrico
onde interagem, entre outros,