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Dal Pont. Bem-estar de peixes utilizados para consumo

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salmões em 
densidades de até 22 kg/m3 seria enquadrada na área B (Figura 1), enquanto densidades 
superiores seriam fatores tipo D. São exemplos de fatores para as diferentes áreas propostas 
na Figura 1: (i) área A = migração, territorialidade, evitação de predadores, certas estratégias 
reprodutivas; (ii) área B = adaptações a flutuações de temperatura, salinidade e níveis de 
oxigênio; ausência de sinais clínicos de doença, formação de cardumes; (iii) área C = 
temperatura, salinidade ou níveis de oxigênio fora das possibilidades de adaptação do peixe; 
presença de sinais clínicos de doença, alta mortalidade; (iv) fatores D = fluxo insuficiente de 
água, altas densidades de lotação, dieta inadequada, doenças endêmicas, deformidades de 
tecidos moles e esquelético; (v) fatores E = treinamento adequado de pessoal, planejamento 
de contingência, monitoramento de equipamentos, redução da densidade de lotação. 
 É importante salientar que um grau de bem-estar muito baixo, como em casos de 
doenças, crescimento lento e alta mortalidade, está associado a perdas econômicas para o 
produtor. Tal fato tende a provocar um balanço entre bem-estar e produtividade. Entretanto, 
como evidenciado nas pesquisas de bem-estar de outras espécies utilizadas para produção 
(Molento, 2005), provavelmente a relação entre bem-estar de peixes e produtividade não é 
linear, mas sim exponencial com ponto de máxima. A pressão por aumento de produtividade 
provavelmente gera diminuição do grau de bem-estar dos peixes a partir do ponto de inflexão 
da referida curva. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 1. Estrutura proposta para a apresentação de informação relacionada ao bem-estar de 
peixes durante a criação. O círculo à esquerda representa as adaptações evolutivas dos peixes 
ao ambiente natural e o círculo à direita o sistema produtivo. As cinco áreas A, B, C, D e E 
podem ser preenchidas com informações acerca das características naturais de cada espécie 
de peixe, suas adaptações e descritivos do sistema produtivo em questão. Em seguida, 
informações específicas a partir de diagnóstico de bem-estar podem ser utilizadas para incluir 
conteúdo adicional para as áreas B, C, D e E (Adaptado de Turnbull e Kadri, 2007). 
 
 
 
A B C 
D 
E 
Desafios dos 
sistemas de 
produção para os 
quais os peixes não 
estão adaptados e 
evidência de 
anormalidades 
funcionais e 
comportamentais 
Adaptações utilizadas 
no sistema produtivo 
e evidência de 
comportamento e 
funcionamento 
Adaptações não 
utilizadas nos 
sistemas 
produtivos 
 Fatores que aumentam o risco de exposição dos animais a desafios para os 
quais não estão adaptados. 
Fatores que diminuem o risco de exposição dos animais a desafios para os quais não 
estão adaptados. 
D 
E 
Vida livre Sistemas produtivos 
Pontos críticos de bem-estar durante o manejo pré-abate e o abate 
Robb (2008) apresenta uma revisão interessante sobre os pontos críticos de bem-estar 
de peixes relacionados aos procedimentos de abate. Em geral, existe um período de 
preparação durante os dias que antecedem ao abate: é nesse momento que surgem as 
primeiras preocupações relacionadas ao bem-estar de peixes durante o abate. A sequência de 
intervenções geralmente é composta de remoção de qualquer tratamento medicamentoso, 
jejum alimentar, manejo pré-abate e abate propriamente dito. A impossibilidade de 
tratamento médico, que é proibido por questões de segurança alimentar humana, gera uma 
restrição potencial de bem-estar. Em termos de remoção da alimentação, existem várias 
realidades, desde alguns dias até um mês. O jejum alimentar favorece o esvaziamento do trato 
gastrointestinal, importante por questões de qualidade da carne. Entretanto, existe pouco 
embasamento científico de que o jejum pré-abate atinja outros objetivos propostos de 
redução do teor de gordura da carne ou melhoria de sua textura. Por outro lado, nas situações 
em que os peixes são transportados vivos, um jejum de até três dias parece benéfico ao bem-
estar dos peixes durante o transporte, pois reduz a carga de amônia proveniente de excreção. 
Uma vez que haja o esvaziamento do trato digestivo pelo jejum, os peixes estão 
prontos para a despesca. A partir de então, os peixes podem passar por uma série de 
diferentes procedimentos (Figura 2). As etapas com fundo cinza não são relevantes para o 
bem-estar dos peixes, assumindo-se que os processos de insensibilização e sangria tenham 
sido efetivos. Algumas etapas, aquelas circundadas por linha pontilhada (Figura 2), são tão 
severas que merecem a consideração de estratégias de exclusão dos sistemas de abate. Seria 
interessante a expansão de tal representação (Figura 2), que aqui apresenta apenas dois 
sistemas europeus e três sistemas comuns no estado do Paraná. 
Do ponto de vista de bem-estar, quanto menor o número de etapas ou procedimentos 
realizados, melhor para o peixe. Isto ocorre porque cada etapa está relacionada a certo grau 
de distresse para o animal. Os resultados preliminares de nosso laboratório, comparando em 
um mesmo lote de tilápias o abate no momento da despesca, na própria granja, com o abate 
após o transporte dos peixes vivos ao frigorífico, mostram diferenças significativas nas 
concentrações de glicose plasmática, pH da carne e tempo para obtenção de rigor mortis (Dal 
Pont et al, 2009). As altas concentrações de glicose associadas ao maior número de etapas do 
abate no frigorífico provavelmente estão relacionadas aumento da secreção de cortisol, sendo 
que as diferenças na qualidade da carne merecem maiores estudos. 
 
 
Figura 2. Resumo de passos potenciais durante o manejo pré-abate e o abate de peixes, em geral associados a jejum alimentar prévio (adaptado de Robb, 2008); os 
passos numerados relacionam-se aos procedimentos realizados enquanto os animais estão conscientes, dessa forma sendo relevantes para as questões de bem-
estar; os passos circundados por linha interrompida são aqueles considerados prioritários para modificação sob o ponto de vista do bem-estar dos peixes.
Possibilidades 
 Uma vez conhecidas as principais restrições de bem-estar de peixes na cadeia 
produtiva de alimentos, torna-se possível pensar em estratégias de melhoria. Por exemplo, em 
questões de bem-estar relativas à criação, pode-se estudar formas viáveis de implementação 
de fatores do tipo E (Figura 1). Densidade de lotação, dieta, técnica de oferta de alimentos e 
procedimentos de manejo direto dos animais apresentam efeitos intensos sobre as respostas 
de estresse, que por sua vez apresentam efeito negativo sobre a própria tolerância ao estresse 
adicional, sobre a saúde e aumentam a ocorrência de comportamento agressivo. Assim, 
estratégias para se reduzir o impacto de tais fatores são vitais. Um exemplo é a investigação 
acerca da viabilidade de se selecionar geneticamente os peixes para minimizar sua resposta 
aos estressores, aumentar sua resistência parasitária, diminuir a incidência de deformidades, 
entre outras (Ashley, 2007). Um controle mais cuidadoso da temperatura da água durante a 
incubação também constitui estratégia efetiva para a diminuição de deformidades de tecidos 
moles e esquelético (Ashley, 2007; Branson e Turnbull, 2008). À medida que os problemas de 
bem-estar durante a criação são complexos, multifatoriais e espécie-específicos, da mesma 
forma serão complexas as estratégias de melhoria. 
 Em relação aos principais pontos de sofrimento nos processos ligados ao abate, as 
prioridades imediatas referem-se às situações de sofrimento agonizante, representadas pelos 
procedimentos circundados com linha