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EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR A PRÁTICA DO BOM PROFESSOR

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entre eles.
I. Nas características técnicas, o professor bem-sucedido:
1. Conhece seus alunos e adapta o ensino às suas necessidades, incorporando a experiência do aluno
ao conteúdo e incentivando sua participação.
2. Reflete e pensa sobre sua prática.
3. Domina conteúdo e metodologia para ensiná-lo.
4. Aproveita o tempo útil, tem poucas faltas e interrupções.
5. Aceita responsabilidade sobre as exigências dos alunos e seu trabalho.
6. Usa eficientemente o material didático, dedicando mais tempo às práticas que enriquecem o
conteúdo.
7. Fornece feedback constante e apropriado.
8. Fundamenta o conteúdo na unidade teórica-prática.
9. Comunica aos alunos o que espera deles e por que (tem objetivo claro).
10. Ensina estratégias metacognitivas aos alunos e as exercita.
11. Estabelece objetivos cognitivos tanto de alto quanto de baixo nível.
12. Integra seu ensino com outras áreas.
II. Nas características afetivas, o professor bem-sucedido:
1. Demonstra interesse, entusiasmo, vibração, motivação e/ou satisfação com o ensino e seu trabalho,
valorizando seu papel.
2. Desenvolve laço afetivo forte com os alunos.
3. Mantém clima agradável, respeitoso e amigo com os alunos – “atmosfera prazerosa”.
4. É afetivamente maduro (não, “bonzinho”).
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Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte – Ano 1, Número 1, 2002
Zenaide Galvão
III. Nas características sociopolíticas, o professor bem-sucedido:
1. Conhece a experiência social concreta dos alunos.
2. Possui visão crítica da escola e de seus determinantes sociais.
3. Possui visão crítica dos conteúdos escolares.
É possível, ainda, refletir a respeito do professor considerado bem-sucedido e sua prática pedagógica
sob a perspectiva da Dimensão dos Conteúdos, apresentada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (Bra-
sil, 1998). Nessa perspectiva, os conteúdos escolares são abordados em três dimensões: Conceitual,
Procedimental e Atitudinal.
A Dimensão Conceitual refere-se à abordagem das regras, técnicas, dados históricos das modalidades
e ainda reflexões a respeito da ética, estética, desempenho, satisfação, eficiência. A Dimensão Procedimental
diz respeito ao conteúdo ensinado pelo professor, que não deve girar apenas em torno das habilidades
motoras e do esporte, mas também da organização, sistematização de informações e aperfeiçoamento. A
Dimensão Atitudinal inclui não só a focalização por parte do professor nas normas, nos valores e nas
atitudes, mas também sua vivência dessas durante as aulas; ou seja, não se trata apenas de abordar a coope-
ração, é preciso vivenciá-la.
Parece difícil encontrar professores que revelam no seu cotidiano todos esses aspectos e, segundo
Silva (1992), é indiscutível que o professor que reunir a maior parte dessas características dificilmente
falhará em sua prática pedagógica. Entretanto, a concretização de todos esses aspectos depende também do
contexto escolar em que se encontra esse professor.
Em minha dissertação de mestrado, procurando perceber a influência da interação professor–aluno
no interesse do educando pelas aulas de Educação Física na escola, encontrei durante observações de aulas
em escolas públicas da cidade de Rio Claro (SP) uma professora que demonstrou possuir todas as caracte-
rísticas de um bom ou bem-sucedido professor (Galvão, 1999).
Essa professora cursou a licenciatura em Educação Física em uma instituição particular de ensino,
localizada no interior do Estado de São Paulo, na década de 1970. O tipo de formação foi o tradicional, cujas
características encontram-se descritas anteriormente, apontadas por Darido (1996).
A seguir, procurarei descrever alguns momentos interessantes da intervenção pedagógica dessa pro-
fessora, extraídos de um período de observação de, aproximadamente, três meses, durante os quais foram
assistidas 20 aulas.
A PRÁTICA PEDAGÓGICA DE UMA PROFESSORA DE EDUCAÇÃO FÍSICA
CONSIDERADA BEM-SUCEDIDA
Essa professora está próxima da aposentadoria, porém é uma pessoa cheia de disposição, já foi diretora
dessa escola e está sempre pronta para ajudar a direção nas questões que envolvem problemas de disciplina
dos alunos. Além disso, procura cuidar da escola, solicitando que os alunos recolham os papéis espalhados
pelas quadras e pela sala de aula. Ela mesma sempre dá exemplos de como proceder, por vezes joga água nas
plantas dos jardins da escola. Considera-se uma boa professora, pois, diferentemente dos demais professo-
res, relata que “não dá a bola e sai”.
Durante a organização das aulas, os alunos são divididos para as atividades de várias maneiras. Em uma
aula a professora os dividiu para jogar handebol utilizando o número da chamada, e meninos e meninas
jogaram juntos. Em outra situação, deixou que os alunos escolhessem seus times, porém ainda colocou
meninos e meninas juntos. Os times de voleibol também são mistos. Em algumas aulas os meninos jogam
separados das meninas, principalmente futebol, mas parece não haver uma preocupação muito grande
sobre isso.
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Educação Física escolar: a prática do bom professor
Um episódio interessante foi a organização, pela professora, de um jogo de futebol cujos times eram de
meninos contra meninas, os alunos se divertiram bastante. A professora apitou o jogo e, quando os meni-
nos marcaram um gol, ela sorriu e perguntou para as meninas onde estava a defesa. O clima dessa atividade
pareceu muito prazeroso. Um menino se aproximou da professora e pediu-lhe que o deixasse jogar no
time das meninas, ela permitiu, e ele jogou até o final sem problemas. Foi possível perceber que não havia
uma ênfase na performance máxima, mas sim na diversão que o próprio jogo proporcionava.
Em uma das aulas observei os alunos discutindo sobre a separação das equipes. Eles não concordavam
em alguns pontos, a professora presenciou e deliberadamente permitiu que resolvessem seus conflitos, o
que ocorreu rapidamente. Em outras aulas percebi a professora auxiliando na resolução dessas desavenças,
conversando com os alunos e encontrando soluções. E isso aconteceu não apenas nas divisões das equipes,
por várias vezes a vi resolvendo conflitos nos casos de alunos rejeitados pelos outros por inabilidade ou
reduntância.
Essas turmas eram de 5a e 6a séries, portanto, o hábito de realizar as atividades em conjunto –
meninos e meninas – fazia com que os conflitos fossem amenizados, pois esses alunos não tiveram a
oportunidade de participar de aulas de Educação Física com turmas separadas por sexo. Além disso, o
fato de a professora não salientar as diferenças e tratar todos de maneira igualitária provavelmente tam-
bém auxilia esse processo.
A maioria das aulas é caracterizada, geralmente, por uma atividade principal, que é bastante variada.
Presenciei prova prática de handebol, jogo de basquetebol, jogo de futebol, “câmbio”, jogo de voleibol,
corrida de revezamento no atletismo, aulas teóricas sobre atletismo, voleibol, handebol, queimada, campe-
onato de voleibol adaptado (câmbio) com equipes de outro período e também de outro professor de
Educação Física.
As aulas não seguem uma rotina fixa. Durante os dias de chuva, a professora utiliza a sala de aula. Em
uma das aulas, ela explicou aos alunos como seria a prova teórica a ser aplicada. A professora também me
entregou um modelo mimeografado de prova para a 5a série.
Os alunos têm cadernos específicos para serem utilizados durante as aulas teóricas e práticas de Edu-
cação Física, assim como em qualquer outra disciplina, e a professora solicita que eles os tragam sempre
quando houver aulas, pois ela pode não avisar antecipadamente sobre sua utilização.
Em um dia de chuva a aula foi realizada dentro da sala de aula, e o conteúdo explorado foi o voleibol.
Um aluno pediu para que realizassem aula prática ali mesmo na sala de aula. A professora comentou comigo
que o pedido era decorrente de ter sido