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Tese Professor titular Crocco

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preferência pela liquidez é possível admitir a possibilidade deste em não 
atender à necessidade de funding das empresas localizadas em regiões mais 
desenvolvidas. Isto porque todo investimento gera a poupança necessária para 
financiá-lo (funding). 
A questão que se coloca é se o sistema financeiro está ou não disposto a 
transformar esta poupança, criada pelo processo de investimento, em funding. 
Neste sentido, do ponto de vista teórico, a escassez de funding só ocorrerá devido a 
dois fatores: um vazamento dele para outra região, fato este impossível, segundo o 
modelo de causação circular cumulativa, dentro de uma região desenvolvida; ou 
devido à preferência pela liquidez do sistema financeiro. Esta segunda opção não é 
incorporada na formulação teórica de Myrdal, o que faz com que o modelo seja 
incompleto de acordo com a perspectiva teórica aqui adotada. 
Vale salientar que a adoção desta perspectiva não implica na negação do 
processo de causação circular cumulativa, mas sim a adição de mais um elemento, 
que nos dias atuais se torna cada mais importante, entre aqueles que podem 
causar o cessamento do processo ascendente da causação circular cumulativa. Nas 
palavras de Myrdal, 
haverá fatores, inerentes à situação de um centro de expansão econômica, que 
tendem a retardar ou, quanto tiver alcançado certo nível de desenvolvimento, 
a fazer reverter o processo cumulativo ... (Myrdal 1965, p. 64) 
 Entre tais fatores salienta a expansão dos salários e o aumento na 
remuneração de outros fatores de produção, entre outras “deseconomias 
externas”. Na perspectiva teórica aqui utilizada, poder-se-ia afirmar que o sistema 
financeiro poderia funcionar como um elemento que restringiria o 
desenvolvimento do processo acumulativo de crescimento. Isto poderia ocorrer 
devido a um comportamento “a la Minsky” (Minsky 1986) do sistema financeiro, 
onde após um grande ciclo de expansão passaria a reduzir a oferta de funding, 
dado um aumento de sua preferência pela liquidez.25 
 
25 Vale lembrar que no modelo de Minsky, os bancos, após um período de euforia, tendem a reduzir a oferta de 
funding devido ao fato do lado do ativo de seu balanço se tornar excessivamente ilíquido. Ou seja, devido ao 
aumento de empréstimos realizados no período de boom, a proporção de ativo líquidos e ilíquidos passa a 
 
 
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O segundo autor aqui discutido, que também argumenta em favor de uma 
teoria de desenvolvimento não equilibrado, é Albert Hirschman. Em sua obra 
seminal The Strategy of Economic Development ele expõe sua argumentação que, 
em sua essência, é complementar à desenvolvida por Myrdal. 
Dois pontos são fundamentais em sua análise. Em primeiro lugar, 
Hirschman deixa claro que o subdesenvolvimento não pode ser explicado pela 
ausência ou escassez quer seja de fatores de produção, quer seja de personagens 
humanas, tais como empresários. Geralmente, vários destes fatores são 
encontrados em países subdesenvolvidos, não sendo, no entanto, utilizados. Em 
suas palavras: 
 Thus, while we were at first discouraged by the long list of resources and 
circumstances whose presence has been shown to be needed for economic 
development, we now find that these resources and circumstances are not so 
scarce or so difficult to realize, provided, however, that economic development 
itself first raises its head (grifos do autor; Hirschman 1958. p. 5) 
Fica evidente pela citação acima que, para Hirschman, o processo de 
desenvolvimento é caracterizado por um mecanismo de círculo virtuoso, pois 
... once economic development has started, the circle is likely to become na 
upward spiral as all the prerequisites and conditions for development are 
brought into being. (Hirschman 1958) p. 5 
Além disto, segundo autor, o problema do desenvolvimento não dependeria 
somente de se encontrar a combinação ótima de recursos e fatores de produção 
dados. Uma vez que estes fatores estariam presentes em economias 
subdesenvolvidas, eles emergiriam sempre que o desenvolvimento ocorresse. 
O importante a ser ressaltado aqui é que esta abordagem permite modificar 
a forma de como se analisa o processo de desenvolvimento. Ao invés de se 
concentrar na discussão da existência ou não de fatores de produção ou recursos 
naturais, o que se torna necessário seria 
 to focus on the essential dynamic and strategic aspects of the development 
process. Instead of concentrating exclusively on the husbanding of scarce 
resources such as capital and entrepreneurship, our approach leads us to look 
 
tender excessivamente para o segundo. Esta situação levaria os bancos a interromperem o processo de 
concessão de empréstimos, levando ao encerramento do ciclo de expansão. 
 
 
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“pressures” and “inducement mechanisms” that will elicit and mobilize the 
largest possible amounts of these resources. (Hirschman 1958, p. 6) 
Neste sentido, segundo o autor, o planejamento do desenvolvimento 
constituiria essencialmente na constante construção de “pacing devices”. 
Em segundo lugar, Hirschman descarta veementemente a hipótese segundo 
a qual o processo de desenvolvimento ocorreria de forma equilibrada, na qual os 
vários setores da economia deveriam crescer pari passu de forma a se evitar 
desequilíbrios estruturais. Ao contrário, segundo o autor, o desenvolvimento 
deveria ser visto como uma cadeia de desequilíbrio. Este desequilíbrio, usualmente 
gerado por diferencial de lucratividade entre setores, deveria ser mantido: 
In other words, our aim must be to keep alive rather than to eliminate the 
disequilibria of which profits and losses are symptoms in a competitive 
economy. If the economy is to be keep moving ahead, the task of development 
policy is to maintain tensions, disproportions, and disequilibria. […] 
Therefore, the sequence that ‘leads away from equilibrium’ is precisely an 
ideal pattern of development from our point of view: for each move in the 
sequence is induced by a previous disequilibrium and in turn creates a new 
disequilibrium that requires a further move. This is achieved by the fact that 
the expansion of industry A leads to economies external to A but appropriable 
by B, while the consequent expansion of B brings with it economies external to 
B but subsequently internal to A (or C for that matter), and so on (Hirschman 
1958, p. 66-67). 
A citação anterior é importante, pois ela deixa bem claro o processo 
cumulativo existente no processo de desenvolvimento demonstrando, assim, as 
similaridades existente entre Hirschman e Myrdal. Tais similaridades não são 
apenas em relação à existência de um processo cumulativo, mas também em 
relação aos rebatimentos deste processo nas relações inter-regionais e 
internacionais. Hirschman explicitamente reconhece que as diferenças regionais 
internas a um país são explicadas pelos mesmos fatores que foram salientados por 
Myrdal, tendo as economias de escala um papel fundamental na explanação do 
porque do desenvolvimento se concentrar em apenas alguns pontos do espaço. Nas 
suas palavras: 
Whatever the reason, there can be little doubt that an economy, to lift itself to 
higher income levels, must and will first develop within itself one or several 
regional centers of economic strength. This need for the emergence of 
“growing points” or “growth poles” in the course of the development process 
means that international and interregional inequality of growth is an 
inevitable concomitant and condition of growth itself. (Hirschman 1958, p. 
183-84). 
 
 
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Além disso, os