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Tese Professor titular Crocco

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human activities (Kaldor 
1970, p. 340) 
 Segundo Kaldor, a demanda oriunda de fora de uma região específica, ou 
seja, suas exportações determinaria a taxa de crescimento desta região. O 
mecanismo funcionaria através de um acelerador derivado da taxa de crescimento 
das exportações, que determinaria a taxa de crescimento da capacidade industrial 
e do consumo. 
O processo de causação circular cumulativa, nesse contexto, seria 
determinado pela Lei de Verdoom, que afirma existir uma forte correlação positiva 
entre a taxa de crescimento da produtividade e a taxa de crescimento da economia 
como um todo. Desta forma, dada uma vantagem competitiva inicial de uma região 
especifica, que é refletida na sua produtividade relativa, produzirá taxas de 
crescimento diferenciadas favoráveis à esta região, ampliando ainda mais a 
vantagem inicial, determinando o surgimento de um processo cumulativo que 
resultaria na ampliação das desigualdades regionais. 
Vale a pena notar que não existe restrição monetária para que tanto o 
aumento da capacidade quanto do consumo sejam efetuados. Isto só é possível em 
duas situações: uma, onde todo o investimento e/ou consumo é financiado por 
recursos próprios ou, outra, onde o sistema financeiro valida todas as decisões de 
investimentos e/ou consumo. Este segundo caso é a posição de Kaldor (Kaldor, The 
new moneatrism, 1978) em relação à oferta de moeda. Ou seja, uma visão 
horizontalista da oferta de moeda. 
Nessa visão, como visto, desde que o Banco Central passou a ter a função de 
emprestador de última instância, o sistema financeiro sempre validará as decisões 
de investimento toda vez que os demandantes de empréstimos aceitarem pagar a 
 
 
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taxa de juros por ele estabelecida. Esta taxa será definida através de um 
mecanismo de mark-up sobre a taxa cobrada pelo Banco Central para fazer 
empréstimos de liquidez para o sistema bancário. Desta forma, é a expectativa de 
lucratividade dos demandantes de empréstimos que, em última instância, 
determinará a oferta de moeda. Toda vez que esta expectativa for superior à taxa 
de juros cobrada pelo sistema financeiro, o empréstimo será solicitado e o sistema 
bancário validará esta demanda. Em outras palavras, a oferta de moeda é 
endogenamente determinada pelo lado real da economia. 
As conseqüências desta interpretação para a questão regional é direta. Nas 
palavras de Amado (1997,p. 20) 
It is assumed that the interest rate is fixed by the Central Bank and that at this 
level the credit supply is infinitely elastic to all regions; thus the financial 
market is neutral in relation to the uneven pattern of development. Therefore, 
the unique source on inequality between regions is found in the real side of 
the economy. 
Em outras palavras, apesar da oferta de moeda ser considerada endógena, o 
que é um avanço em relação à abordagem verticalista a atuação do sistema 
financeiro continua sendo tratado com neutra em termos regionais. Nesse caso, 
apenas as variáveis reais determinaria desequilíbrios regionais. 
 
I.2.1.2 BIG PUSH 
Rosenstein-Rodan em seu artigo de 1943 propôs, como forma de 
desenvolvimento de regiões atrasadas, o que ficou conhecido como Big-Push. Este 
seria um conjunto de investimentos, a serem realizados simultaneamente em 
várias indústrias complementares nestas regiões, de forma a gerar um crescimento 
balanceado. Somente através destes investimentos complementares que o 
processo de industrialização em larga escala poderia acontecer. Nas palavras de 
Rosenstein-Rodan: 
The planned creation of such a complementary system reduces the risk of not 
being able to sell, and, since risk can be considered as cost, it reduces costs. It 
is in this sense a special case of external economies. (Rosenstein-Rodan 1943, 
p.206) 
Todo o processo de desenvolvimento, decorrente deste volume de recursos 
investidos, seria estimulado através dos efeitos de encadeamentos e economias 
 
 
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externas decorrentes. Dessa forma, um ambiente favorável ao investimento seria 
criado, estimulando o crescimento industrial daí decorrente. O próprio autor 
reconhece, contudo, as dificuldades do sistema financeiro privado em prover 
recursos, no montante e com o custo desejável, para tamanha empreitada, uma vez 
que este seria um padrão de financiamento bem distinto do observado até então. 
Nesse caso, 
the alternative is for governments in creditor countries to guarantee the loans, 
or to lend the funds themselves (Rosenstein-Rodan 1943, p. 210) 
Para tanto, propõe a criação de um fundo, o qual denominou Eastern 
European Industrial Trust (E.E.I.T.). Através de participações na administração 
deste fundo, os governos superariam as desconfianças iniciais relacionadas tanto a 
gestão, quanto ao ressarcimento dos empréstimos: 
If they have sufficient control on the board of E.E.I.T. they will be able to give 
the guarantee at no cost or risk to them-selves, since the real risk of the whole 
enterprise is very much lower than the risks relating to parts of the whole 
would be. (Rosenstein-Rodan 1943, p. 209) 
Apesar de solucionar o problema do financiamento tornando-o uma decisão 
política, Rosenstein-Rodan não atribuiu qualquer papel ao sistema financeiro neste 
estágio inicial. Em duas passagens da obra seminal do autor, pode-se inferir uma 
concepção de moeda e sistema financeiro na qual este último não desempenha 
papel ativo no desenvolvimento de uma região atrasada. Em um primeiro 
momento, quando discute porque não seria desejável que um país realizasse um 
processo de superação do atraso através de uma industrialização completa e 
vertical, ele diz: 
That would imply the construction of all stages of industry, heavy industry, 
machine industry, as well as light industry, with the final result of a national 
economy built like vertical industrial concern. This way presents several grave 
disadvantages: (a) It can only proceed slowly, because capital must be 
supplied internally at the expense of a standard of life and consumption which 
are already at a very low level. (Rosenstein-Rodan 1943, p. 203). 
A frase anterior deixa claro o papel desempenhado pela poupança prévia no 
processo de investimento. Não existe a possibilidade de o sistema financeiro criar 
moeda a partir do finance. Ou seja, somente com a redução do consumo corrente é 
que o volume necessário de capital para realizar os investimentos necessários 
seriam realizados. 
 
 
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Em segundo lugar, não existe consideração alguma acerca do papel do 
sistema financeiro no processo de crescimento posterior a este Big-Push inicial. 
Isto só poderia ser explicado por duas suposições: ou o próprio E.E.I.T. continuaria 
a suprir os fundos necessários para os investimentos; ou o sistema financeiro local 
faria isto, a partir da captação poupança gerada a partir do crescimento da renda 
derivada deste grande volume de investimentos iniciais. Nesta segunda hipótese, 
fica mais uma vez evidente o papel passivo desenvolvido pelo sistema financeiro. 
 
I.2.1.3 TEORIA DOS PÓLOS DE CRESCIMENTO 
 
A Teoria dos Pólos de Crescimento tem sua formulação inicial desenvolvida 
por Perroux (1967 [1964]), em sua obra A Economia do Século XX. Durante as 
décadas seguintes tornou-se, talvez, a mais difundida Teoria de Desenvolvimento 
Regional, sendo a base teórica que sustentou inúmeras políticas de 
desenvolvimento regional. Como salienta Parr, 
A newcomer to the field at that time could have been excused for 
thinking that no matter what the nature of the regional problem, it 
could be most effectively overcome by the adoption of a growth-pole 
strategy (Parr 1999a, p. 1195). 
Em sua aplicação prática, a estratégia de pólos de crescimento foi