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Tese Professor titular Crocco

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amenity 
(broadly defined) and the derived or indirect advantage of a pool of qualified 
labor. (Parr e Budd 2000, p. 603) 
 Como as economias de urbanização tendem a aumentar com o aumento do 
tamanho da concentração urbana, pode-se inferir que firmas que forneçam 
serviços financeiros tendem a se localizar em grandes cidades ou centros 
metropolitanos. 
 
 
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Finalmente, as economias de atividades complexas estariam presentes no 
setor financeiro principalmente através dos custos de transação, particularmente 
os relacionados à aquisição de informação. Isto ocorreria, por exemplo, em centros 
que possuíssem, simultaneamente, no seu interior atividades de gestão de 
portfólios, derivativos e câmbio. 
 
 
I.4 A MOEDA E A GEOGRAFIA ECONÔMICA: UMA ANÁLISE CRÍTICA 
Após anos merecendo um tratamento secundário, a discussão acerca dos 
vários aspectos da relação entre moeda e território voltou a ganhar destaque entre 
os geógrafos econômicos a partir da segunda metade dos anos 1980. De lá para cá, 
uma profusão de trabalhos relacionados a esta temática surgiu, analisando suas 
várias dimensões. Leyshon (1995), ao fazer uma revisão da literatura sobre 
geografia da moeda e das finanças, afirma que, por volta do início da segunda 
metade dos anos 1990, já existia um conjunto de produção científica na área 
suficiente para caracterizar o que chamou de “o fim do início”. Ou seja, o 
tradicional isolamento desta área de pesquisa, quer seja entre os economistas 
regionais, quer seja entre os geógrafos econômicos, foi superado a ponto de Martin 
(1999) afirmar que a geografia da moeda e das finanças podem ser considerada 
uma subdisciplina da geografia econômica. 
A comprovação do ressurgimento do interesse pode ser exemplificada pela 
constatação, já em 2000, da existência de vários trabalhos destinados a realizarem 
uma revisão da literatura sobre o tema (Leyshon 1995, 1997, 1998 e 2000; Dow e 
Rodrigues-Fuentes 1997; Martin 1999 e Tickell 2000). 
Várias são as explicações para a moeda ter ficado em segundo plano nos 
estudos sobre geografia econômica (Leyshon 1995, 2000; Martin 1999) e, entre 
elas, pode-se apontar o fato da maioria dos pesquisadores apoiar-se no arcabouço 
teórico neoclássico no qual a moeda é neutra no longo prazo. Além disto, entre os 
geógrafos, o foco preponderante da investigação em pontos fixos de produção, 
caracterizados por serem tangíveis e estáticos, também relega a moeda a uma 
posição secundária. Assim sendo, não é de se estranhar o fato de que estudos sobre 
 
 
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as várias dimensões da moeda não sejam habitualmente encontrados na literatura 
de desenvolvimento regional.37 
Este quadro se manteve até o início da década de 1980 quando surgem 
trabalhos que começam a analisar o funcionamento do sistema financeiro e seus 
impactos espaciais. O ressurgimento do interesse sobre esta temática estaria 
relacionado basicamente a dois fatores. De um lado, a ocorrência de crises 
econômicas e políticas que sempre apresentavam uma dimensão financeira 
marcante, de tal forma que, como salienta Leyshon, 
nobody can any longer be immune to the ways in which the financial system 
holds sway over the trajectory of people’s life(Leyshon 1995, p. 531) 
De outro, o profundo processo de reestruturação pelo qual o sistema 
financeiro passou neste período - caracterizado por uma ampla liberalização dos 
mercados financeiros e uma grande transformação tecnológica relacionada à 
geração, transmissão e armazenamento de dados e informação - determinou um 
processo de aprofundamento de integração financeira nunca visto 
anteriormente.38 
É possível identificar distintas abordagens teóricas e empíricas sobre o 
tratamento da moeda e finanças no espaço. A primeira relaciona-se com o lugar e a 
dinâmica urbana das finanças e tem em David Harvey (1973, 1982, 1989) a 
contribuição seminal. Usando um referencial marxista, este autor procura mostrar 
como a lógica do processo de acumulação capitalista dentro do sistema financeiro 
determina o desenvolvimento desigual no interior de estruturas urbanas. Usando o 
exemplo de Baltimore, Harvey tenta mostrar como a lógica capitalista das 
instituições financeiras faz com que existam áreas super povoadas, de baixa renda, 
com oferta de imóveis a serem vendidos a baixo preço e a população sem acesso ao 
crédito para comprar tais imóveis. Isto porque a lógica capitalista do sistema 
financeiro faz com que o empréstimo a este tipo de agente se torne uma atividade 
 
37 Martin (1999, p. 7) aponta quatro dimensões relacionadas ao que chamou de “circuito geográfico do sistema 
financeiro”: a localização espacial de instituições financeiras; as diferenças institucionais no espaço; os 
espaços regulatórios; e, finalmente, o gasto público através da sociedade, regiões e localidades. Estas quatro 
geografias do sistema financeiro – a locacional, a institucional, a regulatória e a pública – moldam os fluxos 
monetários através do espaço. 
38 Por integração completa do sistema financeiro entende-se uma situação onde um agente pode obter uma 
determinada quantia de crédito a um custo determinado, independentemente de onde ele se encontra. 
 
 
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mais arriscada. Pode-se afirmar que tais estudos são os precursores da temática da 
exclusão financeira, altamente em voga nos dias atuais. 
Na seqüência destes estudos, outros também procuraram explicar os 
processos de “exclusão financeira” (Leyshon e Thrift 1997) para descrever os 
procedimentos através dos quais classes sociais menos favorecidas e minorias 
sociais têm o acesso aos serviços financeiros tradicionais negado.39 O importante 
desta discussão está no fato de que esta gama de excluídos é aquela que enfrenta 
formas diversas de privações. Assim sendo, a forma de operação do sistema 
financeiro contribuiria para aprofundar tais privações. Este processo, por sua vez, 
tem rebatimentos espaciais uma vez que a população de excluídos tende a se 
concentrar em áreas específicas dentro das cidades ou em áreas rurais. É 
importante notar que esta linha de pesquisa expande as investigações iniciais de 
Harvey, uma vez que não se concentra apenas na questão do financiamento 
habitacional. O que está em discussão é a possibilidade de uma parcela significativa 
da população ser excluída de serviços financeiros básicos como conta bancária, 
acesso ao crédito, uso de cartão de crédito e cheques, (Leyshon e Thhrift, 1996 e 
1997; Dymsky and Veitch 1996). Esta questão possui uma relação direta com o 
processo de concentração de agências bancárias, vivenciado não apenas no Brasil 
mas também nos EUA e no Reino Unido, com impactos territoriais bem claros. Nas 
palavras de Leyshon, 
closures in Britain and the USA were spatially uneven, with branches 
closing fastest in areas of social and economic deprivations, particularly 
inner cities with large ethnic minority populations. ( Leyshon 2000, p. 
437) 
Um segundo grupo de estudos seria formado por aqueles preocupados em 
discutir tipos específicos de instituições financeiras, serviços e mercados, tais 
como fundos de pensão, venture capital, reestruturação de serviços bancários e 
 
39 Os processos de exclusão financeira mais conhecidos seriam o racionamento de crédito, redlines e 
blockbusting. Os dois primeiros: 
“…reinforce the class and ethnic segregation of the city by denying credit to individuals and 
families within certain parts of the city, and at times prevents class and ethnic mixing by 
directing certain groups away from areas to retain the “character” of the neighbourhood. 
Blockbusting encouraged ethnic mixing in the anticipation