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Tese Professor titular Crocco

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de empréstimos permitiriam uma maior cumplicidade em termos de objetivos, 
superação da assimetria de informação existente entre credores e tomadores de 
empréstimos, surgimento de uma cultura de confiança e “moeda paciente”. Ou seja, 
poder-se-ia afirmar que existiria uma forte relação entre a configuração do sistema 
financeiro (que é distinto no espaço) e a forma de seu relacionamento com a 
estrutura produtiva, em um processo de influências recíprocas entre ambas 
esferas. Existiriam, assim, distintas formas de articulação entre a esfera produtiva 
e a esfera financeira, com distintos impactos sobre a configuração dos espaços 
econômicos nos quais tais articulações estão inseridas.41 
 
Apesar da discussão sobre a influência da moeda no desenvolvimento 
regional estar mais enraizada entre os geógrafos econômicos a ponto de ser 
considerada uma sub-disciplina, não é possível afirmar que esta linha de 
investigação fornece os instrumentos analíticos necessários para um real 
entendimento do papel da moeda e do sistema financeiro na configuração das 
disparidades regionais. A razão para isto, no entendimento deste autor, é o fato dos 
geógrafos econômicos, de uma forma geral, não incorporarem como instrumento 
de sua análise uma teoria monetária adequada. 
Como pode ser notado na revisão acima, os efeitos que a moeda tem sobre o 
território estariam ligados não às características da moeda, mas sim a falhas de 
mercado relacionadas ao processo de concessão de crédito e ao funcionamento do 
sistema financeiro. Embora não se possa desconsiderar tais elementos como 
importantes para entender dinâmicas econômicas diferenciadas entre regiões, eles 
não são suficientes para colocar a moeda como elemento importante na explicação 
 
41 Para uma análise mais detalhada dos impactos regionais da globalização financeira em relação à sua 
integração, regulamentação e, principalmente, o enfraquecimento de sistemas regionais de financiamento ver 
Martin 1999; Tickell 2000; Wójcik 2003; Klegg e Martin 2005. 
 
 
 
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das disparidades regionais. Isto porque, seriam as “falhas de mercado” que 
definiriam as características dos impactos. Uma vez eliminadas as “falhas de 
mercado”, a influência da moeda sobre o desenvolvimento regional desapareceria. 
Pode-se dizer que a abordagem Novo-Keynesiana, em última instancia não 
incorpora a moeda, uma vez que as “falhas de mercado” são fenômenos localizados 
no “lado real” da economia. 
 
 
 
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I.5 ELEMENTOS PARA UMA TEORIA MONETÁRIA DE 
DESENVOLVIMENTO REGIONAL E URBANO 
A revisão crítica efetuada anteriormente evidenciou os limites das teorias 
de desenvolvimento regional e urbano de acordo com a perspectiva Pós 
Keynesiana aqui adotada em relação ao papel desempenhado pela moeda. Vale 
notar que, embora não se possa negar uma clara conotação keynesiana centrada na 
demanda efetiva nos modelos de desenvolvimento não ortodoxos analisados, estas 
limitações estão presentes ao considerarem a moeda neutra em seus efeitos. Nas 
palavras de Amado, 
some models do not have a well specified monetary framework. Other models 
follow the orthodox characterization of finance as representing saving, and 
thus, present a monetary theory which is in essence orthodox. Finally, some 
models assume absolute endogeneity of the money supply and so see money 
merely as accommodation variable. These models find causes for different 
patterns of regional development only among real elements. Therefore, even 
among the heterodoxy we have a “real” bias in the analysis of regional 
development. (Amado 1999, p. ix). 
Além disto, fica claro que a perspectiva Keynesiana, embora simpática aos 
geógrafos econômicos, perdeu espaço no debate, não sendo capaz de se tornar 
referência e, assim sendo, influencia-ló. 
No que se segue, é apresentada uma “contribuição” Pós Keynesiana para o 
entendimento das disparidades regionais. O termo “contribuição” foi coloca entre 
aspas porque no entendimento do autor desta tese, como será mostrado a seguir, 
não é possível dizer que exista uma “Teoria Pós Keynesiana de Desenvolvimento 
Regional”. Isso porque na literatura Pós Keynesiana não há uma concepção clara de 
“região”e de seus elementos constitutivos. Pode-se afirmar, portanto, que existe 
uma agenda de pesquisa em aberto para pesquisadores desta tradição teórica. Em 
certa medida, esta tese é uma contribuição a esta agenda. 
Apresenta-se, a seguir, o atual estágio de desenvolvimento de uma Teoria 
Pós-Keynesiana de Desenvolvimento Regional e realiza-se algumas reflexões sobre 
ela. 
Como visto, o papel desempenhado pela moeda em uma economia 
monetária de produção pode ser considerado um elemento diferenciador da 
abordagem Pós-Keynesiana frente às demais correntes de pensamento econômico, 
 
 
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notadamente aquelas que compartilham a matriz teórica clássica (monetaristas, 
neoclássicos, Novo-Clássicos e, em determinada medida, Novos Keynesianos). No 
cerne desta diferenciação está a não neutralidade da moeda. 
Como se sabe, a neutralidade das variáveis financeiras é assumida pelo 
mainstream em economia, significando que a renda real depende apenas de fatores 
reais. A moeda é vista como um véu que facilita as trocas e ajusta o nível geral de 
preços. Os bancos, por sua vez, são também considerados neutros, pois alocam 
poupanças disponíveis entre projetos alternativos. Regionalmente, o sistema 
bancário somente afetará o desempenho das variáveis reais quando falhar na 
alocação do crédito nacional entre diferentes regiões em virtude de falhas de 
mercado, tais como informação imperfeita ou assimétrica, ou de barreiras à sua 
atuação, como custos de transação. Assumindo que nenhum destes problemas 
ocorrer o mercado de crédito regional atuará de forma apropriada e equilibrará o 
fluxo financeiro interregional, fazendo com que as regiões se deparem com uma 
curva de oferta de crédito perfeitamente elástica. 
Embora as raízes de diferenças de renda regionais possam ser atribuídas a 
fatores estruturais, variáveis monetárias podem contribuir para a manutenção e 
ampliação destas diferenças, quando se adota uma abordagem na qual a moeda e 
os bancos são não-neutros para o desenvolvimento regional. 
Uma abordagem Pós-Keynesiana, além de considerar a oferta de moeda 
endógena ao funcionamento do sistema econômico, também se distingue das 
demais por abordar de forma integrada a oferta e a demanda no mercado de 
crédito regional. Para estes autores, a oferta e a demanda de crédito são 
interdependentes e afetadas pela preferência pela liquidez, vinculada às 
expectativas que os agentes formam em um ambiente de incerteza. Do ponto de 
vista dos bancos, a preferência pela liquidez afetará negativamente a sua 
disposição em emprestar na região, caso possuam expectativas pessimistas ou 
pouco confiáveis sobre ela. No lado da demanda por crédito, a preferência pela 
liquidez do público afetará suas respectivas decisões de portfólio. Quanto maior a 
preferência pela liquidez, maior as posições em ativos líquidos destes agentes e 
menor sua demanda por crédito. 
 
 
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A partir destes conceitos teóricos e utilizando-se de elementos das teorias 
da Causação Cumulativa e da Dependência, Dow (1982 e 1987) apresenta alguns 
modelos em que o sistema financeiro, juntamente com o lado real da economia, 
pode promover padrões de desenvolvimento regional desiguais. Dow (1982) tenta 
traduzir os argumentos de liquidez para um contexto espacial. Assim, economias 
contemporâneas com igual base monetária possuiriam multiplicadores monetários 
mais elevados quanto mais otimistas forem as expectativas sobre os preços locais