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Tese Professor titular Crocco

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sobre as regiões 
estarem associadas a falhas de mercado. Ou seja, não são as características da 
moeda e da forma de operação do sistema financeiro que permitem uma 
construção teórica onde tais fatores afetam o desenvolvimento regional, mas sim 
as falhas de mercado. Caso estas não existissem, não haveria a possibilidade 
teórica da moeda e o sistema financeiro interferirem na construção e ampliação 
das desigualdades regionais. 
 A perspectiva teórica defendida nesta tese discorda veementemente desta 
abordagem ao creditar às características intrínsecas da moeda e da forma de 
operação do sistema financeiro os determinantes de seus impactos sobre as 
disparidades regionais. Vale dizer, mesmo em um mundo onde não existissem 
imperfeições de mercado, estas características intrínsecas garantiriam a 
possibilidade do lado financeiro interferir, tanto no curto, quanto no longo prazo, 
na ocorrência de disparidades regionais. 
 
 
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No restante desta Parte I será apresentada, de forma crítica, esta 
abordagem. Para tanto, inicia-se com a discussão dos fundamentos teóricos mais 
gerais que sustentam a teoria Pós-Keynesiana, notadamente a sua interpretação 
sobre o papel desemplenhado pela moeda em economias capitalistas, como a que 
conhecemos hoje. Esta base teórica é utilizada para uma re-leitura crítica dos 
clássicos da literatura sobre desenvolvimento regional e urbano, buscando 
entender como tais teorias incorporaram a moeda em suas formulações. Após esta 
revisão, conclui-se esta parte com uma análise critica da contribuição da teoria 
Pós-Keynesiana à economia regional. 
 
 
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I.1 MOEDA E SISTEMA FINANCEIRO NA TEORIA PÓS-KEYNESIANA: 
DEFININDO O MARCO TEÓRICO 
O objetivo desta seção é destacar os princípios teóricos essenciais para o 
entendimento da abordagem Pós-Keynesiana para economia regional. Não se 
pretende aqui fazer uma discussão detalhada desta corrente de pensamento, mas 
apenas analisar aqueles elementos que são necessários à elaboração da 
“Perspectiva Pós Keynesiana de Economia Regional”. 
Nesse sentido, entende-se que três questões são fundamentais: i) o conceito 
de Economia Monetária de Produção, o qual expressa, claramente, como Keynes e 
os Pós Keynesianos entendem o funcionamento da economia capitalista, tendo a 
moeda como elemento central; ii) a discussão sobre a oferta de moeda, 
fundamental para o entendimento tanto dos limites de atuação das autoridades 
monetárias, como também do papel desempenhado pelo sistema bancário; e iii) as 
relações entre poupança, finance e funding, essencial para o entendimento do 
processo de investimento, variável-chave na discussão do conceito de demanda 
efetiva. Nas próximas seções analisaremos, em detalhe, cada uma destas questões. 
 
I.1.1 ECONOMIA MONETÁRIA DE PRODUÇÃO E SEUS FUNDAMENTOS 
É amplamente reconhecido que Keynes, no período em que escrevia a 
Teoria Geral (Keynes 1973 [1937]), tinha a convicção de que o que estava 
escrevendo seria uma grande ruptura com a teoria ortodoxa vigente a época. 
Apesar disto, Keynes optou, na versão final da Teoria Geral, por não aprofundar o 
provável confronto com economistas ortodoxos. Assim sendo, embora tenha 
desenvolvido, nos rascunhos da Teoria Geral, uma análise detalhada do que 
entendia ser os fundamentos de uma economia capitalista de produção, ele optou 
por iniciar a sua obra mais importante aceitando, em parte, alguns fundamentos da 
escola clássica, de forma a mostrar que a sua principal conclusão – a possibilidade 
de equilíbrio com desemprego involuntário - se sustentaria. 
 
 
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No entanto, como ficou evidente nos anos seguintes à publicação da Teoria 
Geral, esta estratégia não alcançou os resultados esperados, gerando não apenas 
interpretações equivocadas de sua obra, como também um grande desconforto no 
próprio Keynes em relação à forma que ele expôs suas críticas à teoria clássica nos 
dois capítulos iniciais da Teoria Geral. Nestes capítulos, Keynes expõe o que 
considera ser o cerne da economia clássica que pretende negar e tenta mostrar que 
os dois postulados centrais da teoria clássica – o primeiro definindo que a salário 
nominal seria igual à produtividade marginal do trabalho e o segundo definindo 
que a utilidade marginal do salário, dado o volume de trabalho empregado, sempre 
se iguala à desutilidade marginal deste trabalho – deveriam ser entendidos como 
um caso especial e não uma regra geral. 4 
Por volta de 1939, o descontentamento de Keynes com esta abordagem já 
era claro: 
If the falling tendency of real wages in periods of rising demand is 
denied … it would be possible to simplify considerably the more 
complicated version of my fundamental explanation which I have 
expounded in my General Theory – particularly in Chapter 2, which is 
the portion of my book which most needs to be revised (Keynes 1973b, 
p. 401) 
Embora Keynes não tenha revisto seu livro, foi possível inferir qual seria o 
caminho que ele tomaria quando veio a público a publicação de seus Collected 
Writings em 1973. Nesta coletânea encontram-se versões preliminares da Teoria 
Geral nas quais ele mostra, claramente, sua oposição aos fundamentos da Teoria 
Clássica, bem como o seu entendimento dos princípios de uma Economia 
Monetária de Produção. (Keynes 1979). 
Nos rascunhos da Teoria Geral, Keynes diferenciou os ‘modelos’ de 
economia que sustentavam a teoria econômica Clássica, dominante a época, e a sua 
 
4 “Paradoxically, Keynes’s attempt in Chapter 2 to differentiate his new theory from the old has resulted in 
complete misunderstanding of the fundamental difference between The Genera Theory and pre-Keynesian 
economics and has paved the way for neoclassical revival. His uncritical acceptance of the first postulate 
(diminishing marginal productivity of labour in the short period) without emphasizing that in his system the 
postulate does not give us the demand schedule for employment, together with his arguments concerning the 
stickyness of money-wages and the inability of labour as whole to reduce its real wage, led many to believe 
that all Keynes’s theory amounted to was an, admittedly realistic, critique of the imperfect operation of the 
labour market. The cure for unemployment was to bring about supply-side improvements to increase the 
(downward) flexibility of money and real wages – the neoclassical solution. (Brothwell 1997, p. 4) 
 
 
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nova teoria. Tais ‘modelos’ foram denominados por ele de Economia Co-operativa 
(ou Economia de Trocas Reais), no caso da economia clássica, e de Economia 
Empresarial (ou Economia Monetária de Produção), no caso de sua teoria. Dentre 
os vários elementos que diferenciavam tais modelos, o papel desempenhado pela 
moeda se destaca. Nas palavras de Keynes, a diferença básica entre a teoria 
ortodoxa e a por ele preconizada estaria no fato de sua teoria lidar com 
an economy in which money plays a part of its own and affects motives and 
decisions and is, in short, one of the operative factors in the situation, so that 
the course of events cannot be predicted, either in the long period or in the 
short, without a knowledge of the behavior of money between the first state 
and the last. And it is this which we ought to mean when we speak of a 
monetary economy (Keynes, 1973 CW XII, 408-9) 
Uma Economia de Troca seria constituída por produtores e consumidores 
independentes que trocariam os excedentes de suas produções acima de suas 
necessidades. Esta troca poderia ocorrer de forma direta (ou seja, mercadoria por 
mercadoria) ou por algum meio de pagamento, sendo que, no entanto, sempre 
existiria um mecanismo que assegurasse que toda renda gerada