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A Origem da Obra de Arte (dissertação)

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Eröffnung = abrir[-se] 
Gelichtete = aclarado 
Geschehnis = acontecimento 
Gestalt = forma 
Gestell = armação 
Herstellen, Herstellung = elaborar, elaboração 
Hervorbringen = trazer-à-frente 
Insichruhende = [caráter de] repousar-em-si-mesmo 
Insichstehen = estar-em-si 
Lichtung = clareira 
Offene = [o] aberto 
Offenheit = abertura 
Stellen = estabelecer 
Unverborgenheit = não-encobrimento 
Verborgenheit = encobrimento 
Verbergung = acobertamento 
Verläßlichkeit = confiabilidade 
Verstellen = camuflar, camuflagem 
Vorhandene = diante-da-mão 
Wesen = essência 
Zu nichts gedrängt = [ser] impelido para nada 
Zuhandene = [o que está] à-mão, manual 
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A OBRA DE ARTE COMO ESSENCIALIZAÇÃO DA VERDADE: 
MUNDO, TERRA E O NÃO-ENCOBRIMENTO 
 
 
Introdução 
 
 O presente trabalho, que acompanha a tradução de “Der Ursprung des 
Kunstwerkes” (“A Origem da Obra de Arte”), tem por título “A obra de arte como 
essencialização da verdade: mundo, terra e o não-encobrimento”. Vamos introduzi-lo 
buscando os elementos do título. 
O desenvolvimento do sentido que Heidegger dá à palavra “origem”, no ensaio 
sobre a origem da obra de arte, encontrará o sentido de “essencialização” empregue por ele 
mesmo logo no parágrafo de abertura: a origem [Ursprung] significa “aquilo a partir e 
através do qual uma coisa é o que ela é e como ela é” (UK, p.7). O que algo é, como ele é, é 
a sua essência (Wesen). Assim, “a origem de algo é a proveniência de sua essência” e “a 
pergunta pela origem da obra de arte pergunta pela proveniência de sua essência” (UK, 
p.7). 
A essência não é, porém, uma determinação estática da obra de arte; ela é antes 
pensada por Heidegger como algo que vem a ser, como acontecimento: “a obra acontece a 
partir de”; este é o modo de pensar presente no início do texto. Essência tem de ser 
entendida, assim, como essencialização, e isto aponta imediatamente para sua proveniência. 
De onde vem a obra de arte? De que se faz sua essência? 
Heidegger adentra, em seguida, um círculo presente na questão que consiste em 
assumir que tanto é verdade que a obra de arte tem origem na atividade do artista e através 
dela, quanto é verdade que o artista, como tal, tem sua origem na obra. O círculo se 
desfecha, porém, na visão de que “artista e obra são cada qual em si e em sua mútua relação 
através de um terceiro, o qual é o primeiro, a saber, aquilo através e a partir do qual artista e 
obra de arte têm seu nome: através da arte” (ib., p. 7). Esse desfeche é uma primeira 
abertura da questão, porque aponta para a necessidade de retirar da idéia de origem, de 
proveniência da essência, todo sentido de causalidade. Mas o que a arte seja não pode ser 
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conhecido antes de ser buscada lá onde ela própria se essencializa (west): na obra de arte. 
Todo o ensaio de Heidegger volta-se, assim, para a especificidade da obra de arte. A 
pergunta é então “o que e como é uma obra de arte?”, pergunta a ser respondida por uma 
ida até a própria obra, que é “onde sem dúvida a arte efetivamente se cumpre” (ib., p. 8). 
Heidegger insiste na idéia do círculo: a obra procurada não pode ser tomada como 
um ente simplesmente dado, diante-da-mão (vorhandenen), pois isso seria estar preso ao 
círculo de uma pré-concepção do que seja a obra de arte. O círculo virtuoso estaria em 
adentrar o âmbito liberado na própria obra, o que requer não tomá-la como um ente dado e 
disponível segundo determinadas características, requer uma transposição para aquilo que 
ela torna manifesto ao manifestar-se ela mesma, em outras palavras, uma transposição para 
o que ela mesma abre porquanto ela é uma abertura. 
Deparamo-nos com o primeiro sentido de “não-encobrimento” (Unverborgenheit). 
A noção de verdade está, primeiramente, na verdade sobre a obra. Mas a verdade sobre a 
obra só pode sê-lo a partir da abertura que a própria obra deve ser. Isso significa que a obra, 
em sua essencialização, é uma essencialização da verdade mesma. Isso nos reconduz à idéia 
de “proveniência”: quando Heidegger pergunta o que e como é uma obra de arte – o que 
implica a proveniência, o seu de-onde – e se é a obra quem unicamente nos pode dizer 
sobre si mesma, isso significa então que a própria possibilidade da continuidade do ensaio 
repousa em assentir que na própria obra dá-se um âmbito, um lugar a partir do qual o 
pensamento poderá experimentá-la em seu ser. Mas a dimensão mais ampla disso, que se 
revela no transcorrer do ensaio de Heidegger até o fim, está em que o “de-onde” manifesto 
na e pela obra de arte abrange aquilo que é essencial à verdade enquanto tal, isto é, abrange 
os conceitos de “mundo” e de “terra” como âmbito, como lugar do não-encobrimento e 
encobrimento de todo ente, numa palavra, lugar da essencialização do ente no todo. 
Em virtude dessa ampla dimensão, da significância em relação à noção mesma de 
verdade como não-encobrimento do ser no pensamento de Heidegger, fez-se necessário a 
nosso trabalho retroceder a momentos anteriores a “A Origem da Obra de Arte”. Heidegger 
indica o “aceno decisivo” que Gadamer teria dado ao escrever uma introdução para “A 
Origem da Obra de Arte”. Nela, Gadamer fala da novidade conceitual que é a “terra”, e que 
ele chamou de um “contra-conceito” ao conceito de mundo tal como desenvolvido em Ser e 
Tempo, isto é, como o todo de relações em que se projetava o horizonte de cuidado do ser-
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aí humano. O “mundo” de Ser e Tempo era a condição de possibilidade total, não apenas da 
existência, como também da tarefa de uma ontologia fundamental da existência, porquanto 
existência era essencialmente ser-no-mundo. Já o conceito de terra possuía um rasgo para a 
poesia, uma “entoação mítica e gnóstica” que parecia contrariar a autocompreensão do ser-
aí enquanto ser-no-mundo. Como poderia advir uma relação ontológica harmônica entre 
“mundo” e “terra”, se esta parecia “ter direito de cidadania no máximo no mundo da 
poesia”? Mas ao mencionar o “mundo da poesia” como algo separado de um suposto 
“mundo do pensamento epistemológico”, Gadamer denuncia justamente algo que 
Heidegger buscou minar após Ser e Tempo: a separação de pensamento e poesia. O próprio 
Gadamer considera que a visada essencial de “A Origem da Obra de Arte” é que “terra” é 
uma determinação necessária de ser da obra de arte. 
A partir dessa indicação de Gadamer, buscamos explicitar a relação ontológica entre 
mundo e terra, tendo em mente que ela comporta uma mudança no modo de acesso do 
pensamento, razão por que só pôde ser trabalhada por Heidegger via consideração da obra 
de arte e, em última instância, da poesia. 
Assim, num primeiro momento, nosso trabalho buscou mostrar um limite no projeto 
da ontologia fundamental de Ser e Tempo: justamente a exclusividade do ponto de partida 
do ser-aí como ser-no-mundo para a concepção da essência da verdade do ser em geral, da 
verdade enquanto desencobrimento. Ser e Tempo, na medida em que pergunta pelo sentido 
do ser em geral, e, portanto, pelo ser de todo ente, põe em jogo um conceito de verdade que 
não pode ser limitado ao ser do ser-aí, mas que constitui antes o conceito da verdade 
enquanto tal. O caráter da verdade enquanto tal diz respeito ao ser de todo ente. O limite 
diria respeito então à proveniência dos entes que se desencobrem no mundo, pois o mundo 
como totalidade de significância do ser-aí é o aberto do ente em uma totalidade de sentido, 
mas não é a proveniência mesma dos entes. Assim como o ser-aí não cria o mundo, 
tampouco o mundo cria os entes. Contudo, uma vez que Heidegger desenvolve o conceito 
de desencobrimento em completa união com os conceitos de mundo, ser-aí, ser-no-mundo, 
aquilo que no ente é encoberto termina sendo pensado apenas como correlato do não-
encoberto no movimento de descobrimento (Entdeckung) em que se move o ser-aí e onde 
tudo vem a ser. Nessa altura,