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A Origem da Obra de Arte (dissertação)

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e imperscrutável que é elaborada na obra. A terra não é nunca descoberta como o 
que é desvendado, mas “só aparece abertamente iluminada como ela mesma lá onde é 
resguardada e preservada como a essencialmente imperscrutável, que não se entrega a 
nenhuma exploração, quer dizer, mantém-se continuamente encerrada [verschlossen]” (ib., 
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p. 44). Se podemos falar aqui em um acesso à natureza aberto pela obra, é só na medida em 
que este acesso significa um deixar-manter-se-inacessível. Na essencialização da verdade 
tal como acontece na obra, a natureza vem a aparecer como este inacessível, que não 
permite nenhuma intervenção em seu íntimo estar-em-si e crescer-por-si: “e-laborar [her-
stellen] a terra quer dizer: trazê-la ao aberto como aquilo que se encerra” (ib., p. 44). 
Heidegger pensa pelo encerrar-se da terra, ademais, algo que muito se aproxima do mundo, 
enquanto unidade de vias e relações: 
 
Todas as coisas da terra, ela mesma no todo, confluem para um uníssono metamórfico. Mas 
esse confluir não é nenhum dissolver. Aqui corre a torrente da delimitação que, 
imperturbável em si, delimita cada presente em sua presença. Assim, em cada coisa que se 
encerra, está o mesmo desconhecer-se (ib., p. 44). 
 
O uníssono metamórfico está encerrado, mas é ele que delimita cada presente em 
sua presença, isto é, ele delimita os entes no aberto do mundo e nesse sentido resguarda em 
si o modo aberto do mundo (encerrar significa “guardar em si”, como indica um uso 
corrente da palavra). Tal proximidade tem de ser compreendida na visão de que a diferença 
entre mundo e terra é uma diferença de tendência, ao mesmo tempo em que mundo e terra, 
em sua diferença, se pertencem mutuamente e até se dão em uma fusão originária. Essa 
fusão se explicita ao máximo na unidade da obra, no fato de a instalação de um mundo e a 
elaboração da terra serem dois rasgos essenciais no ser-obra da obra que pertencem juntos à 
unidade do ser-obra. Essa unidade se resguarda no estar-em-si da obra. Heidegger agora 
buscará esse “fechado e íntimo repouso do repousar-sobre-si” (ib., p. 45). 
O repousar-sobre-si da obra é tal que encerra a mais alta mobilidade, a íntima 
reunião do movimento (ib., p. 45). Não se trata de uma contradição lógica, mas da 
contraposição de mundo e terra: 
 
O mundo é a abertura [Offenheit] que se abre das vastas vias das simples e essenciais 
decisões no destino de um povo historial. A terra é o vir-à-frente para nada impelido do 
constante encerrar-se e assim acolher. Mundo e terra são essencialmente diferentes um do 
outro e, não obstante, nunca separados. O mundo se funda sobre a terra e a terra se ergue 
atravessando o mundo. A relação entre mundo e terra de modo algum degenera na unidade 
vazia da contraposição que não leva a nada. O mundo aspira, em seu repousar sobre a terra, 
fazê-la sobressair. Como aquele que se abre, não tolera nenhum encerrado. A terra, porém, 
como a acolhedora, tende a cada vez a puxar o mundo para dentro de si e em si mantê-lo 
(ib., pp. 45-6). 
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Essa contraposição é um combate [Streit] no qual os combatentes – mundo e terra – 
levantam um ao outro a cada vez e sempre mais, na auto-afirmação de sua essência. A terra 
não pode prescindir do aberto do mundo, uma vez que ela mesma deve “aparecer na 
pressão liberta de seu encerrar-se”; o mundo não pode pairar sobre a terra, uma vez que 
deve “como órbita e amplitude dominante fundar todo destino essencial em algo decisivo” 
(ib., p. 46). Tal relação – o combate originário – se essencializa na obra; esta é a 
“instigação” desse combate. “A disputa do combate é a constante reunião que se força ao 
extremo da mobilidade da obra. Na intimidade do combate, por isso, o repouso da obra a 
repousar em si tem a sua essência” (ib., p. 47). É notável que aqui a disputa do combate 
entre mundo e terra significa inteiramente: essencialização da verdade46. Daí que Heidegger 
tão-logo levante a pergunta: “em que medida acontece, no ser-obra da obra, o que agora 
quer dizer: em que medida acontece, na disputa do combate de mundo e terra, a verdade? O 
que é verdade?” (ib., p. 47). 
Não por acaso, após fazer a pergunta, o autor envereda por alguns parágrafos de 
crítica ao nosso “diminuto e obtuso saber da essência da verdade”, à “negligência com que 
nos entregamos ao uso dessa palavra fundamental” (ib., p. 47). No combate de mundo e 
terra, não se trata, com efeito, de uma certa verdade, ou de algo de verdadeiro que vem a 
ser. É a verdade mesma que se essencializa. O que quer que pensemos sob a palavra 
“verdade”, ela se impõe a qualquer pensamento como o não-encobrimento, o meio aclarado 
(Gelichtete) onde o ente aparece enquanto ente (ib., pp. 50-1). Se o não-encobrimento do 
ente já não nos tivesse exposto nesse aclarado, “no qual todo ente se nos salienta e a partir 
do qual ele de novo se recolhe”, nós nada seríamos com nossas “representações corretas” e 
nem mesmo poderíamos pressupor que algo pelo qual nos orientamos já fosse manifesto. 
Somos lançados nesse meio aclarado de uma clareira (Lichtung) (ib., p. 50). 
Agora, ao retomar a discussão sobre a essência da verdade, o autor intensificará 
também o sentido da contraposição de mundo e terra. O que há pouco mencionamos como 
uma diferença entre mundo e terra que, no entanto, se dá em uma fusão, revelar-se-á o jogo 
 
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 W. Marx observa que o conceito de mundo, em comparação a Ser e Tempo, em “A Origem da Obra de 
Arte”, “definido em termos de conteúdo, move-se agora em uma relação mais próxima à verdade. (...)”, pois 
“o ‘conteúdo’ que irrompe do combate primordial de não-encobrimento e encobrimento é o combate de 
‘mundo e terra’” (MARX 1989, p. 185). Mundo só pode ser definido “em termos de conteúdo” uma vez que é 
pensado na relação essencial à terra. 
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de luz e sombra entre o encoberto e o não-encoberto no modo de ser da própria verdade. Ao 
mesmo tempo, esse jogo entre encoberto e não-encoberto revelará a essencial pertença do 
ser-aí à essencialização da verdade, uma vez que ele é o lançado neste jogo47. 
É graças à clareira que “o ente é não-encoberto segundo determinadas e mutáveis 
medidas.” Essas medidas só vigoram como medidas para o ser-aí. Mas é notável que já não 
é mais o ser-aí a própria medida, a clareira ou o foco de amarração de toda medida e 
possibilidade, o worumwillen, o em-razão-de-quê de Ser e Tempo. Essa profunda 
modificação foi possibilitada pela integração da “terra” à noção de verdade, pela sua 
integração ao “mundo”, que já não é mais o mundo de referências de Ser e Tempo. É para o 
ser-aí, como ente lançado na verdade do ser, que a verdade se encobre e se revela – não 
porque haja uma grande verdade, mas porque verdade enquanto tal se dá, devém em sentido 
originário. 
 
Até mesmo encoberto o ente só pode ser no espaço de jogo do aclarado. Qualquer ente que 
vem ao [nosso] encontro e que [nos] acompanha detém esse estranho poder de oposição da 
presença, na medida em que ao mesmo tempo sempre se recolhe em um encobrimento. A 
clareira na qual o ente se insere é em si ao mesmo tempo acobertamento (ib., p. 51). 
 
Esse acobertamento tem dois sentidos. Ele é a recusa (Versagen) a se mostrar do 
que se acoberta. Mas pode ser também uma camuflagem (Verstellung), onde “o ente se 
impele para o ente, um eclipsa o outro, aquele obscurece este, pouco obstrui muito, isolados 
renegam o todo” (ib., p. 52). Em suma, no modo da camuflagem o ente de fato aparece, 
mas ele se dá de outro jeito do que ele é – ele não se mostra, como na recusa, em seu 
acobertar-se. É por isso que damos passos em falso e nos iludimos. Mas quão longe 
 
47
 Com isso reencontramos a observação inicial de que a proposta do ensaio de Heidegger sobre a arte tem por 
centro a questão do ser e,